arte e sem tetos em tudo contemporâneos

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Arte e Sem Tetos em Tudo Contemporâneos

ACMSTC- arte contemporanea no movimento

dos sem teto do centro. Dezembro de 2003.

No centro da cidade de São Paulo, em dezembro de 2003, houve um

ritual de interferência e celebração à vida. Eu, Cassandra, fui

incumbida de narrar-lhes o acotecimento. Peço que compreendam a

maldição que sofro por ter repudiado o amor do deus da razão, que

por despeito fez-me gaga e balbuciante, incapaz de expor logicamente

as travessias que o destino me força perpetrar. Eu, mulher

despedaçada, dou-lhes meu testemunho desarrazoado, misturado

a vidências incongruentes, sobre o que se deu no Templo dos

Sem-Teto. Adianto que foi um Encontro Arte Contemporânea

junto ao MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro de São Paulo)

na Ocupação Prestes Maia.. enquanto arrisco um modo de dar

forma sígnica ao que se sucedeu, imagens vibrantes me ocupam,

exigindo moradia nesse texto.


Quando vi o Templo pela primeira vez senti-me arrebatada

para um outro Tempo. Entrei como que no negativo de uma foto antiga.

O prédio Prestes Maia impressionou-me sobretudo por sua arquitetura

e suas histórias. Soube que por muito tempo serviu como antiga

tecelagem, onde mulheres nada Penélopes teciam e faziam greves;

era uma fábrica de tecidos, de engrenagens lentas e repetitivas.


Trinta e cinco andares de galpões abandonados durante vinte anos

em função de dívidas, que agora são ocupados por dois mil sem-tetos.

Estes criaram no interior desses espaços suas casas de tábuas de

texturas distintas, lonas pretas, vidros achados nos lixões da cidade,

pregos tortos e enferrujados. Verdadeiras instalações montadas a

partir do que se encontra no caminho, no entulho e também nas casas Bahia.

Ao impacto espaço-temporal dessas duas mil vidas, reagi clamando

pelas matilhas criativas escondidas nos edifícios cinzas, espalhados

pelos corredores da megalópole. Eu, um corpo através do qual

forças para além de mim emitiram sua vontade. E as matilhas,

alertas como estavam, vieram de todos os lados, cada qual

com seus coletivos e suas guarnições tecnológicas, performáticas,

teatrais, musicais, corporais, sensoriais e mais.

Estranheza! Cento e vinte artistas cheios de instalações,

objetos conceituais e símbolos, encontrando uma ocupação do

Movimento dos Sem-Teto; 470 famílias subsistentes, em tensão

na luta por moradia, cujo cotidiano é um verdadeiro estado de

sítio: reuniões, assembléias, votações paseatas e negociações

initerruptas com as várias instâncias político-administrativa do

país. Como poderia não ser estranho? De que forma mundos

tão difierentes poderiam se encontrar? Que conexões possíveis

teriam movimentos tão alheios um ao outro? Essas são questões

que perduraram durante todo o tempo do Encontro e ainda persistem.

Eu e meu amigo Don Quixote das artes, conhecidos também

como Túlio Tavares, fomos impelidos a coordenar esse

“Estranho Encontro”. Coordenação experimental, sem controle

de coisa alguma, em tudo esquizofrênica, sem nenhum tipo

de finaciamento, cuja existência sustentou-se naquelas três

semanas do encontro, porque a palavra coordenação era de

longe a mais utilizada dentro da ocupação: coordenação do

movimento, do prédio, dos andares, da juventude… Nossa única

proposta aos artistas foi que entrassem em contato com o espaço,

com as pessoas, com seus modos de vida e que , apartir desse

encontro, se pudesse, sem pusessem em obra.

No decorrer do processo de “Ocupação na Ocupação”, o prédio,

os andares, os moradores e os artistas foram gradualmente

sendo ocupados. A palavra ocupação foi se tornando

comum e plena de significados, instalando-se em nossos pensamentos

feito a lacraia que se instalou na cabeça de um dos personagens

de Alan Pöe, que ao atravessar seu crânio, de uma orelha à outra,

expeliu centenas de larvas de cem pés. Quantas faíscas loucas nãos

suscitariam essas forçadas sinapses centopéicas?

As vezes acho que esse encontro foi um ritual de fogo:

o encontro de forças de mundos distantes, incendiando o

cotidiano de mais de duas mil pessoas. O fogo para esta ocupação

é signo especial, que lhes arde inescrupulosamente, e quemima

quem quer que se aproxime com a veemência do seu terror.

