cartografias e ambiências

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized | Tags:, , , , |

Cartografias e ambiências – Performances Públicas

HT: O que é zona Autônoma temporária?


HB: A Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro utópico abstrato e pós-revolucionário. (…) A questão é: como os indivíduos em grupos maximizam a liberdade sob as situações dos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins, não-hierarquizada, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedade atual. Organização para a maximização de atividades prazerosas sem controle de hierarquias opressivas.[1]

A palavra TAZ (Zona Autônoma Temporária) é uma nomeação legítima, justaposta sobre acontecimentos que se mostram cada vez mais freqüentes nesse início de século. Esses modos de agrupamentos singulares, que fala a entrevista, são meio que paralelos aos comportamentos referentes aos festivais, aos momentos de levantes, insurgências revolucionárias, epifanias ontológicas, rituais de êxtases naturais ou sintéticos. É um conceito múltiplo que funciona como nomeador e disparador, ao mesmo tempo, do fazer político da nossa época. Época de hibridismos e conexões. Redes lançadas por toda parte, uns virando máquina, outros com síndrome de pânico… Esses últimos parecem estar subjetivamente muito conectados com nossa época, pois vivem, no limite do corpo a angustia da mutação. A política encontra a festa e a arte e tudo vai virando vida. A resistência vira estilo de festa – rituais ancestrofuturistas – que é uma tendência, como diz Hakim bey, dos indivíduos se juntarem em grupos para buscarem uma liberdade possível, atual e não transcendente-pós-revolucionária.

Meu trabalho como psicóloga e performer vai muito nesse sentido, de fazer reencontrarem-se o caminho ontológico e político. Nesse sentido, o conceito TAZ consegue dar conta enquanto nome, de uma prática que venho, como fruto do meu tempo, construindo. Outros nomes vão surgindo, de acordo com as experiências realizadas, como performances públicas, ambiências conectivas, ocupações imateriais, rituais de intervenção e celebração à vida, mas todos eles de alguma forma ou de outra, estão concentrados nesse nome: TAZ.

A primeira experiência que quero compartilhar, diz respeito ao evento denominado “Ritual de Intervenção à vida”. Foi um evento curto, coordenado por mim e mais cinco pessoas junto aos moradores de rua do centro de São Paulo. Esse evento decorreu da mobilização do grupo em função dos assassinatos ocorridos no meio do ano de 2004, de sete moradores de rua. Quatro deles nem nomes tinham, foram enterrados com números.

Investi muita energia para criar uma certa ambiência corporal e tecnológica no local do evento. O local por si só já falava muito: Pátio do colégio – a primeira igreja da cidade de São Paulo de um lado, a secretaria de justiça na frente.

Esse ato começou dias atrás quando nós – o grupo – mandamos fazer mil folders em xérox para distribuir em meio ao povo da rua, para que fossem na festa. Mas eu esqueci de colocar o local e data no folder, então tivemos que escrever em cada um dos folders o que faltava. Isso foi feito junto aos moradores de rua, e serviu como forma de aproximação. Pois a cada convite tínhamos que preparar a caneta, a data, a conversa inevitável. Dessas andanças atrás dos moradores de rua dois vídeos foram feitos: um no maior albergue da cidade e outro debaixo do minhocão.

Reconhecemos na festa, muitas dessas pessoas que conectamos na rua; era impressionante perceber que o mesmo povo que não se organiza em movimentos de ocupação, que não freqüenta albergues e que não se mobiliza politicamente para quase nada, se dispõe a ir a festas esquisitas.

Tinha um microfone disponível durante todo o período do evento. Esse microfone demonstrou ser um dispositivo magnífico de “dar voz” para os moradores de rua. Ele foi ocupado o tempo todo pelo povo da rua, que o usava com aquele caráter cerimonioso que o microfone desperta. As pessoas davam grandes discursos sobre sua vida, seus amores, suas revoltas contra os assassinatos, suas produções de afeto na rua, etc. Crianças falavam, mulheres, homens, jovens… Falavam todos… Os jovens se entregaram ao hip-hop, improvisando falas que eram aplaudidas pelos companheiros de destino.

