domínios do demasiado

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

DOMÍNIOS DO DEMASIADO I

Escândalos Públicos Ontológicos

A benfazeja

“Sei que não atentaram na mulher; nem fosse possível. Vive-se perto demais (…) A gente não revê os que não valem a pena. Acham ainda que não valia a pena? Se, pois, se. No que nem pensaram; e não se indagou, a muita coisa. Para que? A mulher – malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feita tonta, no crime não arrependida – e guia de um cego. Vocês todos nunca suspeitaram que ela pudesse arcar-se no mais fechado extremo, nos domínios do demasiado?”

João Guimarães Rosa[1]

1- INICIAÇÕES…

Uma estranha família de três homens instalou-se à diagonal da minha janela. Escarificando-me a alma com sua rude presença. Eles me trancafiam no meu próprio quarto, desafiando-me em minha fala sobre eles. Da sacada espio suas cópulas invisíveis com cyborgues. Se vou à rua, tropeço-lhes…

Os homens da rua se vociferam entre si; amaldiçoam as ruas com seu mijo, sua merda, seus restos de comida doada. Catam nossos lixos com carroças por eles puxadas. Depois relaxam horizontalizados, agitando suas cachaças puras num misto de zombaria e desespero.

Os homens Instalados nas ruas parecem fazer parte de um sistemático escoamento de despachos públicos perpetrados em nome do progresso. Que entidades monstruosas compactuariam com tais oferendas? Talvez não seja essa a questão. A megamáquina atingiu o estatuto da autoprogressão e realiza automaticamente suas tarefas sacrificiais, afim de que se destranquem os caminhos do desenvolvimento. “O mundo vive de seus matadouros” [2].

A imagem dos homens-despachos tatuada nas encruzilhadas[3] de concreto da urbe revela-nos contradições de uma cultura fundamentada no ideal de evolução. Seus corpos em ruínas e trapos se encravam no corpo sedimentado das cidades, feito piercing, mistura de carne e metal, que funciona como foco de resistência e sacrifício, concomitantemente.

A miserabilidade se encrava no horizonte da cultura como signo de ameaça. É como se em vista dos corpos-despachos instalados publicamente, o resto da humanidade inclusa conivente com a lógica ascendente civilizatória, percebesse a condição existencial que seria submetida, caso interrompesse sua produção para o sistema de trocas da megamáquina megalômana.

Um homem de rua se espreguiçou do fundo dos amontoados dos sacos pretos de lixo; parecia estar emergindo das fissuras dos paralelepípedos. Ele se espichava vagarosamente, as cascas de batata despencavam dos seus braços, pedaços de panos rasgados esfarrapavam-lhe o peito, um berro se enunciava.

Se não soubesse que era um morador de rua, pensaria tratar-se de uma eletrizante intervenção performática, produzida por algum performer inconformado com os espaços comuns de atuação de sua arte, resolvido a assumir a rua como lugar legítimo de experiência e produção.

O timbre do berro do homem-despacho era similar aos berros advindos das ruínas das Alemanhas neubautenianas[4]. Aquele berro de rua emergido dos sacos de lixo mostrava um desespero ainda não suplantado.

A manifestação transitória das imagens, a narrativa fragmentada, o uso descontextualizado dos elementos disponíveis naquele espaço, os gestuais minimalistas, as fusões de imagens e sons em meio a via pública, tudo isso sugeria que eu estava diante de uma obra inaudita cuja criação era abstrata, pulsativa, primária, que por influxos germinativos conectados incorporava incríveis intensidades. O mendigo alheio à sua condição de artista-criador produziu uma performance pública, alterando naquele momento a realidade espaço-temporal comum, confundindo imagens e hipertextualizando os sentidos da rua.

Fui ter com os corredores de sacos-pretos-de-lixo e seres-humanos-despachados por estar sofrendo de excesso de afetação, para me aproximar do que me causava terror, para experimentar o que me ameaçava, e também confesso: por um gosto íntimo pela decadência. Nessas derivas uma sensação se avolumava: meu corpo estava sendo perfurado por densos ganchos subjetivos lançados pelas hordas habitantes das ruas. Esse atravessamento foi tornando-me partícipe de estranhos ritos-espetáculos que estendiam meu estado de existência cotidiano para zonas dilatadas de percepção.

Não se tratavam de ritos instituídos, eram de outra ordem as manifestações: os homens-despachos criando força, entrando em devires, erguendo-se de seus lugares previstos em meio a migalhas e cachaças, produzindo estéticas inusitadas: verdadeiros happenings, performances, intervenções urbanas, cenas dramáticas inteiras, cuja intensidade e inconsciência me arrebatava.

Esses eventos iam tornando-se cada vez mais freqüentes. Eu estava sendo atraída para zonas abissais de fétido odor onde estranhos fenômenos aconteciam. Um ambiente abarrotado de retalhos, tiras, farrapos, fragmentos de tecidos podres recortados da cidade e submersos em covis de decomposição.

A mulher batia em si mesma violentamente com um pedaço de borracha; roupas em frangalhos – amaldiçoava a humanidade! Debatia-se contra o tráfego paralisado diante da sinaleira-encruzilhada: Augusta com a Paulista[5]. O ruído produzido pelo choque do seu corpo contra as carcaças dos automóveis superava os ruídos dos motores. Não era humano o grito, nem solitário. A dor de uma multidão inteira esguichava de sua boca. Seu grito aturdia a tarde. A cena entorpecia o tempo. Como uma Diamanda Gallas [6] possuída e desvairada, a mulher realizava uma terrível performance em via pública.

Estava tornando-me a cada dia mais conivente com essas aparições performáticas não anunciadas, e passei a ver nessas convulsões corporais citadinas, potências que só foram possíveis de serem contempladas depois de uma certa “iniciação”, depois de certos “ritos de passagem”. Foi preciso abandonar as interpretações comuns que só conseguem ver no morador de rua problemas relativos à exploração, mais valia e injustiças étnicas. Apesar de serem estas as linhas segmentárias mais insistentes no contexto das ruas, foi necessário embrenhar-me em outras aventuras perceptivas. Nessa “iniciação” que consistia em abandonar conceitos, alterar a consciência, produzir novas metáforas, avizinhar-me da aura ébria dos miseráveis, tive momentos de profundo sofrimento e asfixia – perdida nessas zonas de indiscernibilidade meio míticas, às vezes alucinógenas; oníricas; em tudo real…

Gradativamente experimentava sensações de desequilíbrio, inaptidão, efemeridade, inconstância, que me deslocavam do território racional remetendo-me a uma espécie de atualização da dimensionalidade e ambivalência do mythos; mito como vivificador de sentidos reais e imaginários, retransmissor de memórias, como metáfora que produz novas narrativas[7].

