Blog Entry casa das mulheres – uma experiência clínica de intervenção

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Casa das mulheres

Como era possível trabalhar com a idéia de inclusão social com crianças tão ébrias e lúcidas? Não só elas, todos os outros zombeteiros de rua. Acreditar que se pode tira-las de sua “viagem de viver na rua” a fim de integrá-las no convívio social comum de serviços e escolas. Como ter coragem de pretender incluí-las no mercado de trabalho, no emprego assalariado, nos uniformes coloridos, na vida a longo prazo?

Então me vi amarrada a um outro paradoxo insustentável: a de que os maiores inimigos do revide escandaloso colossal eram as organizações não governamentais, as pastorais católicas e os trabalhos assistencialistas do governo, que supriam as necessidades básicas de alimentação, higiene e roupagem, amenizando desse modo o sofrimento dos sacrificados da sociedade, boicotando o condensamento das energias destruidoras.

Sentia-me ressonante às palavras de Negri e Hardt no Império [1], quando pontuam que as armas utilizadas nas intervenções imperiais não começam com armas letais, mas com instrumentos morais, discursos de paz, campanhas de caridade, “guerras justas”, mapeamento da miséria nacional e internacional, esquadrinhamento dos possíveis inimigos. “Essas ONGs estão completamente mergulhadas no contexto biopolítico da constituição do Império; elas antecipam o poder de sua intervenção pacificadora e produtiva de justiça”, preparam o caminho para a intervenção militar que atua como principio de regulação interna da sociedade, cuja principal função é manter a legitimidade do poder imperial.

De qualquer forma estava se tornando insustentável meu estilo flaneur[2], pois por mais que eu tentasse mimetizar-me nos ambientes indiscerníveis, desposar a multidão numerosa que habitava as zonas de despacho, permanecer oculta em meio a suas orgias iconoclastas não conseguia suportar a dor que residia nas ruas. O sofrimento ‘além do corpo e da alma’ dos miseráveis instalou-se em minha pele feito sarna. Eu sofria por contaminação e toda minha disposição em encontrar suas potencias parecia supérflua em relação as suas dores.

Mesmo compreendendo os discursos de paz e inclusões sociais como artimanhas utilizadas pelo poder imperial biopolítico alastrar seu domínio, me vi adentrando ao território das casas de acolhimento aos excluídos, já como psicóloga funcionária de um albergue da prefeitura de São Paulo, meio em dúvida, cheia de piolho e com o cabelo pintado de azul.

Em uma semana de trabalho eu já sabia que não permaneceria no espaço, sairia por vontade própria ou seria demitida. Tratava-se de uma instituição total, paranóica, panóptica, cuja noção de inclusão social estava diretamente ligada ao cumprimento das regras estabelecidas por profissionais do Estado, cujos projetos se constroem a partir de critérios de identidade de classe, readaptação ao mercado de trabalho, preparação educacional para a obediência civil.

Os “educadores sociais” como são chamados os trabalhadores dos serviços públicos dirigidos as populações excluídas eram verdadeiros carcereiros, mantenedores das leis, obtendo óbvio prazer nesse papel. O público usuário do serviço era obrigado a adaptar-se ao sistema de regras prescrito caso pretendessem manter o vínculo com a instituição.

O albergue no qual me encontrava era dirigido ao público adulto feminino, isso pressupunha uma maior rigidez na organização e cobranças morais mais severas, pois além da instituição ter que atuar com a problemática identitária da classe excluída tinham como acréscimo a questão identitária de gênero – evidenciada na quantidade de filhos que essa “categoria” costuma carregar nos braços.

A premissa era que a mulher-mãe tinha como dever cuidar dos filhos e da casa, e essa era uma das leis mais valorizadas da casa de acolhimento onde me encontrava. As mulheres tinham que acordar às seis horas da manhã, arrumar as camas, cozinhar, limpar toda a casa, lavar roupas, cuidar dos filhos, comer na hora certa, procurar emprego e estar de volta a casa na hora da janta se não, não jantavam; tudo isso fiscalizado 24 horas por dia. Não tinham direito a um momento de privacidade, lazer, muito menos um momento de agrupamento independente onde pudessem promover algum tipo de arranjo comunitário. A sexualidade e a vida social era totalmente abolida e sobre esses dois pontos, o poder e a humilhação recaíam mais ferozmente. Esse conjunto de leis previstas no estatuto, somado ao desejo despótico dos “educadores sociais” de fazer cumprir as regras, chamava-se paradoxalmente de auto-sustentabilidade. A massa identitária excluída e feminina obedecia como prisioneira a todos esses pressupostos, com a esperança de serem escolhidas por algum projeto do governo, caso esse concedesse vagas de empregos para o albergue em questão; quem sabe conseguiriam limpar os corredores do metrô, talvez pudessem se tornar faxineiras de alguma escola municipal… De qualquer modo, se não se submetessem às normas sobre elas impingidas, retornariam às ruas da cidade, como de fato aconteceu com muitas mulheres enquanto estive ali.