Já que a festa-ato foi pensada enquanto ambiência e não de forma propositiva, todos os artistas convidados se dispuseram a viver essa experiência, com o que eu chamo de suas armas tecnológicas: vídeos, aparelho de som, câmeras, máquinas fotográficas, swing, malabaris, etc. Nem os artistas, nem os moradores de rua sabiam ao certo o que estava acontecendo. Os vídeos passavam, as músicas rolavam, Veridiana (performer) se colocou a fazer churrasco e cada um ia inventando “sua arte” de acordo com os encontros produzidos. Pessoas de mundos muito diversos dançaram juntas e constituíram um lugar – mesmo que temporário – mesmo que efêmero – de aproximação conectiva.

Durante todo o evento os discursos inflamados no microfone demonstravam o quanto é insuportável a invisibilidade. Aquele microfone era a tecnologia disponível, que atuava como foco de mobilização. Lamentei profundamente não ser uma rádio livre, uma tv comunitária que tivesse lá amplificando vozes.

Num certo momento da noite, um menino de rua de Porto Alegre o Seco, trazido por Janaína Bechler uma das organizadoras do evento, foi ao microfone e anunciou que passaria um filme que os moradores de rua de Porto Alegre fizeram para os moradores de rua de São Paulo, principalmente aos vendedores da revista Ocas. Foi um momento muito especial, pois era uma correspondência que chegava, em plena rua, vinda diretamente dos moradores de rua lá do sul. Isso gerou discussões, reconhecimentos recíprocos e vontade de se fazer outro vídeo em resposta.

Esses encontros são feitos sem nenhum apoio institucional, por isso os efeitos que poderiam ser bombásticos se tornam menores. Mesmo assim se mostram potentes deflagradores de potencias condensadas.

Quase no final do evento, uma faixa de 40 metros foi colocada por nós no centro da praça, e numas bandejas de papelão foram distribuídos potes de tinta. Todos que estavam lá, moradores de rua, artistas, jornalistas se dobraram no chão em delírio coletivo, desenhando na pele da praça. Essa faixa foi pindurada no monumento que fica exatamente entre a secretaria de justiça e a primeira igreja da cidade. A faixa continha nomes próprios, apelidos, declarações amorosas, pedidos de justiças, mãos espalmadas, corações, críticas ao governo, e muito mais.

Esse pequeno relato talvez não dê conta da infinidade de conexões híbridas e transformações subjetivas que acontecem num evento como esse. Rápido, fugaz, anárquico, sem financiamento, desprovido de qualquer possibilidade de permanência, mas que tem potência de afetar a vida das pessoas envolvidas. É uma TAZ. Uma zona autônoma que se produz na tentativa de interferir e celebrar. É um ato político e ontológico que manifesta a vontade das pessoas em se juntarem na busca pela liberdade. Mesmo que ínfima.

Daria para chamar de Performances Públicas a criação de ambiências como essa? Quero dizer, a própria ambiência ser chamada de Performance? Uma performance que se cria na cidade e se mostra pra ela, que alardeia parte de seus moradores, que os conecta, que produz alteração no seu estado cotidiano de existência? Performance como rito de ocupação de vias e vidas públicas. Performance como evento, como acontecimento, como cartografia, intervenção, como dispositivo de mobilização de desejo, performance como produção de sentidos, como disparadora de ação, como atualizadora de virtualidades. Performance como prática de conexão entre política e ontologia… Mas para que forçar assim o conceito de performance? Talvez porque assim como Zona Autônoma é um conceito que veste enquanto palavra acontecimentos nus da contemporaneidade, performance também funciona como nomeação fundamental para o contemporâneo. Ela libera os prisioneiros da arte, os que sofrem os aguilhões das nomenclaturas: ator, poeta, pintor… Ela já entra na cultura, nos anos 60- 70 com esse pique libertino, cortesã aliciadora de corpos, desejos e expressões. Mas de uns tempos para cá o conceito se intensifica, já que se propõe a ampliar seus territórios e prodigalizar suas táticas. É o olhar sobre o mundo que muda com as novas teorias da performance, e não ela em si, pois ela é conceito, nomeação destinada ao equívoco. Mas enquanto atua sobre a percepção da vida, ela tem a força da própria vida. Funciona como máquina de guerra, como cadela insandecida, como uma petensiléia guerreira e rainha[2].