Fui acometida por signos ancestrosfuturistas[8]: séqüitos de assassinos; bandos delinqüentes; figuras de seres emergidos dos esgotos; coletivos sarnosos; seres infectos cheios de pus; bandos nômades de armas letais nas mãos; diabretes; delinqüentes desenfreados; sátiros com pés de bode; loucos zombeteiros; pândegos perpetuamente excitados; perambulantes das noites; selvagens de cabelos desgrenhados; freqüentadores de cemitérios; envenenadores; alcoviteiros; drogados com corpos trincados de agulhas; piratas empesteados; duendes incendiários; tribos de clowns negros carniceiros; crazy dogs; butonianos enterrados; corpos suspensos por ganchos; trancadores de caminhos; coribantes cretenses; corriganos célticos; ganas; curetos; silenos; bhaktas; bacantes; kapâlikas; vrâtyas; lupercos; participantes dos cultos de Shiva, Dioniso e Exu; cyborgues. Uma multidão plurisígnica atacava-me de todos os lados, decididos a inscreverem-se, pelo menos em meu imaginário, como hordas correspondentes aos homens-despachos que habitavam as ruas, em função de suas marginalidades paralelas, suas prodigalidades iconoclastas e suas epifanias antiantropocêntricas.

Performances públicas não anunciadas dos homens-despachos entrecruzavam-se a paralelos míticos-literários, e esse amálgama entre acontecimentos reais e imaginários renovava as narrativas a respeito dos moradores de rua. Essa iconografia instalada geograficamente nas ruas de todas as grandes cidades do mundo era fonte de emanação e atualização de uma memória genealógica-mito-realistica, de todo amaldiçoada e esquecida.

Nas escadarias das igrejas, nas calçadas das secretarias de justiças, em frente aos Bancos eletrônicos, os moribundos se Instalam, e afrontam com suas peles e tecidos podres os imponentes edifícios, como se fossem pragas urbanas carcomendo os pilares dos templos religiosos, econômicos e ministeriais. Com suas poses mórbidas, seus fedores, mijanças e caganças em frente aos edifícios, ousam alterar os projetos urbanistas da cidade, construídos com fins bem diferentes do que suportar suas guerrilhas escatológicas.

Procedimentos semelhantes aos praticados por alguns dos mais radicais seguidores de Shiva e Dioniso que, conforme relatos em textos sagrados, largavam tudo o que tinham de bens terrestres, perambulavam nas noites nus ou em trapos, com os cabelos desgrenhados, agredindo transeuntes, praticando roubos, embriagando-se e atirando suas excreções contra os templos. Não são todos os participantes dos cultos de Dioniso e Shiva que chegam a esse grau de revolta contra a cidade, porém muitos dos relatos informam-nos que sempre houve e ainda há grupos cujo comportamento desmedido funciona como manifestação da sua rejeição à sociedade antropocêntrica. “Os ganas (ou diabretes) zombam das regras morais e da ordem social. (…) opõe-se à ambição destruidora da cidade e ao moralismo enganador que a dissimula e a exprime. (…) Encarnam tudo o que desagrada e causa medo à sociedade, que é contrário aos bons costumes de uma cidade bem policiada e a suas concepções lenientes. (…) Ao cair da noite…, em enxames, ameaçam com suas agressões o viajante retardatário [9]”.

Uma linha diferencial importante a ser evidenciada entre procedimentos radicais shiva-dionisíacos e moradores de rua, é que os primeiros agridem a cidade em função de sua devoção as divindades que representam os poderes da natureza nas mitologias indiana e grega; a luta contra a cidade simboliza a luta contra destruição que a civilização imprime sobre a natureza e a própria vida, nesse sentido são antiantropocêntricos por negarem ao homem a soberania sobre a natureza, investindo contra a cidade atiçam-se no signo máximo do pensamento antropocêntrico: a cidade, que outrora contraiu o sentido das ambições civilizatórias, mas que hoje escancara os significantes da sua impotência em bem acolher os que a procuram ou nela chafurdam como escala derradeira de suas vidas. Por sua vez os moradores de rua não contam com a superioridade redentora de nenhuma entidade; a agressão à cidade se dá como modo de vida independente das crenças individuais. Suas posturas antiantropocêntricas se dão, na maioria das vezes, como fenômenos inconscientes, silenciosos, irrefletidos, evidenciados em suas apropriações carrapáticas dos espaços urbanos e também no incômodo que provocam à sociedade inclusa. Apesar dessas diferenças, o que interessa nesse percurso é compreender que tanto os séqüitos radicais quanto os moribundos-de-rua utilizam os territórios públicos da cidade como espaços para sua escandalosa manifestação.

Reminiscências… Manifestação da miséria como ação interventora no cenário citadino. Escândalo revelador que denuncia e desvenda, ao mesmo tempo, o anacronismo civilizatório. Miséria como escândalo ontológico, público e performático.

Zonas indiscerníveis entre real e imaginário; vida e literatura; denúncia política e escândalo ontológico; zonas arbitrárias entre-as-coisas; misturas de lugares quaisquer e nenhum lugar, densidades intangíveis e inomináveis momentaneamente instaladas pelos terrenos cotidianizados – feito portais. Provavelmente é dessas fissuras-do-ordinário que Beckett faz emergir seus estranhos personagens. Que surgem as performances não anunciadas da miséria. Os escândalos ontológicos dos homens despachos. Que florejam as atuações escabrosas da lazarenta Mula Marmela do conto de Guimarães Rosa – guia do cego cujo pai ela mesma assassinou – fazendo ruído pela cidadela que a observa e julga a ponto de fazê-la travestir-se em estilo detestável e abjeto…

Tomo liberdade de usar o nome cunhado por Guimarães Rosa ao tentar produzir um certo deslocamento perceptivo da sociedade em geral com relação a aparência da miséria, com relação a sua personagem, colocando-a nessa zona indicernível-indecifrável que ele chama de Domínios do Demasiado: “A mulher – malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feita tonta, no crime não arrependida – e guia de um cego. Vocês todos nunca suspeitaram que ela pudesse arcar-se no mais fechado extremo, nos domínios do demasiado [10] ?”

