integração sem posse X reintegração de posse

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Integração sem posse X reintegração de posse[1]

Madrugada. Poucos carros insistem na avenida. A líder sem teto não prega o olho. Será hoje o despejo? Em suas pálpebras pesam três mil vidas saídas de cortiços, favelas, praças públicas, viadutos… Quanta promessa foi feita para que essa gente toda se aventurasse na peleja infame em busca de teto? No reflexo da janela o olho esbugalhado vê as caras-das-pessoas: …dona Romilda cozinheira… dona Idalina na costura… Manoel linha de frente… O vidro lhe espelha as caras todas e todas elas lhe exigem respostas. Mas não há respostas. Sabe que a liminar despachada pelo juiz da 25º vara anuncia a reintegração de posse e o despejo pode ser hoje… Insônia…

Em épocas de reintegrações as madrugadas das ocupações são ameaçadas pelo despejo armado; é preciso fazer vigílias. Vigílias-sagradas que transmuta aquele-que-vende-água-no-semáforo em guardião-dos-templos-sem-tetos. Ele chega na ocupação cansado do barulho dos carros das encruzilhadas, troca sua roupa suada pela de arqueiro da noite; café quente na térmica; dedos engatilhando cigarros como se fossem fuzis; pupila na vidraça espionando a possível aparição dos cães de guarda, oficiais de justiça, atiradores de elite e assistentes sociais que fecharão a rua em seus dois lados instaurando a pressão armada. Em nome da lei, das revitalizações, das estúpidas associações semânticas que ligam a condição de pobreza à descartabilidade, os Legitimados promovem prodigiosas varreduras na cidade despejando gente, gradeando praças e engaiolando moribundos em lixeiras assistenciais.

Quem dera fosse verdade que a ditadura é finita… Só porque pararam de torturar universitários pensam que acabou o tormento… Líderes de movimentos sociais continuam sendo presos sob acusações variadas… Meus colegas são condenados pela lei como formadores de quadrilha… Tenho que estar atenta… Diz a líder sem teto para si mesma passando ruge nas olheiras-de-sono, imaginando-se enjaulada numa monstruosa lata-de-lixo.

Desacreditados das promessas eleitorais e ameaçados pela miséria irredutível os bandos de sem tetos se ajuntam a fim de agitar as redes sociais. A cada ocupação realizada os três poderes (judiciário, executivo, legislativo) são acionados e uma série de ongs, sistemas de comunicações, mandatos, revogações e especulações imobiliárias entram em funcionamento. As ações de ocupações na prática promovem o aceleramento de processos previstos na lei, mas não executados como o direito à moradia e direito à cidade; e também outros tipos de tencionamentos como a de transformarem territórios inativos da cidade em locais de fomentação política, agenciamentos de redes, plataforma de criação de outros movimentos e experimentação de diferentes modos de comunidade.

Sendo a sociedade uma gigantesca teia-rede conectada em toda sua vastidão, a aglomeração dos sem tetos em espaços públicos e abandonados intensificam pontos específicos da trama social fazendo-a estremecer. Os distúrbios da rede promovem profundos deslocamentos tanto na esfera social quanto nos territórios subjetivos; não há como manter a idéia de público-privado dentro das ocupações, pois o movimento é biopolítico: a sustentação do movimento social é o investimento vital; a vida individual e coletiva sofre diretamente as conquistas políticas, as frustrações dos projetos, os inevitáveis sistemas de controle e tudo o mais. O sujeito-sem-teto investe sua própria vida no movimento social lançando-se em situações arriscadas e sem garantias legais como são os casos das ocupações, despejos, resistências, reintegrações de posses, acampamentos em calçadas e praças públicas…

Em situações de reintegração de posse aos antigos proprietários (despejos) as ocupações intensificam sua condição de fronteira; os terrenos ocupados se tornam trêmulos e movediços e não oferecem garantias de passagem. Tensão!!! Os ocupantes têm que sustentar o paradoxo de participarem de um movimento político organizado muitas vezes condenado à ilegalidade pela justiça. Esses disparates agravam-se devido à miséria, fome, superpopulação e precariedade econômica que são a realidade de praticamente todas as ocupações. A sobrevivência é o pacto mais forte com a cotidianidade e por isso é possível, apesar das terríveis tensões, acompanhar a vida se dando com aura comum: crianças brincando, velhos trocando receitas, jovens engravidamentos, mortes e sambas.

