cumplicidades hematofágicas – coreografias vermelho-sangue

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Cumplicidades Hematofágicas – Coreografias vermelho-sangue

Cena 1

Mãos enrugadas tremulam amedrontadas no umbral da porta ao testemunharem a saga dos maltrapilhos em direção a sua terra. A mulher é lançada em lembranças de campos de concentrações nazistas de onde foi sobrevivente. Não distingue pânico e realidade. Ao ver aqueles milhares de indigentes içando bandeiras vermelho-sangue e cantando hinos de vitória sobre a terra abandonada ao lado da sua, ela confunde-se em afetos descompassados. Ocupação-de-sem-terras. Por entre os barrancos e barracos levantados, ela vê uma freira pequena abraçando homens suados e emitindo gestos de saudações a Deus, terra, a nascente do rio e a plantação de goiabas. Também percebe uma moça acariciando um girassol provavelmente trazido da outra terra de onde fora despejada.

Cena 2

É noite. Um homem acuado no canto do quarto ouve a parede nua. Uma estranha reza ecoa do prédio abandonado ao lado. Silencia… Choro de criança, mulheres rindo, alguém falando no celular ao lado da sua janela. Pedidos de silêncio nada discretos delatam a situação: ocupação-de-sem-tetos. O homem pensa no filho não assumido e teme a invasão da sua casa. Não dorme. Na televisão o filme mostra uma multidão de ratos tomando a cidade e trazendo a peste, ele treme desorientadamente no escuro.

Subtexto

Constelações de palavras e sentidos previamente codificados operam nas mentes da mulher e do insone, alternando-se, sobrepondo-se, confundindo-se em suas intrincadas tramas associadas. A terrível sensação de ter sido invadido em seus territórios extensivos concatena-se a uma estranha euforia de extracotidianidade. Algo foge. Ainda não há palavras.

Cena 3

Os maníacos das novas redes de comunicações internáuticas se juntam no museu. Lidam com as precariedades tecnológicas que não sustentam suas potencialidades conectivas. Gambiarram linhas e notebooks enquanto assistem sem terras e sem tetos versados em precariedade tencionarem a tarde mausoléuca defendendo-se de acusações de assassinatos. Ainda não há softwares livres que os desenlacem das terríveis tramas da grande mídia. Lamento coletivo – penosa insuficiência. Contra os SEM o peso da opinião pública legitimada pela lei. A favor uma ínfima possibilidade de conexão e mídias táticas. Gambiarras subjetivas entre sem tetos e hakers.

Cena 4

Coribantes lançam lençóis coloridos das janelas do edifício ocupado, dançam aos sons de flautas, haps e tambores evocando com seus gestos epifânicos as forças ontológicas da vida. O homem exausto-de-tudo derrama-lhes mijo da sacada ansiando pelo silêncio impossível, enquanto a esposa saracoteia na calçada. A emergência é ruidosa e ainda não foram cantados todos os ditirambos. Um tecido gigante cor de sangue arreganha-se pelas aberturas das fachadas, masturbando os hieróglifos pichados. Placas atravessam a calçada soletrando DIGNIDADE, enquanto o moço encapuzado toca gaita de palhaço para a noiva esbofeteada. Uma mulher rola pela calçada em grunhidos desconexos. O pintor sorri. A luz abaixa e uma fumaça toma conta do recinto – a líder dos Sem Tetos grita de dentro das névoas: _ Quem não luta? … A multidão responde: Tá morto.

Subtexto

Enquanto uma cidade dorme e sonha seus sonhos cotidianos embaçados uma outra cidade se produz nas sombras, como se vivificasse o onirismo da primeira. Como vampiros notívagos, os despejados do mundo se ajuntam para desestabilizar a cidade pretendida em ordem, invertendo os mapas burocráticos, ocupando territórios ociosos, se lançando na invenção de futuro na borda do seu próprio tempo, rememorando os espaços esquecidos da metrópole e tencionando Direitos Constitucionais Idiossincraticamente Postergados.

A mulher evoca:

– Crise de valores! O diabo morreu! Resta-nos agora resignificar a bandeira-sangue para liberta-la de sua constelação moralista repleta de associações de violência e maldade. Por acaso o performer que se suspende nos ganchos de açougue não reinventa os sentidos do sangue escorrido? E Artaud não reverteu os sentidos das pestes levando-as ao teatro? – Notívagos sem tetos e terras: reinventai-vos!!! Libertem-se do estigma do mal e aproximai-vos da saga dos vampiros imortais que conhecem a vibração da Terra. Tomai os espaços, lançai-vos pela geografia trêmula da cidade dormente e arrebatai nossos cotidianos com suas mordidas e moradias contaminantes. Relembraremos sempre suas experiências da noite, quando enfiavas os pés nos portões abandonados e instauravas comunidades inventadas. Não permitiremos que repitas a vil hierarquia que te fez miserável!

Proscrito:

Há que se atentar para os ruídos da multidão em marcha que faz vibrar os terrenos desérticos com seus voluptuosos tecidos vermelho-sangue. As redes estão lançadas num estranho vigor de cumplicidades hematofágicas.

Correspondentes reais:

· Cena 1 – Ditirambo feito sobre relato de uma mulher que assistiu a ocupação ao lado de sua fazenda no interior de São Paulo (Comunas da Terra – MST) abril de 2004.

· Cena 2 – ditirambo feito sobre relato de um homem que escutou a ocupação realizada ao lado do seu prédio na zona norte de São Paulo – (Comunas Urbanas) Setembro de 2004.

· Cena 3 – Participação de três líderes dos Movimentos Sem Terra e Sem Teto no encontro denominado Digitofagia, realizado no MIS (Museu de Imagem e som) em outubro de 2004.

· Cena 4 – Evento denominado Integração Sem Posse, realizado todos os sábados por coletivos de intervenção urbana junto aos moradores da ocupação Prestes Maia (MSTC) desde julho de 2005.


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