nem pertence a um corpo com órgãos demais

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

esquizotrans II


por fabi borges e hilan bensunsan


Ela era feita de um corpo pós-edipiano e amava sua mãe desde que com ela foi expulsa de três igrejas. Eu era o Ente, a tia de alguém, e ela ficou descontrolada quando viu minha camisola roçando nos seus quadris. Ela apertava as mãos em seus cabelos escutando o Nirvana rimar sua libido com um mosquito e de vez em quando lamentava ter arrancado seu pênis algumas vezes de forma tão incisiva, para nunca mais… Logo perguntaria ao psiquiatra quantas vezes poderia mudar de sexo em sua vida. Suas tragédias não passavam de cardápios de fim de noite em restaurantes de pousadas sem pretensões na costa do Ceará. Mas eram tragédias de apertar as mãos no cabelo. Ela arrancara o seu primeiro pinto com um quebrador de nozes quando a rola estava dura de ver um judeuzinho sardento abaixar a cabeça para deixar o irmão mais velho satisfeito – ela, a rola, ficara tão dura que ele não sabia mais o que fazer e foi incisivo. Demoraram seis anos para ele decidir-se a botar a bucetona ali onde havia os frangalhos do caralho. Ficou de buceta uns anos, foi tempo de dar para um afinador de pianos e de tentar ser tentáculo de nabo, de pepino, de cenoura – quando a maré enchia ela colocava o seu vibrador holandês e apertava o botão “come in 20 seconds”. Era inundada por aquela porra fabricada, com cheiro de camisinha de morango. Elaine Rolnik dizia que para a maior parte dos brasileiros um pau devia cheirar a morango. Disse ao médico que queria uma pica de novo e ele lhe fez a pica – aos moldes de um homem que há muitos anos contracenou em um filme com a Cicciolina. Comeu três irmãs judias do judeuzinho sardento, todas sardentas e com seios que pareciam, cada um, com o mundo todo; mas não comeu o judeuzinho. Arrancou fora o pênis desta vez com uma dentada da mais nova das Rosenberg que nunca entendeu porque ele punha seu corpo à disposição da solidariedade com todas as pessoas da cidade.


Ela sim era mais incisiva que o quebra-nozes. Esculpiu uma vagina aconchegante entre as pernas e se pôs a ser parte de um grupo de mulheres pela liberação imediata de toda tecnologia. Acabou levada pelo Ente com uma barba que crescia para perto do mar para escrever sobre os tempos em que atravessava a rua com tornozeleiras para mostrar aos médicos que as pessoas tem o direito de ficar na genitália que conseguem ocupar.

    Guarda o teu pauzinho para a próxima menina especial que tu encontrar na praia.

Ela não queria aquele rapaz, não na praia, não quando ela estava concentrada no que escrevia. Não precisava mostrar a um homúnculo dentro de si que era capaz de levar a cabo a sedução que derramaram sobre seu corpo na beira do mar. Precisava mostrar a um homúnculo dentro de si apenas que era capaz de atrair a sedução – que alguém quisesse se arriscar por ela. Ser desejada – aquilo era um tonificante para os seus músculos, era um liquidificador para o seu sangue. Sentia-se retomada de promessas, de algo que não necessariamente tivesse que ser cumprido, mas que a injetasse numa dose de esperança, sem condição de fracasso, enfim era crédula demais para acreditar em fracassos cheios de pureza. O que sempre considerou em suas trocas insistentes de sexo, tira e bota peito, tira e bota pau no cú, na boca e no próprio pau, que às vezes é boceta.


Os problemas que tinha realmente eram com amigos, que tinham sempre que estarem sendo investidos da novidade de sua sexualidade mórbida para alguns, inconfessavelmente sexy para outros, como para o seu colega do terceiro colegial. Com ele sempre conseguiu chorar, era de uma ternura, de uma vulnerabilidade falsa, porque cética como era, não podia acreditar nem em suas próprias lágrimas, mesmo assim o coitado do amigo lhe servia de ombro, de lenço , de um consolo bem distante do que costumava levar na bolsa.