Um outro encontro de caráter celebrativo e interventor, foi o que fizemos no escritório regional do MST (movimento dos Sem Terra) no Brás. Mais de trezentas pessoas se encontraram nesse local, 200 metros de muro foram ocupados com cartazes, pichação, grafite; juntamos banda de punk roque, juventude dos sem teto, mídia ativismo, vídeo-arte, documentários, mandalas de girassóis, acadêmicos, body modificators, performers, artistas plásticos, sem terra, ecologistas. Depois de uma tarde anárquica de estranhos canais conectores, fizemos um debate, onde o microfone nomadizava por entre mãos ávidas e discursos desconexos, não centralizados, não pontuados. Cada um falava do que estava fazendo e mostrava algum trabalho. Houve os que falaram com máscaras e mostravam sua potencia de mobilização sem mostrar sua cara. Muitos artistas reclamaram da falta de organização, li isso como vício do circuito da arte, idiossincrasias curatoriais e vontade de paredes brancas.

Esse encontro na regional do MST serviu como alavanca conectora, plataforma de lançamento de inúmeros projetos coletivos. Muitos grupos se encontraram e fizeram parcerias, sem que nós “da organização omissa” ficasse sequer sabendo das coisas que rolaram.

Esse evento foi promovido de duas formas: internet e xérox. Os mais de 1.000 xérox foram distribuídos pelas ocupações do Sem teto, principalmente aos jovens. Esse é um dado interessante: em meio ao movimento dos Sem Tetos, existe muito pouca mobilização por parte dos jovens. Talvez porque ocupar seja coisa de gente adulta, talvez porque a maioria dos movimentos de moradia, pelo menos em São Paulo, sejam coordenados por mulheres, nesse último caso, tem-se que compreender a dor e a delícia dessa luta que mistura gênero e classe. Como a maioria dos participantes do movimento é mulher-mãe desde muito cedo, a idéia de juventude fica meio ofuscada, pois essa fase de juventude e agrupamentos se torna uma fase “menor” diante da necessidade de sobrevivência e imputação de responsabilidades familiares desde muito cedo. Talvez não seja nada disso, e simplesmente esse dado se mostre como evidencia produzida pela composição de fatores variados. De qualquer modo, sentimos o desejo de fazer a panfletagem privilegiando o público jovem das ocupações do MSTC (movimento dos sem teto do centro). Eles levaram suas rodas de samba, seus atabaques, seus restos de tinta e suas bandeiras, e participaram da ocupação do muro da estação do metro do Brás, assim como ocuparam e foram ocupados pela tarde nomeada: Ocupação Imaterial.

Collage[3]:

Experimentações públicas. Ocupações Imateriais:

– De onde vêm a idéia de Ocupações Imateriais?

– Partindo da idéia de que o trabalho em grande escala já não é fundamentado na mão de obra fixada em esteiras (fordismo), mas sim na inteligência e intuição humana (cognitariado), achei interessante ampliar o uso do conceito de trabalho imaterial, utilizado por Toni Negri, para outras instâncias.

– Que instâncias?

– Das ocupações, por exemplo. Há vários tipos de ocupações, mas podemos situar duas pra dar rumo a essa prosa: as territoriais e as imateriais. As primeiras são as lutas por espaço real, urbano ou agrário, onde se pretende fixar residência, produzir e trabalhar, enfim, um espaço de vida. As ocupações imateriais dizem respeito aos territórios subjetivos, construídos a partir de critérios intelectivos, emocionais e intuitivos, que visam ações celebrativas onde se possibilite confluências de movimentos através de agenciamentos heterogêneos, re-significando conceitos, modos revolucionários, provocando hibridismo dentro das estruturas burocratizadas comuns aos movimentos sociais.

-As ocupações imateriais, pelo menos as propostas por nós, não visam uma finalidade específica ou visível, concreta. Não há centro de poder, de mídia. Ocupações Imateriais são um caldo caósmico que funciona como plataforma de lançamento de projetos coletivos, que muitas vezes podemos nem ficar conhecendo. Como um festival ou uma TAZ. O Sarau Ocupação, no centro de formação do MST, no projeto Comunas da Terra, foi assim…

– Pois é, não tinha roteiro, mesa coordenadora… Um monte de gente tava lá por causa da idéia de Ocupação: “Que cada um amplifique o acontecimento de acordo com suas próprias conexões”.