Quatro andares das paredes que abrigavam tantos sem-tetos

incendiaram no dia 7 de setembro de 2003, dois meses antes

do nosso Encontro. Diante dessa fatalidade tiveram que reinventar

espaços, agregar famílias, criar mutirões de colabroação, e produzir

novos agrupamentos dentro do prédio. Essas chamas se mantêm

acesas e e inflamam a potência dessa singular coletividade. Pensar o

Encontro como um ritual de fogo está para além de uma analogia

propícia, está mais como competência de perceber os campos de

forças que se estabelecem quando se deseja realizar uma ação.

transpassada por todas essas forças, fui sendo transfigurada em

minha própria obra.


Entreguei-me a devires que me atravessaram durante o

tempo de “ocupação na Ocupação”. Sentia alegria ontológica

por estar conectada a um movimento social feito poruma grande

maioria de mulheres, com destino tão diferente do que

coube às minhas derrotadas companheiras troianas, que não

tiveram forças para reconstruir acidade incendiada. Às vezes

me sentia como mistura de Kali e Morigan – que entre outras coisas,

simbolizam a destruição nas mitologias indiana e celta -; em outros

momentos me sentia imensa como Iemanjá, então vestia branco e,

cheia de lenços pelo corpo, devaneava águas, seios fartos, ondas

e repuxos; às vezes estava triste, só triste, e me vestia de dor;

e ainda: guerreira, aludida as grandes matilhas femininas das

sem-teto e a Petensiléia – a cadela de guerra!

O encontro dos moradores com arte e artistas provocou

notórias transformações em seus hábitos em relação ao prédio.

As pessoas começaram a “passear” pelos corredores e escadarias,

subir ao terraço do último andar e ver São Paulo de cima – visão incrível

sobre a cidade – coisa que não era conhecida pela maioria dos que viviam ali,

assim como não era comum subir aos andares dos escombros do incêndio.

Tinha-se pânico desses andares, evidenciado nas falas infantis repletas

de assombração e perigo: “Têm um homem que aparece lá e

mata as crianças. Lá as máquinas do antigo elevador funcionam

sozinhas; a alma da menina que morreu queimada fica chorando de noite”.


Eram andares proibidos que, aos poucos, foram sendo ocupados

com pinturas nas paredes, instalações e oficinas, que serviram como

dispositivos de retorno.

As crianças se ofereciam como que em sacrifício sagrado à ocupação

de criação. Nos guiavam pelo prédio, levavam-nos a esconderijos

secretos, ao “andar das vovós”, às mães, aos tios, enquanto

aprendiam a mexer em nossas câmeras de vídeo, máquinas fotográficas,

construir monóculos, tocar tambor em latões, cantar. Essas pequenas

vidas crescidas dentro de ocupações, ajuntamentos públicos e expulsões

de prédios pareciam ter pressa de aprender tudo e exigiam habitar o

mundo da arte.

As matilhas criativas foram inventando estratégias de encontro dentro da

ocupação. Uma delas – Coletivo Bijari – enviou cartas para vários

moradores, deu o endereço duma casa lá dentro e aguardou

respostas. Uma delas foi marcante, a moradora escreveu: Vêm nos

sugar, tiram-nos tudo o que temos, bembem nosso sangue, como

se não soubéssemos”. Carta dispositivo de angustiada reflexão.


Fizemos esse encontro porque somos sanguessugas?

Queremos tomar dos Sem-Teto sua força? É sangue o que queremos?

Sim, me pareceu dizer a voz de Cida, moradora do 19° andar

quando falou: “Ser uma Sem –teto deu sentido para minha vida.

O momento de ocupar um prédio é o mais emocionante. Meu coração

batia forte, mas tão forte! Quando a gente entrou aqui tava tudo escuro,

cheirando a esgoto, sem luz, sem água, cheio de entulho… Aí é

que vem mais força, todo mundo se ajudando, se organizando, fico

arrepiada só de lembrar!”

Estava claro que se tratava de sangue. Foi um encontro de de transfusão

de sangue! Transfusão de potência! tanto que num dia apareceu uma

faixa na parede, que dizia em letras garrafais: “VISTA SUAS VEIAS”.

