ama de medéia

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

A Ama de Medeia

“A minha mágoa é tanta que fui dominada pela ânsia de vir até aqui contar ao céu e a terra os infortúnios todos da minha senhora” [1].

Nesse dia fatídico que se desenrola a tragédia, a Confidente de Medeia, sabedora dos seus terríveis planos, em lamento ao seu sofrimento toma o frontispício da casa e anuncia a céus e terra o que se passa com seus senhores.

Sendo ela uma espécie de porta voz da tragédia, o coro clama à sua volta: _ “Tu, velha, fala! Ouvimos os soluços no interior da casa resguardada; Sentimos igualmente a aflição de um lar tão caro também para nós [2]”. Então a ama relata ao coro, ao preceptor, ao público o que está acontecendo no interior da casa.

Esses artifícios cênicos aparecem freqüentemente nos textos de Eurípides: alguém narra o que “no decurso da peça há de acontecer” [3] _impedindo que os acontecimentos falem por si mesmos e surpreenda quem os assistem. A “isso um autor teatral moderno tacharia de renúncia propositada e imperdoável ao efeito da tensão” [4], diz Nietzsche, se bem que em seguida ele fala que os trágicos não utilizavam o efeito de tensão como sentimento necessário para a execução de um drama, mas a força da dramatização, o encontro caudaloso da dialética e do phatos, da linguagem e da paixão, de Apolo e Dioniso. De qualquer forma, Nietzsche não percebe esses elementos na tragédia de Eurípides e o trata por racionalista extremo incapaz de inconsciência e um assassino da tragédia, o homem que trouxe a decadência para os palcos gregos.

Outra característica das tragédias de Eurípides, levantadas por Nietzsche é referente ao papel que dá aos diversos segmentos sociais de sua época. Pela primeira vez as classes inferiores têm seu correspondente no palco Ático, alguns dos seus papéis representam a forma de vida de seres comuns de sua época, com reflexões próprias, cientes de suas condições sociais, de gênero e outros elementos em voga na vida política da Grécia na época. Nesse ponto Nietzsche diz que por intermédio de Eurípides ‘o homem da vida cotidiana deixou o âmbito dos espectadores e abriu caminho até o palco” [5], afirmando que esse tipo de tragédia é imitação de linguagens e afetos, fundamentalmente realista e por isso não encontra o éter da arte.

Eurípides era um homem político que por intermédio de suas peças, construídas de acordo com as regras da dialética, trazia a tona elementos novos para o povo Grego. Dizem que sua ascensão foi estupenda e sua fama corria solta por toda sociedade helênica, pois através de suas peças, foi desenhando-se um desejo coletivo, levando em conta a importância que o teatro tinha naqueles dias, de se verem em sua profunda realidade nos espetáculos trágicos. Essa mesma peculiaridade que glorifica e eterniza Eurípides, para Nietzsche não passa de uma vertente terrível que culmina com a expulsão de Dioniso do palco; a transformação do coro – que antes simbolizava a flauta de Dioniso são nas cenas euripidianas, minorias exercendo ações políticas, referentes ao tempo imediato grego: são senhoras idosas, escravos domésticos, bonachões e espertalhões que se tornam o centro do interesse dramático.

Na peça de Aristófanes (as rãs) aparece o personagem de Eurípides dizendo ter libertado com os seus remédios caseiros a Arte Trágica da pomposa obesidade; a isso Nietzsche acrescenta: “Graças a essa transformação da linguagem pública, ele tornou possível, no todo, a comédia nova” [6].