– É, e foi também o dia em que a Mariah Leike divulgou pela primeira vez o movimento de moradia Comunas Urbanas, que uma semana depois iria ocupar pela primeira vez, um prédio na zona sul. Av. Guapira.

Essa performance ambiental pública e imaterial ocorrida na regional do MST estendeu-se para um outro encontro que fizemos, dessa vez num assentamento do MST denominado Assentamento Irmã Alberta. Essa ocupação é diferenciada das outras por ser um projeto novo: Comunas da terra.

Collage:

OCUPAÇÃO IMATERIAL NO MST – MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA – COMUNAS DA TERRA

Comunas da Terra é um novo projeto do MST cujas ocupações são feitas em zonas próximas às grandes cidades. Tem como um dos seus mais importantes objetivos transversalizar projetos entre cidade e campo, a fim de construir novos agenciamentos políticos, econômicos e humanos. A regional de SP tem feito uma série de encontros com estudantes, intelectuais, artistas, e já estão surgindo várias propostas coletivas. A idéia é que a Luta pela Terra, se torne uma luta de todos.

“A terra deve ser um bem comum e não propriedade privada. Deve (…) garantir trabalho às pessoas e a produção de alimentos para alimentar a humanidade, preservar o meio ambiente e a natureza. Não deve ser objeto de especulação imobiliária, muito menos meio de exploração e subjugação do homem sobre o homem. (…) um território que as pessoas possam morar, trabalhar, ter alimentação garantida com possibilidade de renda, com espaços garantidos para atividades sociais e culturais., (…) o contato com a terra e a natureza, certamente é o sonho de muitas pessoas. O importante é (…) o planejamento na educação, saúde, esporte, lazer e cultura e também na moradia (…) Delwek Matheus – MST

No assentamento Irmã Alberta, foi pensado um encontro festivo de caráter político e cultural que misturava potencias locais do assentamento, com potencias estrangeiras, um misto de política, culinária, hip-hop, teatro, circo, etc. O evento foi organizado por vários grupos de estudantes universitários que estão envolvidos diretamente com o projeto comunas da terra junto com os assentados e com a coordenação do MST regional. Nesse evento específico, minha contribuição, para além da grande festa, foi introduzir uma área denominada zona autônoma dentro do assentamento, já que não seria possível fazer um festival no MST. Grupos e coletivos de intervenção pública foram chamados para realizar um encontro autônomo nesse local. Em meio a precariedade do campo, com casas de lonas, sem acesso a água encanada os grupos chegaram com suas caixas de som, rádios, notebooks, minis DVs e produziram uma pequena rave onde as imagens que aconteciam no grande encontro (a uns 200 metros do local) passavam na tenda autônoma. O grupo Bijari, coletivo de arquitetos e web designers, que tem sido nosso parceiro em praticamente todos esses caminhos em meio a vida pública, instalaram um balão de sete metros que anunciava: estão vendendo nosso espaço aéreo. Isso gerou estranhamento, discussões, talvez para muitos assentados fosse a primeira vez que pensassem que o céu também é latifúndio e muita gente já o ocupa legitimados pelo poder do capital.

Mas hibridismo não é sinônimo de harmonia, houve também problemas relativos a diferentes perspectivas sobre o mundo: um dos coletivos, Dub-versão, trouxe uma komb lotada de maquinarias tecnológicas e ervas naturais, pois esse grupo se caracteriza também por sua luta pela liberação do uso de canabis, e se mostraram guerreiros nessa luta, fumando maconha durante o evento, a vista de todos. Isso gerou grande conflito com a coordenação do MST, assim como vários assentados se ofenderam com essa postura e o conflito foi inevitável.

Mas como misturar linguagens esperando que só haja harmonia? Como fazer com que os diferentes mundos se encontrem de forma que não haja confrontos? Definitivamente não sei, e nem é esse um ideal no meu trabalho. Uma das artistas que estava no MST Luciana Costa do grupo Esqueleto Coletivo perguntava: até que ponto o confronto é salutar, quer dizer, como fica a preservação da vida quando o conflito se mostra incisivo? Essa questão se coloca e nos é cara.

