intervenção na cidade através da performance dionisíaca

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Num mundo anacrônico, com toda sua turbulência industrial, tecnológica, comunicativa, internáutica, pós-utópica, onde assistimos pelas redes de comunicação as “explorações” planetárias, ao mesmo tempo em que convivemos com pessoas em extremo grau de exclusão, cujos aspectos mais básicos de sobrevivência são negligenciados, sentimo-nos “chamados” a inventar novas táticas, estratégias e ações de intervenção que criem práticas de resistência ao modelo dominante de controle e homogeneização social.

Dioniso, deus estrangeiro por excelência, deus andarilho, que intervém no modo de pensar e produzir dos mais diferentes grupos humanos, constrói sua performance nas cidades. Dioniso, deus dem templo, cria sua politica nas ruas; os participantes de seus cultos, imbuídos do desejo de potencializarem suas vidas,transformam suas formas de existência, suas relações com a natureza, corpo, cidade, estado, poder. Ele é o deus das forças terrestres, do vinho, da magia, do contágio.

Este deus performer nos convoca a retomar as ruas das cidades, abrindo mão dos espaços privados, que também é nossa privação, e intervir nos espaços públicos, tão esvaziados de sentido, que só servem como corredores que nos levam aos templos privados: bancos, mercados, shoping centers, salas de aulas, etc.

Dioniso como um deus que não respeita templos, propõe a retomada do espaço público com danças, ritos , orgias, vibração do coletivo – é um deus intempestivo e infector, seu vírus se espalha como peste, de modo extemporâneo, infinito. Zaratustra é um deus dos infectados, desce da sua caverna na montanha, como um performer, falando nos mercados, carregando cadáveres nos ombros, anunciando o super-homem, a morte de deus e o sentido da terra como um alucinado pelas cidades, feiras, cemitérios. Zaratustra – um infecto in process, experimenta cada momento de sua virose em toda sua potência. Tem crises, momentos de dores insuportáveis e de alegrias sublimes. Vive cada lugar que vai, cada pensamento que encontra com potência inefável; como numa viagem de ópio: “nesse estado, se vês uma ave que plana no fundo do céu azul começas por representar o imortal desejo de planar por sobre as coisas humanas, mas logo sois a própria ave, a própria árvore, o próprio ópio e passas a fumar-te a ti mesmo.

Abundante em infectados foi também o século XX: futuristas, dadaístas, surrealistas, antropófagos, hippíes, beats, tomaram as ruas, intervindo na cultura, em sua constituição dura, experienciando a potência do coletivo, as forças da troca subjetiva, criando espaços de produção criativa, interferindo no cotidiano dos passantes, mudando o rumo dos seus passos, promovendo momentos de interstícios, onde se abre uma fenda no hábito, no saber, no poder, para deixar entrar oxigênio puro, ou melhor: vinho puro, o vinho do deus infector Dioniso, o senhor das mutações.

Há em são paulo, pequenos coletivos contagiados por isso tudo, vestidos de suas armas tecnológicas, atuam nas praças públicas, metrôs, calçadas, paseatas, promovendo novos modos de criação, experimentando forças, interfacenado as intituições duras, abrindo fendas no cotidiano dos transeuntes carregados de pesos insuportáveis, e em si mesmos. Saem como vendedores de imagnes, homens invisíveis, menossões, formigas, micos, atravessando a cidade, criando cultura.

Depois de muito pensar no porque fazem isso, descubro que: dentro de um mundo privado, de um sistema terrível que nos faz a todos escravos, de paredes duras e instituições feitas de concreto, esses performers da vida, infectados de vinho, tem a função de deixar viva a alegria, de carregar os barris, de não deixar morrer o deus da transformação.

f.b. outubro de 2003

Publicado na Anais.

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