Mas afinal, o que representa a ama em Medeia nos idos do séc. IV a.C? Era o povo conhecedor da mitologia, analista político, consciente de sua condição de gênero e classe social como o era a Ama de Medeia? No início da peça, vemos a ama dando um panorama geral do universo da tragédia, narrando as aventuras de Jasão e Medeia nos mares em direção a Cólquida, enfrentando perigos atrás do velocino de ouro, de suas abomináveis tramas com as filhas de Pelias, fala do esforço de Medeia para ser aceita pelo povo de Corinto, faz algumas constatações culturais, dá conselhos, constrói excelentíssimas análises da personalidade de Medeia dignas dos maiores dos personalistas, psicólogos, analistas, enfim ela é dedutiva, pensa nas possibilidades mais evidentes e prevê acontecimentos com facilidade. Em seguida a vemos exercendo suas pequenas artimanhas políticas, ao se aconchavar com o preceptor, apela para seus ideais de classe já prevendo a “mais valia” marximiana: “Não, por teu queixo! Nada deves ocultar á companheira deste longo cativeiro” [7], ela é um catalisador de informações, está sempre ocupada em alertar os filhos, falar com as senhoras gregas, interceptar o preceptor, assim vai realizando pequenos atos essenciais a ambientação da peça, até que é convocada por Medeia a ser conivente na execução dos seus planos. Medeia apela que a ama vá buscar Jasão no palácio dizendo: “Vai, traze Jasão para cá; Recorro a ti quando a missão requer pessoa confiável. Não fales a ninguém de minhas decisões se queres bem à tua dona e se és mulher” [8], a ama sai; consciente da sua condição de gênero feminino, honrosamente realiza sua parte. Uma ama trágica?

Poderíamos pensar que Medeia por seus artifícios mágicos e poder de vidência já teria escolhido sua ama de antemão por prever sua excepcionalidade; também poderíamos pensar que o surgimento da polis grega, fundada na democracia e autos níveis de discussões políticas, com direito a votos e aplausos aos melhores oradores, trouxe consigo um forte sentido de classe. Eurípides assim como Aristófanes trazem essas cenas a luz do palco: nas peças “As nuvens” e “Lisístrata” de Aristófanes, aparecem personagens representando vários segmentos sociais da Grécia: homens endividados, neófitos atrás do pensamento dialético, mulheres reunidas na Acrópole conjurando o fim das guerras; essas coisas nos levam a crer que esse período grego trouxe grandes saltos na produção de pensamento das classes inferiores ou minoritárias. Mas Nietzsche vai dizer que tudo isso foi a derrocada Grega cujo Sócrates é um dos expoentes: _ Sócrates amigo de Eurípides – Eurípides a máscara de Sócrates – Eurípides através de quem Sócrates falava à Grécia seus impropérios decadentistas e metafísicos. Ambos destroem a tragédia esquiliana.

A dor de Nietzsche é reconhecer que a tragédia de Eurípides não é capaz de tangenciar o que Eliade denomina o Grande Tempo: “O mito reatualiza continuamente o Grande Tempo e dessa forma projeta quem o ouve a um plano sobre-humano e sobre-histórico que entre outras coisas, proporciona a abordagem de uma Realidade impossível de ser alcançada no plano da existência individual profana” [9], o que Nietzsche chama em seu primeiro livro de “uno primordial” (mais tarde ele abandona esse termo por sugerir unidade e origem, o que vai contra o seu pensamento filosófico posterior), que é o desmantelamento do principium individuationis. Para Nietzsche, a tragédia tinha essa aura fatalista, de louvor à vida, de coragem, que transporta o expectador a uma outra dimensão do tempo, não mais o tempo individual profano especialidade de Eurípides.

II Questões

I – Não teria Eurípides resgatado essa aura trágica, da qual Nietzsche fala, em suas peças, mesmo sob a influência “demoníaca” do racionalismo socrático? Seus personagens se eternizaram com tamanha força sensível no seio ocidental, que me custa pensar que sua obra consuma o assassinato da tragédia.

II – O que terá acontecido com a ama depois de sua última aparição no palco, justamente feito na hora do convite à conivência feito por Medeia: “Traze Jasão para cá; recorro a ti quando a missão requer pessoa confiável; Não fales a ninguém de minhas decisões se queres bem à tua dona e se és mulher”.


[1] Cfe. Eurípides. Medeia. Jorge Zahar Editor. RJ. 2001.Verso 70

[2] Idem. Verso 150

[3] Cfe. Friedrich Nietzsche. Nascimento da Tragédia. Ed. Companhia das Letras. SP. 2001 aforismo12. P. 81

[4] Idem

[5]Idem

[6] Cfe. Friedrich Nietzsche. Nascimento da Tragédia. Ed. Companhia das Letras. SP. 2001 Aforismo 11. P. 73

[7]Cfe. Eurípides. Medeia. Jorge Zahar Editor. RJ. 2001. Verso 80

[8] Idem. Verso 940

[9] Cfe. Mircea Eliade. Imagens e Símbolos. Ed. Martins Fontes. SP.1996. P. 56

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