Talvez essa pergunta denote uma possível linha diferencial entre o terrorismo e o ativismo e dependendo de onde se está, essa linha se dissipa. Em muitos atos dos coletivos de intervenção, a polícia se mostrou austera, com gazes de pimenta, tiros de borracha. Quando a ação é realizada junto a momentos de despejo de ocupações, passeatas pela liberação das drogas, momentos de confronto direto com a lei, essa linha tênue realmente se dissipa e a qualquer momento a morte, o assassinato, a prisão pode acontecer. Diante dessa constatação o que podemos dizer? Se sabemos que não temos a polícia do nosso lado, que talvez ela seja a maior produtora desses conflitos, que ela está do lado da assim chamada LEI, o que podem os ativistas?

Parece-me que a linha diferencial mais evidente entre o terrorismo e o ativismo, é que o assim chamado terrorista é capaz de atuar com a própria vida em suas intervenções. Seu projeto tem que ser levado a cabo, custe quantas vidas custar. É a carne colocada sobre a cidade, a própria carne e a carne alheia. Não há simbolismos que dê conta de tamanha entrega. Estou falando aqui, despreocupada da questão moral que se coloca socialmente em relação aos terroristas. Não estou discutindo seus efeitos maléficos as comunidades inocentes que morrem em função de suas intervenções. Estou pensando nesse ponto, na maioria das vezes sem volta, que o terrorista é capaz de ultrapassar e os ativistas culturais não.

Na bodyart talvez tenhamos um ponto conector entre esses dois vetores, pois de novo é a carne que se mostra, que se corta, perfurando a barreira da pele, introduzindo o metal-gancho no corpo, tornando pele e metal um novo corpo, uma nova sensibilidade. Os modificadores corporais atuam como potentes interventores públicos, devido a essa capacidade de evidenciar a carne escarificada. Logicamente continuam circunscritas as linhas diferenciais que separam o terrorista do interventor, porém, em relação ao corpo exposto, ambos denotam incisiva implicação em sua intervenção pública.

Outro evento importante foi o ACMSTC: Arte Contemporânea no Movimento dos Sem Tetos do Centro. Foi um evento conectivo entre mais ou menos duzentos artistas numa das maiores ocupações do centro de São Paulo, onde vivem cerca de duas mil pessoas. O evento durou três semanas, a idéia era ocupar o prédio com arte a partir do encontro com as vidas que o habitava. Centenas de visitantes nesse período foram conhecer a ocupação, o movimento, seus modos de organização. A repercussão na mídia causou uma série de desconfortos, principalmente para os ativistas que não suportaram a idéia do movimento sem teto ter saído numa página inteira da coluna social. Blasfêmia!! Para os moradores da ocupação, até foi divertido verem-se na coluna social ao invés da página policial.

Esse encontro talvez tenha sido o maior evento realizado pelos coletivos de ação em São Paulo, pois contava com a força condensada de uma coletividade muito singular. O prédio é um dos mais precários do movimento, lá já houve assassinato, suicídio e incêndio.Quatro andares pegaram fogo no dia sete de setembro – independência do Brasil – dois meses antes do evento acontecer. Por ser um prédio muito grande, todas as outras ocupações do centro quando são despejadas, acabam indo para lá. Hoje no prédio moram quase três mil pessoas, e os vinte três andares são percorridos diariamente pelas escadarias sem nenhum elevador.