Já com alguma intimidade com as conversas de rua, fui bem aceita entre esses grupos de mulheres e freqüentava seus pequenos momentos de matilhagem tentando amenizar o poder de instituição a mim atribuído. Matilhagens das escaladas para fazer o almoço, das fumantes, das jovens, das velhas, das crianças, das que lavavam roupas, das que sentavam no pátio para cuidar dos filhos das outras; desse modo fui constituindo uma escuta singular que não era a escuta da instituição e pude avaliar que se sentiam à vontade comigo, quando já não tinham medo de mostrar sua raiva contra a coordenação, quando suspiravam de amor e sexo, quando arrotavam e quando tramavam suas rebeliões coletivas (que nunca aconteceram). A falta de autonomia era o assunto que mais insistia nesses grupelhos, apesar de ser essa a bandeira de orgulho levantada pela instituição. Elas reclamavam muito de não poderem escolher a comida que fariam quando estavam na cozinha, de não poderem dormir um pouco mais, de não desenvolverem suas capacidades, de não terem espaço nenhum de privacidade, de serem vigiadas o tempo todo, de não serem ouvidas em suas propostas.

As instituições dirigidas a categoria de excluídos, geralmente se comprometem mais com as ordenações governamentais e financiadoras do que com o público para o qual trabalham e dessa forma, idiossincraticamente, vão invalidando as experiências de vida das pessoas, reduzindo suas histórias a estatísticas e classificações. Os indivíduos assujeitados vão sendo atirados a uma condição de prisioneiros dentro desses espaços, mesmo não tendo ofendido diretamente à lei. Por não serem produtivos para o sistema de contribuição fiscal e sim um peso aos cofres públicos, não são merecedores de crédito algum. Sofrem a imposição da culpa sobre seus corpos pelos seus desvarios inconseqüentes. Corpos culpabilizados, corpos dóceis, corpos sem acesso nem desejo de acesso aos direitos constitucionais, que lhes prevê direito a moradia, trabalho, escola, lazer[3].

Meu trabalho com as mulheres dóceis dessa instituição em questão foi pontual e único. No primeiro dia que finalmente as agrupei todas no pátio do albergue, depois de um mês de escuta intensificada, aconteceu o imprevisto: uma explosão descomunal de potência. Comecei aplicando algumas técnicas de aquecimento de voz e corpo, exploração dos materiais espalhados pelo espaço, propostas de criação de sons a partir dos elementos encontrados, formação de pequenos grupos de ritmos semelhantes, desagrupamentos, disritmias, produção de pequenas esquetes criadas na hora a partir de temáticas levantadas por elas relativos a problemas de convívio: homossexualidade, religiões diferentes, cuidados maternos – lavação de roupa suja. Para o fechamento da tarde produtiva que estávamos tendo, sugeri alguns passos de danças em roda que aprendi numa viagem junto com alguns jovens indígenas, misturados às posições corporais tetrapódicas que arremedava estilos que existiam entre os moradores de rua. Nesses arremedos e batimentos epifânicos as mulheres começaram a içar suas vozes em coro descompassado batendo freneticamente os pés na terra, levantando a poeira do chão, como éguas endoidecidas e arreganhados quando soltas campo a fora, depois de muito tempo no estábulo, batendo cascos e fazendo retumbar a Terra. Aos gritos de guerra emitidos por elas, cheias de frases de mudanças e revoltas, os acolhidos dos outros albergues[4] começaram a responder também com gritos de guerra. Foi a primeira vez que vi brotar naquele lugar, potencias que estava acostumada a encontrar nas ruas, nas encruzilhadas, nos mais fechados extremos dos domínios do demasiado. Naquela tarde no complexo do carandiré, as mulheres erguiam seus braços e vozes num devir amazonas, num devir pentecostal a ponto dos outros albergados ecoarem-lhes o delírio. Eu estava tendo o privilégio de presenciar mais uma performance escandalosa e ontológica, e emitia também gritos de alegria. Esse foi o único trabalho de grupo que fiz naquele albergue. No mesmo dia fui demitida. Fui embora sem dizer adeus. Parti daquele terreno empoeirado com o aceno de uma criança de três anos. Davi. Meus olhos emaranhados meus lábios tremulando num misto de despedida e orgulho. Um orgulho parecido com o daqueles que levam sementes nos bolsos e as plantam nas rachaduras das calçadas de concreto. Foi uma espécie de devolução, essas sementes jogadas no pátio do albergue, porque as tinha trazido das andanças pelas encruzilhadas onde habitavam os moradores de rua, os oferendados da sociedade, trouxera sementes conseguida em meio aos despachos ébrios de onde aquelas mulheres tentavam desesperadamente escapar.

agosto-2003


[1] Cfe. Michael Hardt e Antonio Negri. Império. Ed. Record, RJ. 2001. P: 53-57

[2] Cfe.BAUDELAIRE, Charles. A modernidade de Baudelaire. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1988. P. 170

“A multidão é seu universo, como o ar é o dos pássaros, como a água, o dos peixes. Sua paixão e profissão é desposar a multidão. Para o perfeito flaneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa e contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre; ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais, que a linguagem não pode definir senão toscamente.”

Cfe.BAUDELAIRE, Charles. A modernidade de Baudelaire. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1988. P. 170

[3] Lei tal e tal que diz…………………….

[4] Trata-se de um complexo de albergues que abriga os mais diferentes grupos identitários: homens, velhos, crianças, pessoas em recuperação de saúde, deficientes físicos.

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