sobre o filme guapira – catadores de histórias – por Rodrigo Espinosa Cabral
NO VALE DAS VELAS E CASSETETES
Texto sobre o documentário “Ocupação Guapira”, de Rafael Adaime, São Paulo 2005.
Baixe o filme no website www.pirex.com.br
Adaime tem uma câmera que poderia ser você, se você não estivesse ocupado sendo você mesmo em volta de sua gravata, rezando para que um banco estabeleça ou amplie o seu limite. Se você fosse onde foi a câmera de Adaime, você veria pessoas de osso e carne e quase sem almas ou com a alma comprimida, espremida em olhos negros e assustados como um suco de esperança estragada.
Que coragem desse rapaz em entrar com uma simples câmera entre capacetes e cassetetes, entre mandados e petições, num prédio cercado por soldados de azul, oficiais de justiça e clandestinos na injustiça de ser expulsos do local abandonado e escuro em que foram forçados a morar.
Na língua dos primeiros habitantes de São Paulo, Guapira significa “lugar onde começa um vale”. Na lente de Adaime esse vale é verde musgo, como na cena da oração. O verde atribuído à esperança desta vez se apresenta musgoso. Guapira é o vale das sombras e sobras da sociedade e vale a pena assistir os 15 minutos desse documentário REAL e sincero, onde mesmo a performance artística de Fabiane Borges é interpelada por uma sem teto “Que, que é isso? Vocês vieram pra quê?”
Eu diria que os Catadores de História foram até lá para documentar a desocupação, talvez na esperança de que a câmera ajudasse ou protegesse a comunidade envolvida. O problema é que as pessoas sempre querem que o cinema vá onde elas não podem ir. Nos filmes, as pessoas torcem para que o bandido fuja da prisão, que o roubo dê certo e que o mundo seja salvo. Por isso a frustração da ex-moradora, por isso todo o impacto e frieza do filme, que se limita a exibir os fatos com crueza e arte, mas sem voice over, sem legendas, sem fundamentar posições de forma verbalizada.
Apenas no final, quando somos informados que os sem teto conseguiram um novo apoio, é que há uma gentileza de Adaime para com a audiência, liberando um mini-alívio com “Senhor Cidadão”, de Tom Zé. Uma música mais animada (embora questionadora) enquanto alguns moradores são mostrados sorrindo. O efeito funcionou muito bem, em conjunto com a música de Felipe Ribeiro que aumentou o suspense e a tensão dos fatos durante todo o filme. O Tom Zé no final dá algum alento para a platéia.
Uma vela no vale dos cassetetes.
Rodrigo Espinosa Cabral