Durante o processo de ocupação artística no prédio, os moradores começaram a envolver-se com arte alegando que também eram artistas, se puseram a pintar paredes, fazer quadros, dar entrevistas, fotografar e aprender a mexer nas câmeras digitais e assistirem-se nas televisões espalhadas pelas casas. Muitos trabalhos foram tocantes. Um deles, realizados pela artista Cristiana Moraes foi realmente ritualístico. No pátio interno do prédio, ela e seu companheiro se propuseram a caminhar vinte quatro horas ininterruptamente em forma de X. Uma espécie de territorialização simbólica e real no espaço de ocupação. Os moradores os acompanhavam em sua caminhada, levando comida, água, oferecendo sucos e cafés, enquanto isso conversavam sobre a importância da arte e da ocupação. Milene Goudet criou num espaço disponível no sétimo andar, um hotel para os visitantes passarem a noite. O andar inteiro estava mobilizado com o evento e puseram todos seus móveis para o salão interno do andar, e ali virou um ponto de encontro fabuloso, onde passavam os vídeos conforme iam sendo gravados. Mariana Cavalcanti tirou mais de trezentas fotos dos moradores, ampliando-as e colocando-as nas portas da frente das casas, com seu sonho inscrito. Mais de trezentos sonhos coletados, isso gerou um certo movimento dentro do prédio, porque de repente todos os moradores queriam inscrever seus sonhos nas paredes daquele prédio, assim como os artistas. Uma das moradoras do prédio, Célia Moreira, organizou um desfile de moda, com suas roupas feitas de garrafas plásticas, sementes, pastos e tecidos justapostos. E assim foram se dando os laços dentro daquela ocupação. Muitas das obras estão lá até hoje. Dezenas de vídeos foram realizados e ainda hoje projetos culturais acontecem lá dentro, devido as conexões que esse evento realizou.

O ACMSTC foi uma espécie de deflagrador público das ações que os pequenos grupos vinham realizando na vida pública. Ele foi surpreendentemente pródigo no tocante as amplificações. Dezenas de pesquisadores foram fazer trabalhos na ocupação. Ativistas internacionais quando chegam em São Paulo pedem para conhecer a ocupação, e outras ocupações receberam propostas semelhantes, feitas por outros coletivos. Certamente não foi só harmônico. Muitos artistas brigaram entre si, artistas brigaram com as coordenações por percebe-las autoritárias e despóticas. Houve quem quisesse organizar sindicatos de artistas depois que conheceram a organização do movimento. Houve quem se sentiu mal por estar invadindo as casas alheias, houve quem criticou o evento por achar que ele se utilizou da miséria do povo para se promover…. Muitas críticas, textos, manifestos e vídeos foram lançados.

Essas inumeráveis amplificações me fizeram compreender que nossa função enquanto interventores é exatamente isso: disponibilizar nossas “armas tecnológicas” para amplificar realidades, promove-la, discuti-la publicamente. Servir como aceleradores de processos, interferindo diretamente na realidade, inventando-a na borda do tempo.

É ilusão pensar em efemeridade. As conexões se dão, as realidades se amplificam. Decididamente as zonas autônomas não são espaços reduzidos a si mesmo. Uma certa potencia distante da vida comum é resgatada nesses encontros. Desejos e potencias se fortalecem e se conectam aliciadas pelas performances públicas ambientadas na realidade.

Referências:

Bey, Hakim . TAZ . The Temporary autonomous zone

http://www.hermetic.com/bey

Entrevista de Hakim Bey (TAZ) à revista High Times – Por Renato Tazmaníaco http://www.midiaindependente.org/es/blue/2003/07/257794.shtml

Artaud, Antonin. Escritos. Cláudio Wwiller (org). Porto Alegre: LP&M , 1983

Deleuze, Gilles e Guattari, Félix. Mil platôs vol. 4. Ed. 34 Ltda. São Paulo. 1997

Kleist von Heinrich. Petensiléia. tradução e adaptação inédita de Jean Robert Weisshaupt e Roberto Machado. PUC SP.

Negri, Antônio. Kairós, Alma vênus, Multitudo- Nove lições ensinadas a mim mesmo. Ed. DP&A. RJ. 2003.

O Percevejo. Revista de teatro, crítica e estética. Ano 11. n° 12. 2003 Publicação do Departamento de Teoria do Teatro, do centro de Letras e Artes da UNIRIO.

texto apresentado no encontro internacional de performance: performance e raízes

do Instituto Hemisférico. Março.2005

fb.


[1] Entrevista de Hakim Bey (TAZ) à revista High Times – Por Renato Tazmaníaco – 02/07/2003 – http://www.midiaindependente.org/es/blue/2003/07/257794.shtml

[2] Petensiléia – Rainha das amazonas na mitologia grega. Kleist transforma o mito na assassina de Aquiles.

[3] Quando disser collage, é porque peguei textos que escrevi em outras circunstâncias. Geralmente para publicações na web.

Tags:

Make a Comment

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...

%d blogueiros gostam disto: