a roupa nova do rei – nova pasta e zox

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Catadores e A roupa nova do rei – sesc paulista

Sobre o texto do andersen; há o imperio, a relação da roupa com o status e o saber sobre o belo, o elegante, a arte dos tecelões…

Há, por parte da corte, a implicação de um suposto saber aos tecelões, que sustentam a posição até o final.

1-Rafa: começamos com a roupa nova do rei do andersen. a primeira sensação: onde estão as janelas dessa história? a impressão de não haver janelas… e hoje é de janelas, ou de vitrines, que se trata. …como na maioria das histórias infantis, nessa também há predominio da moral… impossibilidades de fugir pelas beiradas do texto… tudo começa pela descrição do rei… “adorava ter as mais belas e finas roupas. ele gastava a maior parte de seu tempo e dinheiro comprando maravilhosas vestimentas!” Uma espécie de arapuca moral que incomoda o desejo por multiplicidade, pois é o próprio autor que escolhe previamente como deveremos interpretar a história… ele continua: “o imperador não estava muito interessado em governar o seu país…” …ele tem uma tara, um vício, uma incontrolável e vigorosa vontade de usar roupas bem transadas… o que pensar sobre isso? Podemos ser radicais e dizer: há mal pois trata-se de um rei, ponto final, pois rei é sempre mal, assim como o capitalista, o papa, o fascista, etc… fica explícito que o autor quer destituir qualquer possibilidade de simpatizarmos com o soberano, criando um texto semelhante aos modos políticos que ele próprio pretende criticar… um texto fechado, sem janelas, sem saídas, semelhante a qualquer império bem administrado… algo de maquiavélico no dominio da arte.

1-Fabi: …uma história moralista, unilateral que impõe fixos valores ao leitor sem dar espaço para outras possibilidades. Andersen cria um rei burro, vaidoso, egocêntrico, que não quer saber de governar, e sim quer somente tratar seu guarda-roupa real. Também me sinto tentada a penetrar nas complexas tramas subjetivas do rei. A fatalidade de uma vida destinada ao poder imperial que não para de sonhar em ser artista, estilista e lançar moda. Não teria o rei um desejo inconfesso de ficar nú perante seu povo? Um povo que o empodera e o persegue ao mesmo tempo… que lhe espia até o fino peido, e cochicha seus gestos nem sequer executados. O povo que lhe legitima o poder e também lhe aprisiona. Sim, sim, sim… O desejo de nudez do rei em conexão com a malandragem dos vigaristas… Conexão ativa entre o desejo de nudez do rei e ação falsária dos dois bufões. O rei como figura de poder real e os vigaristas como figuras de interferência no poder real se conectam em uma vontade de nudez da realeza. Ambos sofrem o peso da condição da representatividade: um enquanto herdeiro de um destino que lhe outorga autoridade, outros como iconoclastas que vivem nos interstícios do suposto super controle do império. O autor não dá conta dessas complexidades. Prefere induzir a história a um hegelianismo exagerado, onde os personagens tem papéis definidos e os vigaristas são vistos como forças de um fora-do-reino, completamente desconectados. Uma historinha infantil banal como a maioria.

2-Rafa: Aí aparecem os (falsos) tecelões, apresentados da seguinte forma: “um dia, dois vigaristas… decidem tirar uma certa vantagem sobre o Rei” …executarão a vingança coletiva… darão uma lição no vaidoso e incompetente monarca… assim quer o autor. Vamos abrir janelas para evitar interpretações eternizantes… esse Rei não parece ser a personificação do mal por gostar de roupas e não de polítca; inclusive não gostar de governar pode ser uma virtude em outra perspectiva… mas ele também não é um anarquista coroado, como fora Heliogábalo que ao chegar em Roma sobre sua carruagem ornada com um enorme falo dourado de dez toneladas, puxado por 300 touros enfurecidos, acompanhado por um cortejo de pederastas, atores, dançarinas… Heliogábalo, o rei humano e o rei solar, homem e mulher, coroado em Roma expulsa os homens do Senado e os substitui por mulheres, proclama a anarquia, o teatro e a poesia; promove um dançarino a chefe da guarda Romana… Heliogábalo-imperador comporta-se como um vagabundo e um libertino irreverente. Na primeira reunião mais solene pergunta aos nobres, senadores e legisladores de toda ordem se também haviam conhecido a pederastia na juventude, se haviam praticado a sodomia, o vampirismo, a fornicação com animais… é evidente que no rei de anderson não há nada que o assemelhe a heliogábalo, mas ao menos, temos aí o exemplo de uma outra figura de Rei… e haveriam muitas outras que nos levariam a deixar de lado nossas tendências a identificação de classes representativas… essa mudança de perspectiva nos ajuda a deixar de lado maniqueímos reducionistas… agora com uma janela arrombada podemos dar uma olhada nas forças que estão em jogo no campo de batalhas dessa historinha… A vida como luta de força só se dá em contato… O que há entre o rei e os tecelões, independentemente da adjetivação determinista do autor – espírito ressentido e de vingança – ;é a ação de uma potência falsária da arte, mesmo que como blefe, como o palhaço que agencia, contamina e cria o desejo de experimentação da diferença (o tecido estrangeiro) possibilitando ao rei deasmanchar seus velhos territórios e tornar-se, mesmo que por instantes, um outro até então desconhecido… o rei nu.

2-Fabi: Pensar o rei como um palhaço é libertador na medida em que liberta a figura aprisionante do rei e do palhaço. Quem já botou o nariz de palhaço na alma sabe bem do que se trata. A ingenuidade e inocência que se atribui ao palhaço não condiz com sua natureza múltipla. O palhaço pode ser bem mau e atuar com as forças do mais profundo desespero. Os clowns negros como se chama por aí. O palhacinho da alegria insossa não passa de mais uma das imagens a ele atribuida, assim como a do rei poderoso também é fragmento imagético. O palhaço assassino, o rei idiota, o palhaço no palácio. Essa analogia começa fazer sentido, quando pensamos no nariz do palhaço e na coroa do rei como representações impostas por forças que estão além deles, que se constituem como fenômenos advindos de uma multidão conivente e desejosa, ou seja, a vontade de poder existente na cultura, na memória, na tradição estruturalista perpetua a coroa do rei. Desse ponto de vista é possível compreender a coroa do rei, do governador, do papa, do pastor, do pai de família como a explicitação de um desejo investido por tudo o que não é rei, ou seja, o artesão, o sem teto, o que vota, que elege, que outorga ou que toma o poder. Eles-nós estamos por aí nas vitrines, nas calçadas, nas passeatas. Claro, a própria exposição já fala desse rei aflito, quando lhe coloca um nariz de palhaço na barriga. Um nariz melancia. Que tenta tapar o buraco do estômago que dói tanto quanto a fome. A fome-buraco do rei.

3-Rafa: os tecelões como falsários porque em seus corpos agem forças que acabam permitindo ao rei experimentar sua nudez em publico. não sabemos o que acontece ao rei depois da criança anunciar sua nudez; inclusive a criança não interpreta a situação, só anuncia… o testemunho que opõe uma verdade sem poder a um poder sem verdade… e o rei segue caminhando, fingindo não ter acontecido nada. depois não se sabe, a história acaba. Essa potencia do falso, comum a arte, as drogas, ao amor, como fluxos que desmancham certezas e segurança também está visível na vitrine da paulista… a começar pela narração que deixa de ser verídica, deixa de aspirar à verdade e a uma moral da história para se fazer especialmente falsificante, ou seja, a narração inteira está sempre se modificando a cada uma das janelas, a cada encontro com cada foto, com cada fala ou narração, com um ou outro personagem… segundo lugares desconectados e momentos descronologizados, da esquerda pra direita, de cima para baixo… você é convidado a começar pelos tecelões, mas não é obrigado…uma duas tres janelas se abrem, seis sete ou oito dimensões…