Domínios do demasiado…

“E vocês, loucos lúcidos, sifilíticos, cancerosos, meningíticos crônicos, vocês são incompreendidos. Há um ponto em vocês que médico algum jamais entenderá (…) vocês estão além da vida, seus males são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassaram o plano da normalidade e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranqüilidade, corroem sua estabilidade. Suas dores repetidas e fugidias, dores insolúveis, dores fora do pensamento, dores que não estão no corpo nem na alma, mas que tem a ver com ambos. E eu, que participo dessas dores, pergunto: quem ousaria dosar nosso calmante [11].”

Domínios do demasiado…

“Em vão amordaçadas por vossas leis sociais, dormem entre vós energias destruidoras que poderiam fazer voar o mundo pelos ares. Por seus olhares incendiários, reconheço, nos terrenos desertos, Átila, Gengis-Khan, Tamerlão. A embriaguez do álcool é, para os operários, o mais nobre protesto contra a vida sórdida que os fazem levar. A espera da morte, enfim, do pensamento do Ocidente, à espera do cataclismo futuro aureolado de revoluções, eu, Morfeu, moldo as hordas vindouras de acordo com minha rude higiene. Enquanto espero a hora, é sobre si mesmos que exijo que eles exerçam sua força de destruição. E as mutilações voluntárias, os envenenamentos terríveis dos álcoois que fazem o ser ofegante rolar nas margens da morte, os golpes de cabeça nas paredes, todos os sofrimentos que me foram infligidos são os únicos critérios que me asseguram a existência de homens fisicamente desesperados, suficientemente mortos em sua própria individualidade para demonstrar na face o sarcasmo impassível do desinteresse perante a vida, único penhor de todos os atos sobre-humanos” [12].

Mula Marmela; séqüitos de diabretes; moradores de rua; envenenadores públicos; Molloys e Malones beckttinianos; energias destruidoras; nômades e trogloditas cujas dores não estão nem no corpo nem na alma; os que exercem a força de destruição sobre si mesmos enquanto esperam o cataclisma; os fisicamente desesperados; alcoolizados ofegantes que rolam nas margens da morte… Esses todos – multidão? … Loucos como Neal Cassady que inspirou “on the road” de kerouac, cujo pai vagabundo de rua perdera-se nas cachaças-baratas das calçadas-repletas-de-baratas da cidade qualquer; essa dinamite vagabunda, ladra e narcotizada que em um momento do livro inspira essa descrição: “Atrás dele, fumegavam ruínas calcinadas. Precipitava-se para o Oeste outra vez (…) alguns preparativos deveriam ser feitos, tais como alargar as sarjetas de Denver e refazer determinadas leis para comportar sua carga sofrida e seus êxtases ardentes”[13].

As ruas segredam potências de revide e de invenção de porvir! – Estava tão convencida disso que passei a nutrir uma esperança íntima de estar prestes a assistir um desmoronamento colossal e vociferava com Morfeu:Com meus pés aleijados não posso deixar de estar, de coração, entre as hordas subterrâneas das lívidas crianças da noite que brevemente pisotearão sua imunda civilização (…) vou roendo lentamente como um milhão de ratos, o ocidente que me renega e não tomarei parte no desmoronamento desse colosso de pés de manteiga, cabeça de veado” [14].

Sentia-me vivendo uma espécie de iniciação aos estados liminares da existência; reconhecia os domínios do demasiado quando percebia um certo adensamento do ar, uma concentração inusual, um diferencial na postura. Era como se fosse engolfada por portais-fissuras instalados nas vias públicas da cidade.

A liminaridade é arriscada porque se situa em zonas fronteiriças, que para além da sonoridade alegre que essa conjunção de palavras depreendem (zonas + fronteiras), em função da vontade de miscigenação tão cara para alguns de nós, são espaços onde predominam também contradições, medos, intolerâncias, explorações, preconceitos de todos os lados. São terrenos onde os circuitos relacionais diferenciam-se dos da cidade comum: muda a linguagem, o modo de inscrição comunitário e muda também os valores em relação a cidade antiga, que é a mesma cidade, mas já é outra, cidade-fronteira.

Presenciei um assalto realizado por dois meninos de rua contra um velho-mais-miserável-que-eles. Chegaram pelas costas do velho, canivete nas mãos, exigindo que esse lhes desse tudo o que tinha. O velho-de-rua deu carteira e lenço e tudo. A cena foi de uma crueldade implacável. Esses ganas-diabretes fizeram o que estavam acostumados a fazer, o velho era só uma casualidade, um corpo qualquer largado num espaço geográfico arriscado. Eu não sabia o que fazer – paralisia. Depois de todas minhas andanças por entre as bolhas invisíveis da cidade ainda me surpreendia com os atos mais cotidianos de sobrevivência. O que faria para além de ficar parada como fiquei pensando se era capaz de amar a vida com amor fati[15]? O mundo fora dos portais-fissuras da miséria me parecia ainda mais terrível. A cidade “real” tornava-se cada vez mais fictícia e já não me era possível compactuar com seus métodos. Porém, como sustentar esse não-lugar, essa não-ação, essa paralisia que me invadia?

Me aproximei de algumas crianças que se deitavam na calçada às gargalhadas. Mal respirei seu cheiro-forte-de-cola-que-exala e já sabia do que riam tanto: o quarteirão, próximo à rua Santa Ifigênia, estava cheio de trabalhadores fardados. Alguns de laranja, outros de marrom; em cada loja, posto de gasolina ou casas de peças automobilísticas os operários usavam algum tipo de uniforme estapafúrdio. Cada qual com sua cor. Parecia uma rua especialmente produzida para divertir a tarde das lívidas crianças da noite. Eu em passagem interrompi o dia. A cena era cômica e terrível. A miséria do mundo fora das bolhas se explicitava: as crianças zombavam, sarcásticas, chamando os homens de bonecos-de-brinquedo.

Interrupções do dia, paralisias em meio à cidade, perdas constantes de referencias, asfixias, tornaram-se sensações comuns tanto na rua quanto nos sonhos. Em sonhos eu perdia os dentes, mendigava, rastejava pelas ruas comendo restos, dormia em baixo de cobertores que não me protegiam de surpreendentes pauladas. Acordava com pancadas-pesadelos nas costas, no rosto. Medo-maquínico. A miséria é um vírus.

Da alegria ontológica anterior passei a ter uma sensação insustentável de estar paulatinamente me transformando numa decrépita miserável. Parecia um caminho inevitável tornar-me esse duplo da humanidade funcional: – moradora de rua – aquela que não tem funcionalidade social, que atrapalha, que atravanca os canais internos da corpo citadino colossal como se fosse merda trancada no reto, para depois ser escoada nos canos subterrâneos. Um contra-corpo fedorento e poluente. O negativo do corpo incluído. Sem nenhuma ilusão de mártir ou bode sacrificial, sofria a plauzibilidade de transformar-me nesse signo defecado destinado a percorrer corredores fétidos. Existia no entanto uma sensação ainda mais periclitante: o pavor dos sistemas de controle e doma sobre a merda. Moldadura-da-merda.