Ficou estranhado com a última operação. Virara homem de novo, para não desejar nem homens nem mulheres, mas neófitos. Queria tudo que aprendia e se surprendia, mas que não tinha juízo ainda pra julgar o intempestivo… Se dava à escrita sem cair no pecado mortal da pedofilia. Gostava de resistir um pouco aos pecados mortais, não é que desejava eles por serem pecados nem por serem mortais – desejava o que desejava: aquele pau da menininha que nunca fora chupado; ela, tão pequena, tão urbana, tão convencida de que uma menininha não tinha pinto. Foi o Ente que lhe contou, em confidencia bebendo gim com vermute na beira das águas belas, que ela, a menina do bikini azul – ela, que parecia com a crente em deus que quase alucinara os dois pregando contra os santos da umbanda enquanto roçava a perna sobre seus joelhos em um bugue alugado com espaço para menos de três – era sabida desde recém-nascida. A menina do bikini azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação – deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o bikini azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Eles alcançaram ela enfiando os pés em um banco de areia e a paciência de esperar ela boiar até eles, e ela chegou devagar sem saber que se sorrisse por mais um minuto ou dois terminaria com as mãos dos dois por todo o seu corpo. A menina do bikini azul não resistiu nem ao Ente, nem a ela, de pau quase novo, que tocou suas coxas e, olhando em torno, deixou sua boca ser beijada. Ela não era beijada na boca por qualquer um, apenas dois homens, que terminaram morando com ela por quatro anos cada, enfiaram a língua no seu céu da boca. Agora, a menina do bikini azul, lábios grossos colados nos dele, e ele com as mãos na sua bunda e bastou alguns segundos para sentir o pinto por dentro do bikini azul, grosso como imaginara a médica, ela, e a médica, gostava. Em dez minutos eles estavam em um quarto com vista para a areia e a menina sem o bikini azul, os peitos cada um na mão de um e a buceta mordida pelo Ente; o membro despercebido, ela iniciou a menina que nem sabia que tinha um pinto e gozou na boca dela uma porra de virgem, uma porra com gosto de bikini azul – muita porra.


O psiquiatra foi encorajador e incisivo como as pessoas que vestem branco aprendem a ser: não havia limites na alma humana para modificações nas configurações das peles entre as pernas. Não precisaria se lamentar, apenas passar pelo ligeiro incômodo de sentar e esperar de pernas abertas que lhe mudem o permanente. E depois, ele sugeriu com aqueles ares de quem não se incomoda em supervalorizar sua especialidade: a alma humana pode até prescindir destas intervenções micro-cirúrgicas. Basta mudar os gestos. Mas não se convencera, sempre quis ter um pau para cada coisa ao invés de ter pau pra toda obra. E nunca gostara de pensar em escova progressiva. Mesmo assim correu para o cirurgião: a menina do bikini azul, como? É que ela e o Ente levaram a garota para um festival de cinema transviado, potente, potente, ficou amiga da Juliana que vestia seios e que sussurrava no ouvido de todas as outras que queria muito poder ir a um terceiro banheiro.


No fim da noite, depois de sambar ao som de forró, merengue e reggae, Ju se desabafou na rua mesmo, no canto da calçada, de pé. Melhor assim. Já a menina do bikini azul queria saber tudo – o pequeno mundo dos homens sempre foi mundo distante; a distante terra dos meninos que tentam passar a mão na bunda das meninas gostosas e agora ela acordava todos os dias com pau chupado. Sua mãe há anos não olhava o terreno todo acidentado entre suas pernas e as outras meninas eram discretas e ela mesma aprendeu desde que cresceram pelos por toda a região que era melhor virar de costas e exibir a parte de trás do seu corpo, suas nádegas crescidas e arredondadas – ela sabia que ali era sua melhor coleção de formas e as meninas não olhavam do outro lado daquilo tudo. Sua mãe lhe falava, contou sobre menstruação e lhe ensinou a contar os dias, a olhar a lua, a não manchar as roupas e ela aprendeu e acostumou – cólicas moderadas no dia antes do sangue, o lugar certo para o equipamento de estancar o fluxo, e os dias: sempre vinte e oito dias precisos. Ela andava sempre com as primas, um pouco mais jovens que ela e que queriam aprender a ficar mulher com ela; tinha a prima Marjorie, seios pequenos, ancas modestas e lhe impunha seu ciclo sempre que passava uns dias dormindo na sua casa – Marjorie perturbava, uma fêmea de cheiro forte. Ali, no festival de cinema transviado, com Ju, com os dois que descobriram um falo nela ela se deu conta de que tinha sangue macho dentro dela. Uma madrugada de lua cheia ela olhou para o alto, sua mão direita foi rapidamente para aquilo que havia entre as suas pernas e uma angústia. Ouviu falar tanto de operações, colocar e tirar coisas daquilo que sempre foi do jeito que ela se acostumara a ser; ela nunca gostou de médico, tinha autoconfiança toda rígida com sua saúde, talvez adolescente e, no entanto, ela nunca gripava, quase nunca se machucava e dormia bem – comia agrião, espinafre, horas chupando frutas.

Era um bando de três no festival de cinema e, às vezes, na praia, o coração deles batia muito rápido. Classificaram as pessoas em dois tipos, as que amavam e as que nasceram para desejar. Logo confundiram as duas equipes e quanto mais confundiam mais rápido batiam os três corações. Passaram alguns dias assim grudados: ela, estreando seu pau novo, o Ente, preocupado, e a menina que comprara um outro bikini na praia do Futuro, também azul, mas ainda mais celestial.

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