CONTÁGIOS

Na iminência do despejo específico de três mil pessoas da ocupação Prestes Maia, grupos de artistas, mídia-ativistas e coletivos de intervenção pública retornam ao prédio em sinal de apoio ao movimento e também para pensar estratégias de ações que coloque em evidência pública a questão das ocupações. A idéia é impedir esse despejo e fomentar a proliferação dos movimentos de ocupação na cidade, no campo e nas produções midiáticas. Estéticas inusitadas que se infiltre no imaginário social tem sido nossa estratégia de ocupação. Ocupação como espaços de pulsação da vida pública.

Retornamos à ocupação Prestes Maia revendo amigos, panfletando na vizinhança, lançando a campanha de cobrir o prédio com lençóis coloridos, grafitando as fachadas, paralisando o tráfego com placas imobiliárias roubadas e resignificadas, rolando pela calçada em performances escandalosas, projetando vídeos nas paredes, ativando grupos culturais da própria ocupação e seu entorno, inventando uma aura de resistência amplificada!!!

Integração sem posse foi o nome escolhido para esses encontros sabatinos engendrados semanalmente a partir de visitas ao prédio, reuniões com moradores e coordenações, reuniões com artistas, listas de discussão da web, anúncios em sites, divulgação para imprensa formal e independente. O imenso galpão destinado a esses acontecimentos tem se tornado território de conexões, produções de pautas midiáticas, confluências culturais e ações expansivas que tem alterado o cotidiano de centenas de pessoas dentro e fora da ocupação.

Várias reuniões têm sido feitas; algumas referentes a ações pontuais em frente aos órgãos responsáveis pelo despejo, em frente às casas dos donos do prédio, na 25º vara onde fica o juiz que decretou a reintegração de posse; outras se atêm a criações de cartazes, lambe-lambes, xilogravuras enormes que estão sendo distribuídas por todo o centro da cidade com o endereço da ocupação, blogs e sites, há os que se responsabilizam mais diretamente pelos sábados artísticos dentro da ocupação fazendo confluir moradores e visitantes, e tem os projetos à longo prazo como é o caso do que está sendo construído com a frente de luta por moradia.

A FLM – frente de luta por moradia – é uma entidade que aglutina diferentes movimentos sociais referentes à reforma urbana e agrária, mutirões colaborativos, ocupações de espaços em regiões centrais, moradias auto-sustentáveis, criações de mídias independentes e produções culturais. O projeto visa utilizar as características singulares de cada um dos participantes na formulação das propostas a serem lançadas. A idéia é que as próprias ocupações, mesmo antes de haver o assentamento legal, se tornem espaços que privilegiem outros modos de viver na cidade, produzindo circuitos colaborativos, investindo em parceiros nacionais e internacionais, desatrelando-se da luta pelo emprego a fim de viver das próprias produções que efetiva. No nosso caso – integração sem posse – a parceria se dá nos critérios: mídia-tática, produção cultural e autonomia. Quantos outros projetos vivos e experimentais surgirão a partir desses encontros?…

Não permitiremos que o formigueiro gigante seja destruído invisivelmente !!!!!!

Alguns coletivos de apoio:

comunas da terra, comunas urbanas, instituto polis, cena dinâmica, catadores de histórias, nova pasta, esqueleto coletivo, a revolução não será televisionada, mm não é confete, bijari, centro de mídia independente, ateliê espaço coringa, mtrtc, ulc, flm, umm, mmc, mtst, mstc, mstru, mtstrc, cmp, tng, cmp, renap, apoio, fórum centro vivo, experiência de imersão ambiental, mídia tática, temp, radioatividade, dub-versão, horizonte nômade, coro, marcha mundial das mulheres, companhia cachorra, imagético, cabeza marginal, fuzarca feminista, grupo braço, contra-filé, meta-reciclagem, digitofagia, coletivo tux, grupo silencio, núcleo da subjetividade, cadopô, bigodistas, splacs, integração sem posse, etc.

Sites e contatos:

· http://www.mstc.org

· http://integracaosemposse.zip.net

· integracaosemposse@uol.com.br

· Fabiane Borges é pesquisadora CNPq-Puc.SP (Psicologia Clínica). Atua junto a movimentos de ocupações da cidade e do campo com o coletivo de ação pública: Catadores de Histórias. fabianeborgess@uol.com.br


[1] Integração sem posse é o segundo grande evento de arte e mídia realizado pelos coletivos de ação na ocupação Prestes Maia. Acontece todo o sábado a partir das 14 horas na Av. Prestes Maia 911. O primeiro foi o ACMSTC – Arte Contemporânea no Movimento Sem Teto do Centro – realizado em dezembro de 2003. Revista Global n° 2 – 2004 In Cassandra. “Ocupação de espaços, almas e sentidos”.

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