Nesses tempos de mergulhos e agonias quando olhava para minhas próprias mãos se merdificando e dormir já não era consolo, quando a decadência foi perfurando-me a ponto de atravessar-me a pele de coceira e sarna e pulga, eu precisei parar… Parar para mudar meu ponto de aglutinação, como diria D. Juan a Castañeda. Parar a queda. Parar com a interpretação viciada da filosofia clássica que em mim insistia, de pensar a experiência fronteiriça como queda abismal num terreno de trevas icognoscíveis. Mesmo que eu negasse minha queda por quedas, não havia como negar, elas – as quedas abismais – estavam encravadas em minha percepção das coisas, e eu caia nelas como quem enlouquece ao lidar com forças maior que si.

Nessa época decidi trabalhar como psicóloga institucional em uma casa de acolhida a mulheres de rua, na expectativa de poder atuar de forma mais eficaz com esse público ao invés de ficar vagueando por entre sacos de lixo. Foi um trabalho muito doloroso porque a instituição parecia ser a caricatura dos sistemas de doma que eu tanto temia. Rapidamente fui demitida como se tivesse trazido alguma praga para a instituição. Me despejaram sob o pretexto de que acabaria por produzir uma rebelião dentro da casa, como se aquilo fosse mesmo uma prisão e as mulheres, condenadas. E não era [16]?

Apesar da experiência ter sido aparentemente desastrosa tanto no sentido de atrapalhamento (senso comum) quanto no sentido de perda do astro (etimologia e filosofia), variei pontos de vistas e percebi que o usual abismo misterioso onde habitavam as mulas marmelas era na verdade terreno de superfíce formado por superposições de restos de cidades e humanidades. Um espaçamento intermediário entre o mundo que se reivindica e o mundo que se rejeita. Os gestos corpóreos que nele se alojam insinuam um possível qualquer que operam num precário defasado e inconstante, imensamente inferior a constituição propositiva de uma comunidade alternativa, por exemplo, mas talvez exatamente por causa dessa inferioridade propositiva, dessa insconstância movediça, dessa obscuridade esquisita e esquiva se torne tão incisiva sua manifestação. Esterco profícuo para o qual eu retornava. .

Os locais secretos, as resistências escatológicas, as reverências iconoclastas, os cotidianos de quem vive em estados de exceção, as greves humanas, as vidas nuas, as instalações corpóreas nas vias públicas todas essas ‘superposições de restos’ despertavam-me agora vontade de testar linguagens diferenciadas que colocassem em trânsito esses repertórios corporais inconclusos cheios de conteúdos ocultos, temporalidades difusas, narrativas entrecortadas e automatismos “(…) este saco este lodo o ar ameno o escuro negro as imagens coloridas a força para rastejar todas essas estranhezas “ [17]

No começo essas “testagens” configuravam-se como tentativas de produzir no meu próprio corpo imagens que expressassem afetos da rua. A composição dos elementos misturava precariedade e excentricidade: coroa de espinho com nariz de clown; decote excessivo e quadril acorrentado; corda no pescoço e garrafa de cachaça na mão; falava em línguas inventadas e dividia seus cobertores cinzas-de-sujos; improvisava sonoridades a partir de elementos de uso comum na rua como o toque da mão em diversificadas texturas, audição dos barulhos produzidos pelos saquinhos de cola quando aspirados e manipulados; pinturas dos seus corpos e o meu próprio nas calçadas-dormitórios; construção de imagens performatizadas para fotografia e câmera de vídeo, pequenos rituais com tambor em volta de suas fogueiras noturnas; entre outras coisas[18]. Eu detectava um certo princípio cerimonioso nessas minhas performances experimentais que comungava respeito aos locais ‘secretos’ que adentrava (reverência) e impulsos profanos derivados de suas resistências escatológicas e iconoclastas (andrajos).

Talvez ao olhar de alguns moradores de rua eu estivesse processualmente me tornando uma louca-de-rua. Mais uma daquelas tantas aparições noturnas que freqüentam as bolhas invisibilizadas; do nada aparecem freiras e padres travestidos e cerimoniosos; borrachos voltando para casa cheios de valentia; travestis ensandecidos procurando namorados; putas montadas para a caça comprando saquinhos de cola; policiais bêbados roubando saquinhos de cola… Aparições – desaparições… Em uma espécie de deriva alucinada eu me enlaçava às brumas desaceleradas das bolhas-fissuras da cidade, distendendo, alongando, esticando os fibrosos rasgos da cotidianidade. Provocações polifônicas dos sentidos demasiadas comuns para a névoa espessa e ébria das ruas.

Essas derivas me faziam lembrar a “moça” do “Claro” de Glauber Rocha, que atravessa o filme como uma vidente louca, cheia de panos e lenços, lançando profecias ininterruptamente seja em forma de palavras, seja em movimentos corpóreos alucinados engendrados, seja somente vendo e ouvindo tudo que se passa[19] A moça, nessa belíssima performance cinematográfica simboliza uma singular testemunha da história do ocidente: suas quedas, suas passagens, suas artificiosas mortes e ressurreições. Ela vai arriscando sua loucura por onde quer que passe, trazendo a tona fatos imemoráveis, signos atemporais, imagens de criação e destruição a um só tempo, propondo um discurso autônomo aparentemente desligado dos fatos que, no entanto atualiza virtualidades relacionadas ao mo(nu)mento histórico que presencia: as catedrais romanas, os imponentes templos do Vaticano, a insurreição-68 na França, a vitória dos vietnamitas, os levantes e desmoronamentos dessa época.

Em uma das cenas do filme, depois de uma demorada panorâmica sobre Roma onde aparece Glauber falando sobre revoluções, desintegrações do imperialismo, rupturas tanto do nazismo quanto das revoluções comunistas dos paises do terceiro mundo e das condições miseráveis de existência a que todos se submetem, surge a moça no interior de uma casa como que em transe pronunciando: “Nesta floresta, nesta floresta que parece nunca terminar, havia tantos outros, tantas árvores que subiam… Era como o horizonte em cima, na vertical, como se a gente estivesse de cabeça pra baixo. Lembro-me bem daquele espaço infinito e verde no meio do fogo, atrás de você, de você que trouxe de volta a natureza silenciosa, muda, a que está comigo. Você que é o olhar verde através do espaço transfigurado e eu a voz que fala, a voz que fala sem parar que diz não importa o quê. Através das coisas, através do tempo, através dos espaços para ouvir música… ”[20].