Assim como essa faixa, muitas outras leituras foram sendo colocadas

pelos corredores, pelas casas das pessoas, sem que ninguém,

ou quase ninguém, assinasse sua autoria. Não tinha hora marcada

para as coisas acontecerem. Elas apareciam dependendo das linhas

que iam sendo tramadas naquela antiga tecelagem. Evento sem hora

marcada, nem assinatura das obras.

O mais difícil foi lidar com os jornais. Não tínhamos assessoria de

imprensa, mesmo assim apareceram jornalistas de todos os grandes

jornais da cidade de São Paulo nos pedindo explicações concretas.


Eu e Don Quixote os levávamos dentro das casas para conhecerem

as pessoas e tentar que compreendessem que não se tratava de

exposição em galeria exótica. Não era exibição, era transfusão!

Mas a imprensa não entende nada de transfusão, e as notícias

que saíram nos jornais de forma alguma traduziram o que se passava.

Dessas trocas sanguíneas que falávamos, uma moradora foi

exemplar – Célia Moreira – de casa toda feita de bambu e ervas

de cheiros fortes. Em nosso primeiro encontro nos serviu café e

leu uma de suas poesias: “versos de ironia”. No segundo encontro,

com don Quixote das Artes, ela falou que era estilista e sua moda

significava a união do absurdo e do ridículo. Mostrou suas roupas

feitas de garrafas plásticas coloridas, sacos de batatas, semente

e pastos encontrados pela Terra. Não houve dúvidas, faríamos

um desfile! Célia convidou a mim e várias sem-teto para vestir suas

roupas. Interroumpemos a reunião do último encontro dos artistas

no prédio, com batidas de tambor e vestimentas “ridículas e absurdas”

pelo corpo. Célia radiante dizia: “Estou viva! Estou viva! Eu sou gente!”


Suas roupas, nunca vistas, agora ganhavam forma em corpos de várias idades.

A maioria dos participantes do Encontro não chegavam aos 30 anos.

Por isso me pergunto se o que aconteceu na Ocupação Prestes

Maia foi um ritual de encontro dessa nova geração, uma espécie

de deflagração do zeitgeist contemporâneo!? Há algum tempo esses

artistas têm experimentado novos modos de produzir suas obras.


O acontecimento que se deu na Ocupação Prestes Maia me parece

ter sido fundamental para o fortalecimento dessas ações artístico-urbanas

em São Paulo.

Mas houve também momentos de resistência à nossa ocupação artística,

que indicaram que os preconceitos raciais, religiosos e de classes sociais

se faziam atuantes: alguns sem-teto interpretaram nossa cghegada como

entretenimento de gente rica; uns outros se negaram a fazer parte do

processo, fechando suas portas; alguns crentes se chocavam

com nosso comportamento irreverente, alguns artistas não conseguiam

se envolver com os moradores.

Era a travessia de uma maioria de estrangeiros brancos, universitários,

intelectualizados, tecnologizados a uma zona de conflito ocupada por uma

maioria negra, empobrecida, com poucos recursos de educação institucional,

num prédio desprovido de telefones e computadores, que se ilumina

precariamente por gambiarras. Negar essas diferenças seria fechar

os olhos para o abismos de classes e de raças existentes nesse país.


Para mim esses confrontos fizeram muito sentido. Intuí que eram necessários

para evidenciar a radicalidade desse projeto, para possibilitar experiências de

riscos subjetivos, para propor modos de criação que surjam do contato com

um mundo povoado de vidas, e não só com paredes brancas.


Para terminar, confesso-lhes que ainda estou atordoada,

não sei bem o que aconteceu. Escreveria muitas páginas

mais, se assim pudesse, para dar-lhes idéia do acontecimento.


Posso dizer-lhes que tudo segue vibrando. Artistas continuam

indo ao prédio; vários deles se juntam semanalmente para

trocar suas experiências; ações coletivas estão sendo pensadas

para 2004. A ocupação ganhou posse do edifício, as pessoas

vão ser encaminhadas provisoriamente para outros prédios,

os moradores dessa ocupação vão se separar e a pultima festa

que os ajuntou, foi a festa do nosso Encontro. Temos convites

para participar das Ocupações que se seguirão – Adrenalina!

Enfim, em vidência lhes secreto que esses movimetnos não se extinguirão!


Estamos com sede da cidade, com desejo de ocupá-la, instalar-nos

pelos espaços públicos. É a forma que encontramos de interferir

e celebrar a vida.

Sua tresloucada, Cassandra.


faixa: fabiana rossarola

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