3-Fabi: Existe tanto na vitrine como na história de Andersen, uma certa marginalidade idealizada… Transcendente… que assume papéis definidos no mundo: os pobres miseráveis – que como diz Toni negri – são os possíveis inimigos do império – gente que pode enfrentar o império devido sua nudez real – vidas nuas – vidas sem inscrição nas esferas jurídicas, econômicas e ministeriais, que podem afrontar as forças imperiais pela violência que a sub-existencia promove. Esse é o pensamento manifesto nas ações coniventes com o império. Que os pobres, por não terem nada a perder, podem lançar-se, a qualquer momento em uma louca guerra contra o império com a única força que possuem que é a própria vida. e por isso os cinturões assistenciais, de ongs políticas e religiosas que protegem o império pelo controle moral. Também existe em ambos trabalhos uma espécie de romântica elegia aos artistas da fome… Que em nome do inaudito arriscam-se a renunciar suas próprias inscrições e aconchavos, em nome de um purismo da obra, em nome de um inominável qualquer. Em nome do traço não aceito na exposição convencional da galeria. O marginal como purificação da existência do homem sobre o planeta terra. A marginalidade é signo inscrito no horizonte do desejo e ele se perpetua enquanto força e enquanto forma… E aí chego numa questão cara pra Foucault, que pensa o poder como um campo de batalha das forças e das formas… Um campo de batalha incessante que podemos exemplificar através da exposição dos personagens na vitrine. O rei-poder em nós, os bufões em nós, a melancia no fígado, a miséria emporcalhada das latas de lixos e do pensamento, os medos de ser burro dos ministros e dos rebeldes, as vontades de eternizações do fotógrafo-mídico-histórico, a plebe em nós, os ratos que somos que roem o mundo e que nos roem ao mesmo tempo, a coroa, o sesc financiador, o chocolate… Essas forças matéricas todas que nos atravessam e nos subjetivam e nos tornam o próprio campo de batalha… O trabalho e a vontade de feriado no fígado nosso que filtra, retém e expele elementos demasiados todos os dias.

4-Rafa: a fome-buraco, o buraco-porosidade-atravessamento no estômago… o rato roeu a barriga do rei e lhe fez um favor… abertura de contato com o mundo exterior, o mundo que o peso da coroa-cetro não lhe deixava sentir intensamente… o rei já é outro, e será outro ainda na próxima vez que o vermos, da próxima foto eternizadora apenas do instante. o buraco do rei, o vazio como a fenda de contato direto do corpo com o mundo, o arregaçamento das entranhas… o buraco aberto à coice, aos gritos de um parangomonstro-cavalo que evidencia o que já era fato… o rei mal nascido! Reinventado e colado na janela-limite com as passagens da rua… a tampa-melancia como elemento vegetal-natural que funciona como a comporta de uma represa que deixa entrar vida nova quando dela se precisa, que barra o objeto venenoso para manter a organicidade intacta… porosidade e interioridade escancarada… o rei está nu – o almoço nu… quando vemos claramente o que temos na ponta de nossos garfos. Mas isso é só uma possibilidade, pois nenhuma abertura garante saúde e potência afirmativa da vida… uma abertura também pode exigir o complemento externo de um Deus-melancia-tapa-buraco. O rei mal nascido, atacado por todos os lados na desconexão discursiva…

4-Fabi: E a pobreza… Aqueles sacos pretos todos, as lonas os carrinhos de papelão atados na cintura, os que mal podem expressar-se… Os emplastificados, destituídos de poder, que ao menor intervalo do sufoco exige em gritos de passeatas a coerencia do rei, a organização institucional e a definição de sentidos. A figura do povo e do gari na vitrine da paulista explicita uma condição de existencia muito comum: a da tentativa de organização dos fracos, que muitas vezes não conseguem produzir saída a não ser pela repetição idiossincrática das estruturas dadas. Uma saudade ínfima de um infinito obscuro. O movimento dos sem… Sem terra, sem casa, sem universidade, sem mecenas, sem alimentação, sem empresa… O sem se organizam em torno da falta, uma falta que está na fome da plebe e no estômago do rei. Esses Sem que atrevem-se a inscreverem-se feito tatuagem nas galerias abertas da cidade. Mesmo que não tenham acesso às vitrines, eles inscrevem-se nas calçadas. Mas não há olhos para ver, ouvidos para ouvir. Será que há concatenação possível entre o urro emitido pelas hordas emplastificadas do Taboão da Serra, da Plínio ramos e esse trabalho exposto pra calçada da galeria? Seria possível pensar numa relação possível entre esse surrealismo louco da vitrine e o surrealismo louco expostos e expulsos das calçadas? Não há também um certo surrealismo confuso quando presenciamos a performance da mulher de rua que carrega seus dois filhos nos braços e é interpelada pela carrocinha-que-recolhe-crianças-vira-latas? Eu vi. Tiraram-lhe os dois filhos dos braços e os levaram para as gaiolas-infantis-assistenciais – luta perdida de mulher perdida – ela riscou o peito com a unha encravada, urrou na rua desvairada e delinqüente mostrando aos passantes suas tetas encravadas de leite, esguichou-as na garrafa de coca-cola. Deixou de ser ereta, virou ela própria um buraco na rua, desprovida de qualquer direito constitucional… Bebeu seu próprio leite-coca-cola, de quatro, cadela, tetrapódica, coçando as sarnas das pernas com os dentes careados. Ela é o contra-corpo do soberano. Sub-existe debaixo das cascas da melancia do rei. São Imagens-mutiladas… Revides-expostos nas galerias da rua.

5-Rafa: Já nos deslocamos para outro platô… do texto fechado, sem janelas de Andersen à fotonovela construída por recortes justapostos e sobrepostos que trunca qualquer liberdade analítica, discursiva e ajuizante. Se do rei não sabemos o que poderá acontecer pala ação dos intercessores costureiros, de nós sabemos muito menos. O que dizer de uma vitrine que a cada olhada foge ela própria de uma interpretação eternizante, como deseja o ministro? A obra que foge e nos faz fugir com ela… Como a diferença entre a narrativa em Homero-Ulisses que viaja viaja e encontra um pódio qualquer e sua namorada e a corrida marítima de Ahab atraz da baleia Moby Dick, que é todas as baleias, que é sua saudade do infinito, sua linha de experiência espichada aos limites da vida e da morte… a baleia que foge e faz fugir a razão do capitão… assim como essa vitrine um tanto dissimulada, que nos apresenta um mundo infinito com infinitas saídas… não importam as entradas desde que tenhamos multiplas saídas… esse desejo que atravessa a narrativa em inúmeros pontos de conexão… como no silhuetizador… a reinvenção do rosto que concentra o foco, imita a ave; o furo-olho-buraco de ave que deixa passar algo e logo se desfragmenta ao infinito curvando o corpo-espasmo do homem que se funde com a paisagem… ao mesmo tempo o jato negro jorra da cabeça e a transparência vidro-mundo jorra em direção ao rosto… desterritorialização.

5-Fabi: Não posso deixar de fazer uma intima associação entre as ações dos tecelões falsários e os coletivos de intervenção pública que manifestam um desejo irrestrito de desnudar o poder e viver de feriado. O cavalo deitado na vitrina explicita bem essa idéia… Uma espécie de não ação como resistência ao mundo do trabalho. Uma forma de expropriação financeira baseada na interferência do não gesto, do não produto, da contra-ação. Uma pequeníssima demonstração de um desejo ontológico de descansar dessa ascendência toda, dessa evolução tecnológica escravizante, dessa implacável tarefa de desenvolvimento que o humano se colocou… Uma paralisia resistente., Uma greve humana qualquer. Um corpo animalizado que de alguma forma sobrevive de interstícios, de uma estranha esmola escamoteada. Uma tomada do espaço público da cidade que nos remete a um passado incerto e a um futuro incerto, mas que se presentifica nos planos da contemporaneidade enquanto gesto.

… a exposição na vitrine se manifesta enquanto gesto ínfimo e eloquente. Que talvez não tenha força o suficiente para inscrever-se nos circuitos obtusos da arte contemporânea, mas que possibilita um certo respiro, como se fosse um pequeno carnaval que acontece aquem das grandes produções das escolas de samba. É um gesto simples, mas que como todo o gesto, carrega em si dimensões demasiadas.

Leitura Crítica do Projeto A Roupa Nova do Rei – Uma foto novela na vitrine. Sesc Paulista -SP. 28 de outubro com Ricardo Basbaum, Rafael Adaime e Fabiane Borges.Texto escrito e lido por fabi e rafa.

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