Os discursos e movimentos incongruentes da moça rompem com significações pré-determinadas e ampliam as interpretações viciadas sobre um mesmo símbolo, seja ele relacionado ao papado, revolução comunista, morte do pai, miséria e marginalização. Multiplicação atemporal e infinita dos signos e dos seus sentidos; a moça é testemunha e cúmplice da terra e da humanidade na terra; ela acompanha seus movimentos, deslocamentos, renascimentos; é testemunha dos encontros, por isso não pode prometer, não tem imagens fixas do futuro – nem utopias, nem objetivos – somente expressa a infinitude que a rodeia, criando estéticas novas no corpo atravessado, como se inventasse seu próprio rito a cada novo acontecimento. Seu corpo atravessa o mundo e o significa… de novo… E diferente – sempre!

Metempsicoses… Aquele corvo de Allan Pöe instalado na janela do mundo repetindo a desesperadora frase: “Nunca mais”, como que afirmando a morte existente em cada acontecimento… A cada encontro um espírito transmigrado…[21]

Sentia em minha boca a errância dessa fala-moça:

“A ausência desta cor que procurava entre o negro e o branco. O movimento esquecido, decomposto na geometria do espaço. Do espaço explodido como uma música ausente, os urros destes grandes cães magros que ladravam no deserto não existem mais. E sua ressonância dispersou-se na aridez da areia que se pulverizou no nada de uma memória minguada. E depois a profundidade deste mar abismal onde afoguei minhas lembranças, onde desapareceram as coisas que havia… Então, naquele passado, naquele passado ultrapassado e que era reduzido a nada, que nos reduziu a nada, nos reduziu a zero, à aridez selvagem e onde a minha boca arde como o infinito. Naquele deserto onde a pirâmide assume uma forma que não tem mais nada de pirâmide e é algo que se torna monstruoso. Eu não sei mais… O éter não existe mais. Há alguma outra coisa na profundeza do nada que agora é somente movimento, movimento sem princípio nem fim, movimento de horizonte, movimento de alguma coisa unilateral onde a cor, o som, todas as formas se misturam no caos cosmodemoníaco, em que esquecemos aquela que então era chamada lucidez… Por isso eu erro, eu erro como uma coisa cristalina e nova junto a novos sons em que o perfume que poderia brotar não brota. Eu cortei a cabeça mas ei-la aqui já se agitando de novo, uma sombra desbotada e ridícula. É normal. O que está escrito, está escrito. Está ainda quente o ventre que concebeu a besta imunda”[22].

Besta imunda do homem, do ocidente, do vaticano, do primeiro traço inscrito na pele como sinal de pertencimento – a primeira escarificação. “Por isso eu erro, erro, e o éter não existe mais…” Mas a gurizada de rua cheira algo-como-éter pra caralho! E esse algo-que-alucina é a sustentação da vida e da morte ao mesmo tempo. Talvez os cães magros ainda ladrem em um deserto urbano que se faz público e hermético ao mesmo tempo; repleto de acasos, simultaneidades, narrativas transversas e dessincronias; desertos de terrenos movediços… Sempre cinzas… “Que tudo se torne negro, que tudo se torne claro, que tudo permaneça cinzento, é o cinza que se impõe, para começar, sendo o que é, podendo o que pode, feito do claro e do escuro, podendo esvaziar-se deste ou daquele, para ser apenas o outro. Mas eu talvez me faça ilusões sobre o cinza, no cinza” [23]. Cães magros herméticos e desérticos que carregam as marcas corpóreas da peleja não realizada, e no entanto perdida. Por acaso a imagem de um batalhão de guerreiros derrotados não avizinham-se aos corpos alquebrados atirados nas ruas? Os enforcados instalados nas ruas das cidades tomadas pelos inimigos-de-guerra: o cinema, a náusea, as instalações, os sígnos.

Reminiscências… Corpos alquebrados modificados pelas forças matéricas do mundo… Imagens-mutiladas… Revides derrotados atravessados por metal e cidade. Corpos-que-circulam e circuns-ferem-nos. Ciborgues e moradores de rua em processo de modificação corporal instalando-se pelas urbanidades… Um pouco de cópula se não eu sufoco!!!! Cópula e gesto.

Fluxos intensivos de forças invisíveis atualizadas pelos gestos: corpo incorporado. Corpo-que-revela-e-expressa-intrincados-jogos-virtuais. Gestos que se manifestam num coletivo social por pura gratuidade ou necessidade, não importa, não é isso que determina a sua função. Seja qual for a causa de sua emergência são capazes de intervir no sistema de significação do sócius de modo a ativar multiplicidades de sentidos inovando espirais associativos, potencias sensório-perceptivas e processos criativos como também são capazes de gerar rígidos sistemas de valores representativos devido a circularidade redundante do seu simbolismo no imaginário cultural. As vezes acontece de não terem função alguma, simplesmente não se inscreverem por não serem pertinentes às práticas discursivas historicamente determinadas, seja por serem associados a signos supostamente já conhecidos e consumados ou ainda por não serem capazes de produzir nenhum sentido coletivo. Para mim era evidente que os moradores de rua emitiam signos incessantes, assim como despertavam incessantes narrativas nos que o assistiam, mas de alguma forma essas narrativas externas pareciam-me tão precárias quanto sua condição de existência, pelo menos as narrativas viciadas ,repetidas pelos serviços públicos que deles se ocupavam.

Daí meu desejo de cópula entre body modificators[24] e moradores de rua. Não é analogia. É cópula gósmica e gozoza repletas de secreções secretas e sofridas. Suor e língua. Viagens vulvânicas ou falo-aquosas do-outro-dentro-e-entre; aconchavos de tatuagens. Fino fio de corrimento e baba pingando da articulação entre dois corpos semióticos heterogênos que por sua indecência copular lubrificam maquinários enferrujados do pensamento.

Não se trata aqui de assinalar as semelhanças dos processos de alterações corpóreas dos moradores de rua e dos body modificators com o fim de identificá-los, serializá-los, deslocá-los de seus territórios próprios para forçar-lhes um pertencimento descabido à mesma comunidade corporal e sígnica… Mas é notório que algo se produz entre esses corpos-territórios… Um algo de gesto… Gestos que sustentam cenas de futuro e passado a um só tempo; que configuram planos corpóreos-existenciais a partir de confluências de vicissitudes, pulsões, acasos, extravasamentos… Linguagens gestuais que introduzem nos terrenos da cidade, densidades e ontologias inapreensíveis. Signos natimortos.

Cópulas signicas entre body modificators e moradores de rua inscrevendo-se na cidade pública. Corpos atravessados por ganchos de açougue, balas de revólveres, quelóides provocadas voluntária e/ou involuntariamente, queimaduras de brasa, ferro quente, riscos de facas na pele, sangramentos produzidos por si mesmo ou por outrem; escarificações e furos epidérmicos. Uns assemelhados a animais por práticas de implantes e tatuagens, outros por abandono da posição ereta em função de suas vidas horizontalizadas pelas calçadas…

Fui a um encontro de body modificators para práticas de suspensão numa antiga fábrica de temperos na zona sul de São Paulo[25]. Grupos de corpos modificados, línguas cortadas ao meio e guampas implantadas na testa aparecem aos poucos. Se conhecem, celebram reencontros, bebem juntos, preparam-se para as suspensões que logo iniciarão. Um grupo furava com ganchos de ferro os joelhos de um, as costas do outro, os peitos de um, a silhueta do outro… Ferro-furo-sangue-pele. O outro grupo preparava as cordas, as roldanas e os demais equipamentos necessários para o rito. As pessoas de corpos atravessados por ganchos iam, uma a uma, sendo suspensas até ao teto. E suas dores de perfuração eram vividas notoriamente como afetos modificados. _ O que você tem há ver com moradores de rua? Perguntei pra alguns deles, um me respondeu: _ a violência da imagem, eu acho, a violência.

E aquele homem, conhecido como mago da body modification – Fakir Musafar – resolveu sistematizar os jogos mais utilizados pelos body modificators em sete categorias[26]:

Jogos de contorções (modificação da forma e crescimento dos ossos);

Constrições (compressão do corpo, utilização de amarras, ataduras, cinturões, cordas, borrachas);

Suspensões (pendurar-se em ganchos, cruzes, através de múltiplos furos no corpo);

Privações (enclausurar-se, congelar-se, jejuar, privar-se do sono, limitar os movimentos, fixar-se em gaiolas e sacos);

Impedimentos (usar adereços de ferro, pulseiras pesadas, correntes);

Penetrações (invasões, flagelações, perfurações, ato de picar-se, espetar-se, deitar em camas de pregos, injetar agentes químicos no corpo);

Jogos de fogo (queimaduras, choques elétricos, marcas feitas a ferro e queimaduras).

Esse xamã das transcorporalidades têm investido exaustivamente em pesquisas de modificações corporais, operando com técnicas oriundas dos mais variados campos culturais, misturando práticas tribais, rituais religiosos, acessórios de moda, costumes comunitários e moderníssimas invenções tecnológicas da física e medicina. Seus métodos de iniciação consistem não só nas práticas de alterações corporais, mas também nas alterações subjetivas delas advindas, como as variações dos planos sensório-perceptivos, imersões espaço-temporais e constituições de coletivos de corpos modificados. Os rituais propostos por Musafar, assim como muitos praticantes da body modification têm como uma de suas evidentes funções produzir a partir das alterações corpóreas, novos modos de subjetivação e constituição de novos corpos-coletividades.

As dores provenientes das práticas de alterações orgânicas são para os modern primitives[27] afetos fundamentais para a concretização dos rituais de passagem. Não são somente as modificações dos contornos dos corpos que efetivam as transformações, mas sim todos os conjuntos de conexões e (in) determinações processuais que levam o sujeito a desejar mudar o corpo e participar dos coletivos de corpos modificados; não há interesse em anestesiar a dor porque ela tem a função de dar a dimensão real das alterações produzidas, funcionando como sensação subjacente à criação das novas formas corporais. As inusitadas estéticas criadas durante as alterações e os cuidados necessários durante os períodos de cicatrizações operam como disparadores de novas concentrações, densidades e intensidades que se instalam no corpo do sujeito tanto quanto as marcas… Todo esse processo de modificações corpóreas-subjetivas vividas torna-se por fim, instalações individuais e públicas concomitantemente que expõem abertamente na cidade real/virtual as inscrições sígnicas dos novos corpos tornados linguagens.

E os moradores de rua que corporeidades produzem? Teriam os jogos ritualísticos das práticas de modificação corporal alguma aproximação com as condições orgânicas-existenciais dos habitantes dos domínios do demasiado? Quero dizer, é possível insistir na cópula espasmódica corporal e sígnica entre os moradores de rua – homens trapos – quase vencidos de guerra e os body modificators – body art – cyborguezia?

A mulher de rua carregando seus dois filhos nos braços é interpelada pela carrocinha-que-recolhe-crianças-vira-latas. Tiram-lhe os dois filhos dos braços e os levam para as gaiolas-infantis-assistenciais – luta perdida de mulher perdida – risca o peito com a unha encravada, urra na rua desvairada e delinqüente mostrando aos passantes suas tetas encravadas de leite, esguicha-as na garrafa de coca-cola. Já não é ereta, já não têm direitos… Bebe seu próprio leite-coca-cola, cadela-tetrapódica, coçando as sarnas das pernas com os dentes.

Corpo modificado. Desvario inconseqüente-inconsciente de fêmea-horizontalizada. Body modification antiantropocêntrica performatizada. Os cacetetes da polícia legitimados por violentos códigos jurídicos, os empregos sem consolo, as panelas sem refogo, os homens engravidantes, as letras-papéis-cobranças incessantes são forças-matéricas que se atravessam no corpo da mulher-cyborgue-cadela revelando percursos, processos de iniciações, ritos de passagem, dores e estéticas. Mulher instalação, perfurada por ( i ) materialidades demasiadas…

Jogos de contorções, constrições, suspensões, privações, impedimentos, penetrações, flagelações, furos epidérmicos, utilizações de amarras de ferros parecem ser práticas também comuns aos coletivos de moradores de rua. Coberta no chão encima do papelão, roubam o papelão, chove no papelão, o cobertor que não tapa o pé, pé de frio-e-frieira; noites cheias de sarna e lua e chuva – perfuração no estômago de fome e tatuagem feita a pedaço de pau de coçar as costas, amarras da algema policial confundidas com a grade do metrô – impedimentos de ir e vir – a cerca da praça; o frio do chão-ladrilho – extensão do travesseiro-de-paralelepípedo, as penetrações do escuro, do estupro, do prazer sempre negociável… O revólver da polícia e do vizinho de calçada, de cachaça e de destino…

E as dores sofridas durante os processos, as vezes muito lentos, de alterações corpóreas produzidas pela rua, por acaso não constitui também inusitadas concentrações, intensidades e afecções encravadas na pele que subjetiva a pele, a mente e tudo-mais? Alterações-mais-que-orgânicas… Densidões…

“(…) Gente morando no subsolo, nos esgotos subterrâneos ou mesmo em buracos no chão cavados a colher – estranhas alianças, do devir-porco para o devir-toupeira ou devir-tatu, passando pelos devires urubu, rato e caranguejo. Que tipo de bichos, que tipo de hibridizações estão se formando com tais agenciamentos? (…) Que espécies de desmaterializações e rematerializações encontramos aí neste bloco semiótico, que perceptos e afectos são mobilizados, que anti-matérias nesse agenciamento os seres liberam e que molecularizações ambientais eles contraem? Seriam os nossos autênticos mutantes, não aqueles hollywoodianos, bonitos demais, saudáveis demais, poderosos demais, mas de uma outra espécie, humanamente mais próxima, triste e real (…) Com a presença dos novos híbridos entre o homem e o animal, a quem iremos recorrer nesse impasse, Ibama ou Direitos Humanos?” [28].

Poderes matéricos atravessados nos corpos, nas almas… Demências animalizadas como linhas de fugas possíveis… Sacrifícios e resistências de corpos instalados num arbitrário espetacular insistente… insistente… insistente…

“É a partir daí, nesse espaço mínimo maximamente atravessado, o louco (morador de rua) torna-se a tela de projeção intensíssima do Fora total. Passam por ele todas as forças, seus combates, os diagramas de poder, os estratos, os saberes, as palavras, as coisas, os sons, as personagens da História, os elementos, as cores. A perda do corpo é isso: tudo cravando a carne, perfurando a pele, atravessando-o, desmembrando-o, projetando sobre ele imagens materializadas, explodindo-o, incendiando-o, engolindo-o. Esse é o corpo despedaçado, corpo-coador, corpo-tela, cinema vivido nas vísceras, superfície feita profundidade. Se há profundidade no louco (morador de rua), é nesse sentido, do fora adentrando-o-corpo-tela.”[29].

Que inscrições possíveis produziriam as corporeidades-linguagens-telas das misérias instaladas na cidade? Seria possível deflagrar a partir desses corpos marcados, uma crise amplificada que produzisse efeitos para além das lutas de classes identitárias, algo como uma convulsão corpórea social? Que mecanismos empregar-se-iam para amplificar os gestos da miséria de modo a fazê-los vibrarem mais, dilatarem-se, deslocarem-se para além de seus circuitos viciados a fim de constituírem-se como linguagem produtiva no sócius?

“Joelhos encolhidos costas curvas me arco aperto o saco contra minha barriga me vejo agora de lado eu o agarro o saco estamos falando do saco com uma mão por trás das costas o arrasto para baixo de minha cabeça sem soltá-lo nunca o solto [30].”

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….fabianeborges………………………………….


[1] Cfe. João Guimarães Rosa. Primeiras Estórias. Texto: A benfazeja. Ed. Nova Fronteira. 18º Edição. RJ. 1985. P. 113

[2] Antonin Artaud – A liquidação do ópio………….

[3] “Na concepção filosófica de muitas culturas africanas, assim cono nas religiões afro-brasileiras, a encruzilhada é o lugar sagrado das intermediações entre sistemas e instâncias de conhecimentos diversos, sendo frequentemente traduzida por um cosmograma que aponta para o movimento circular do cosmos e do espírito humano que gravitam na circunferência de suas linhas de interseção. Operadora de linguagens e de discurso, a encruzilhada, como lugar terceiro, é geratriz de produção sígnica diversificada e, portanto, de sentidos plurais. Nessa concepção de encruzilhada discursiva destaca-se, ainda, a natureza cinética e deslizante dessa instância enunciativa e dos saberes ali instituídos. No âmbito da encruzilhada, a própria noção de centro se dissemina, na medida em que se desloca, ou melhor, é deslocada pela improvisação. Cfe. Leda Martins. “Performances do Tempo e da Memória: os congados” . Revista: O percevejo; Estudos da Performance.Revista de Teatro, Crítica e Estética. ISSN 0104-7671. Ano 11. n°12. 2003. Departamento de Teoria do Teatro. Programa de Pós-graduação em Teatro. UNIRIO. P. 68.

[4] Einsturzende Neubauten – Banda punk alemã. Muitos dos seus shows e clips foram feitos em prédios destruídos ou abandonados, e caracterizam-se por musicas que misturam barulhos de metais, grunhidos, berros, instrumentos musicais, danças butonianas, etc.

[5] Nome de duas ruas famosas em São Paulo: Av. Paulista – jogo do banco imobiliário; rua Augusta – Av. das putas.

[6] Diamanda Gallas – Cantora americana de origem grega, conhecida como amante do demônio, bruxa contemporânea e outros apelidos. Trabalha com técnicas vocais, gritos, urros, repetições, dessincronidades, etc.

[7] “Mito como narrativa, mito como rememoração, mito como alusão, mito como celebração, mito como locus da hierofania, mito como pré-logos, mito como derivação – parábola, metáfora – mito como impostura; (…) enquanto narrativa, a fala do mito, verbalizada, ou na via da escritura, implica signagens derivativas (…) A cena mítica, momento de permeação ou de re-apresentação do fenômeno primeiro, investe-se pelo seu caráter direto com a experiência, plena de visibilidade e sensação, de uma potência superior às narrativas e relatos (…) Pensando-se o mito, ou o estado mítico enquanto “nível de ruptura ontológica, espaço de manifestação da epifania (estado que os místicos chamam de transe ou êxtase), tempo de permeação. Cfe. Renato Cohen . Work in progress na cena contemporânea. Ed. Perspectiva. S.A São Paulo SP.1998. P. 65 (nota de rodapé).

[8] “Os signos emitem signos uns para os outros. Não se trata ainda de saber o que tal signo significa, mas a que outros signos remete, que outros signos a ele se acrescentam, para formar uma rede sem começo nem fim que projeta sua sombra sobre um continuum amorfo atmosférico. É esse continuum amorfo que representa, por enquanto, o papel de significado, mas ele não para de deslizar sob o significante para o qual serve apenas de meio ou de muro: todos os conteúdos vêm dissolver nele suas formas próprias. Atmosferização ou mundanização dos conteúdos. (…) Mesmo quando abstraímos o conteúdo em uma perspectiva estritamente semiótica, é em benefício de um pluralismo ou de uma polivocidade das formas de expressão, que conjuram qualquer tomada de poder pelo significante, e que conservam formas expressivas próprias ao próprio conteúdo: assim, formas de corporeidade, de gestualidade, de ritmo, de dança, de rito, coexistem no heterogêneo com a forma vocal. Várias formas e várias substâncias de expressão se entrecortam e se alternam,. É uma semiótica segmentar, mas plurilinear, multidimensional, que combate antecipadamente qualquer circularidade significante.(…) De forma que o signo deve aqui seu grau de desterritorialização relativa não mais a uma remissão perpétua ao signo, mas ao confronto de territorialidades e segmentos comparados dos quais cada signo é extraído (o campo, a savana, a mudança de campo)”. Cfe. Gilles Deleuze & Félix Guattari in Mil Platôs- capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995, Vol. 2, tr. br. de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão, pp. 62, 69. Mille plateaux, Paris: Minuit, 1980, pp. 141, 147. .

.

[9] Cfe. Alain Daniélou. Shiva e Dioniso – A Religião da Natureza e do Eros –Ed. Martins fontes, SP.1989 P:85-96

[10] Cfe. João Guimarães Rosa. Primeiras Estórias. Texto: A benfazeja. Ed. Nova Fronteira. 18º Edição. RJ. 1985. P. 113

[11] Antonin Artaud – A liquidação do ópio

[12] Cfe. Roger Gilbert-Lecomte. Texto: Sr. Morfeu, envenenador público; em A experiência alucinógena Antologia; civilização Brasileira. RJ.

[13] Cfe. Jack Kerouac. “On the road” – Pé na Estrada. Ed. L&PM POCKET. Porto Alegre. RS. 2004. Introdução e posfácio de Eduardo Bueno. P. 314.

[14] Cfe. Roger Gilbert-Lecomte. Texto: Sr. Morfeu, envenenador público; em A experiência alucinógena Antologia; civilização Brasileira. RJ.

[15] “Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário – mas amá-lo…” Cfe. Friedrich Nietzsche. Ecce Homo. Ed. Companhia das Letras. São Paulo. SP. 1995. P.51

[16] No capítulo entitulado experimentações no tópico casa das mulheres, desenvolvo mais esse episódio.

[17] Cfe. Samuel beckett. como é. Ed. Iluminuras LTDa. São Paulo. SP. 2003. P.28

[18] Essas experimentações eram feitas com o coletivo catadores de histórias, composto por Rafael Adaime, Fabiane Borges, Ademilton Nego, César….. em parceria com Frei Lúcio, franciscano maluco italiano que passou cinco anos curando e cuidando de moradores de ruas enfermos.

[19] “A conclusão se impõe por si: não há contradição entre labirinto e minotauro, Apolo e Dionisio, palavra e desrazão, pensamento e excesso, sabedoria e delírio, logos e mania. O que não significa que entre eles haja, ao revés, simples identidade ou mesmo continuidade. (…) Da desrazão á razão há passagem e vai-e-vem, não exclusão. Cfe. Peter Pál Pelbart. Da clausura do fora ao fora da clausura. Ed. Brasiliense. 1989. São Paulo. SP. Pags. 31-32.

[20] Cfe roteiro do filme “Claro” 1975, de Glauber Rocha. Fragmento retirado do livro: Glauber Rocha- Roteiros do Terceiro Mundo.. Editorial Alhambra/ Tipo Editor Ltda. RJ. 1985. Organizado por Orlando Senna. P.430

[21] “ Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; e mergulhando no veludo; da poltrona que eu mesmo ali trouxera; achar procuro a lúgubre quimera; a alma, o sentido, o pávido segredo daquelas sílabas fatais, entender o que quis dizer a ave do medo, grasnando a frase: “Nunca mais”. Cfe. Edgar Allan Pöe; Histórias Extraordinárias. Ed. Clube do livro LTDA. São Paulo. SP 1972. “O corvo”. Tradução achado de Assis. P. 233-237

[22] Cfe roteiro do filme “Claro” 1975, de Glauber Rocha. Fragmento retirado do livro: Glauber Rocha – Roteiros do Terceiro Mundo.. Editorial Alhambra/ Tipo Editor Ltda. RJ. 1985. Organizado por Orlando Senna. P. 424-425.

[23] Cfe. Samuel Beckett. O inominável. Ed. Nova fronteira S/A Rio de Janeiro, RJ. 1989. P. 16

[24] Grupos de pessoas que se dedicam à intervenção corporal a partir de tatuagens, práticas de peircing, implantes de objetos, escarificações, cortes, modificações da silueta, etc. Fala-se também em body art, que são pessoas (artistas) que utlizam o próprio corpo como suporte da arte.

[25] Refiro-me ao Evento Suspension – Suscon Brasil – 2005 – Cutuvi/São Paulo. http://www.neoarte.net / por Filipe B. Júlio.

[26] Cfe. Beatriz Ferreira Pirez; O corpo Como Suporte da Arte – Piercing – Implante – escarificação – Tatuagem. Ed. SENAC. SP. São Paulo. SP. 2005. P. 115,116. & Cfe. site: http://www.bmezine.com/

[27] Modern primitives; “O termo surgiu em 1967 para indicar o modo de vida de indivíduos que, mesmo sendo membros de uma sociedade que se desenvolve baseada na razão e na lógica, se guiam pela intuição e colocam o corpo físico como o centro de suas experiências” (…) “Fakir Musafar adotou esse nome no ano de 1978, inspirado em um indivíduo que, vivendo na Pérsia por volta do ano de 1800, passou dezoito anos de sua vida perambulando pelas cidades com punhais e outros objetos enterrados no corpo, tentando explicar às pessoas os mistérios que lhe permitiam fazer tais coisas”. [27] Cfe. Beatriz Ferreira Pirez; O corpo Como Suporte da Arte – Piercing – Implante – escarificação – Tatuagem. Ed. SENAC. SP. São Paulo. SP. 2005. P102- 103

[28] Cfe. Marcos Guilherme Belchior de Araújo. http://oestrangeiro.net . Texto: Nossas Baias Coletivas – 25/12/2005.

[29] Cfe. Peter Pál Pelbárt. Da Clausura do Fora ao Fora da Clausura. Loucura e Desrazão. Ed. Brasiliense. 1989. P. 171 – grifos meus.

[30] Cfe. Samuel beckett. Como é. Ed. Iluminuras LTDa. São Paulo. SP. 2003. P……………..

Make a Comment

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Liked it here?
Why not try sites on the blogroll...

%d blogueiros gostam disto: