performance de suicídio guarani

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized | Tags:, , , , , |

Suicídio Guarani

Performances estéticas e interventivas no campo público

 

Por Fabiane Borges e Verenilde Santos

 

Esse texto é sobre a situação/performance de suicídios dos indios Guaranis Kaiowas1 de Dourados Mato Grosso do Sul do Brasil. Estamos falando de fome, ritual de morte, resistência e luta pela terra.

 

Performance ritual:

 

O dia amanhece na aldeia Bororo com um jovem indio Guarani kaiowa de 11 anos enforcado com um cadarço de tenis esticado de uma pequena árvore. Banho tomado, perfumado. Suicidou-se de joelhos.

 

A aldeia Bororo sabe do que se trata: do Jejuvy. Isso não é conforto, é ritual de morte. A palavra Jejuvy na língua dos Guarani2 tem uma carga semântica que significa aperto na garganta, voz aniquilada, impossibilidade de dizer, palavra sufocada, alma presa. É através do jejuvy que eles praticam o suicídio utilizando o enforcamento ou ingestão de veneno. Apesar de ser reconhecido como prática ritual, o que acontece nesses últimos anos impressiona pelo número de suicídios que crescem numa escalada epidêmica, cerca de 50 suicídios por ano envolvendo jovens de 9 a 14 anos de idade. Nunca os números foram tão altos. Começaram a aumentar na década de 80.

 

Na virada do século XXI, conforme dados do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) eles foram praticados na seguinte escala: em 2000 ocorreram 43 casos; no ano seguinte 41. Em 2002 o número de indígenas que se suicidaram foi 55; no ano seguinte foram 53. O ano de 2007 bateu o recorde de suicídios. Notem que não estamos entrando em detalhes sobre morte por desnutrição, nem sobre o número de homicídios entre os próprios indígenas ou as guerras incessantes entre indígenas e fazendeiros, que também são chocantes. Ver mais: http://www.ambienteemfoco.com.br/?p=2407

 

Os suicídios (jejuvy) são efetuados basicamente por enforcamento (método antigo) e ingestão de venenos das plantações dos brancos (método novo decorrente do avanço econômico das fazendas de açucar e soja na região e seus agrotóxicos) sem que exista a “poluição” como derramamento de sangue ou cortes físicos, para que não se perca a palavra. Muitos Guaranis consideram o suicídio uma doença produzida pela prisão da palavra (alma) é pela boca que a palavra se liberta. Se não há lugar para a palavra, não há vida. Desse modo na hora de morrer não deve ser utilizado o corte contra si mesmo, pois a palavra se dispersaria. Sufocando-a ela permanceria como um aglomerado de energia (alma) e poderia voltar a vingar em algum outro momento (reencarnação).

 

Conforme narrativas dos próprios Kaiowa sobre indios que cometeram suicídio, eles unificam elos que vão desde o ato individual inerente à condição humana e solitária de cada um, até o sentido político de coletividade, um “estar entre os outros” produzindo simbologias-limites: os enforcamentos, os envenenamentos. Atos que condensam e apontam para o resgate, talvez impossível de uma “forma de ser”, como os Kaiowas costumam falar. E se para eles a linguagem é uma das mais importantes formas de fazer o ser se manifestar, ao impedi-la, impede-se também os sujeitos de existirem. O suicídio epidêmico seria a resposta coletiva à imposibilidade de expressar a singularidade desse povo.

 

Se até cerca de 40 anos atrás, os Kaiowa e Nhandeva moravam em casas grandes denominadas Ogajekutu, Ogaguasu reunindo até cem pessoas de uma mesma família hoje vivem em casas minúsculas, muitas ainda feitas de barro, sem a proteção da floresta, abrigando apenas a família nuclear. A estrutura da família extensa cuja chefia baseia-se no prestígio e religiosidade desorganizou-se, visto que os indígenas não conseguiram substituir seu prestígio cultural pelo poder dos brancos. Com a dizimação de suas terras, sem os ritos do plantio, da colheita, das sagas coletivas de caça e pesca eles não tem razões para continuar com seus ritos, e conforme perdem as práticas com a terra perdem também sua cultura. Mesmo que ainda subsista, de forma curiosa a lingua guarani, que é o maior foco de insistência e resistência dessa coletividade.

 

Muitos grupos indígenas, inclusive Guaranis Kaiowa, vivem em acampamentos precários dentro das fazendas dos latifundiários, que em nome do expansionismo ou de mais alguma razão macha e injustificável, tomaram a força as terras indígenas e ainda tomam com armas desiguais. Isso é um dos motivos mais apontados por indígenas, indigenistas e antropólogos para a causa da epidemia de suicídios entre os Guaranis Kaiowa: a perda da terra, da Tekoha, o lugar onde “realizam seu modo de ser”.

 

Se por um lado os suicídios por enforcamento ou pela ingestão de veneno podem significar o sufocamento, também podem significar o desejo da libertação, e é nesse ponto que o suicídio ritual funciona como performance ética, estética e interventiva. Gestos de enunciação. O trágico funcionando como dispositivo de reversão sígnica sobre a questão indígena. Desde que essa “epidemia suicida” começou a se alastrar nas aldeias, ativistas, estudantes, pesquisadores, pessoas ligadas a mídia independente passaram a olhar com mais atenção essa situação, fazer alianças e se tornarem cooperadores na luta pela terra Guarani, de forma a amplificar esses sinais que até então estavam sendo feitos em total invisibilidade, e de certo modo ainda estão. Há alguns grupos indígenas, principalmente professores indígenas ligados a universidade e lideranças locais que dedicam sua vida em nome dessa causa, sendo que o número de líderes mortos nessa empreitada supera nossa imaginação. Segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em 2007 os assassinatos contra indígenas cresceram 150% em relação ao ano de 2006, só na aldeia Bororó, onde residem os guaranis kaiowas houve a metade dos assassinatos de 2007.

 

Apesar de muitos dos suicídios serem praticados em locais mais resguardados, existe um grande número de casos que ocorrem em lugares de perambulação, os lugares “públicos” da aldeia, como estradas, roças, áreas onde o corpo suicida pode ser visto sem muita dificuldade. São nuances que ajudam a esclarecer e também interrogar sobre essa forma de morrer. Não compactuar com a dizimação, com o genocídio, com o etnocídio. Não se acovardar diante do destino, ter o ato bravo heróico e último como forma de amplificar os sinais da miserabilidade que foram coletivamente submetidos. As árvores, os arbustos, as roças qualquer lugar que tenha sido utilizado para o suicídio tornam-se marcos da aldeia e ficam cravados no imaginário, na linguagem cotidiana e na sua luta contra o confinamento. Os mortos continuam falando especialmente para os corações sensíveis, ainda conectados em crenças de espíritos da natureza e nas emissões dos seus sinais.

 

Os ritos, as danças, os cantos as lutas sobrevivem por pura insistência. A sensação que tivemos ao estarmos na aldeia bororó é que essa cultura sobrevive por um fio. Um fio tênue de uma beleza atroz. Como uma voz que se força a falar, mas já não soa como antes. Mesmo afônica, agônica, gaga insiste em se manifestar. O rito é um espetáculo. Bem diferente do criticado por Guy Debord. Mas é um espetáculo de re-presentificação e de rememoração. É resíduo. É resistência de certos cantos e gestos. Por isso insisto em chamar de performance ritual, não só os suicídios, mas também a insistência dos gestos e das lutas sociais desse povo. A dança de luta dos Guaranis Kaiowas lembram as lutas marciais, luta de espadas; são feitas de pedaços de paus, facas, pedras assemelhando-se a lutas ninjas. Mas é notório que minguam implacavelmente.

 

Dona Tereza Guarani é uma das últimas velhas da aldeia que conduz os ritos na aldeia Bororó com o rosto enrugado e concentrado, mãos fortes que movimentam o maracá, passos contundentes que provocam o som retumbante no chão de barro. No êxtase que sentimos provocado pelos cantos nos perguntamos como é possível que ainda cantem e dancem e lutem dessa forma?

 

Dona Tereza faz um esforço explícito para que essa cultura Kaiowa se mantenha, pois a grande maioria do seu povo não vê motivo para continuar os ritos. Muitos já não sabem mais como eram as danças e as batidas. A velha india Tereza, a rezadeira, curandeira, a mulher compromissada com os rituais culturais da aldeia, lidera o encargo de dar suporte de memória e sentido aos ritos dos antepassados, e coloca os filhos e netos e amigos para aprender os cantos e as danças antes de morrer. Essa é a função para a qual dedica sua vida. Mesmo seu poder de xamã não a impediu de presenciar muitos suicídios em sua própria família.

 

Apego a vida é um imperativo da dominacão, do exercício de poder – e da inclusão. Quando há coisa mais intensa que o apego a vida, há mídia tática, há resistência, há potência de protesto. Porém o que é que os Kaiowás amam mais do que a sobrevivência? É isto que grita de maneira abafada ainda pelo espaço público da aldeia que é favela que é cidade que é campo: tem alguma coisa que estes indigenas desejam mais do que serem incluídos na pasmaceira da biopolítica globalizada, na miserabilidade da pobreza imposta pela política neoliberal. É uma forma de vida que não se contenta com a sobrevivência miserável do branco ou do índio. Nesse caso pensamos que não se trata de inclusão indígena na sociedade nacional, mas da mobilização da sociedade para a retomada das terras indígenas para colaborar no processo desse outro índio que o próprio índio não sabe e tem que devir.

 

As lutas de movimentos agrários no Brasil se intensificaram ao longo desses últimos 30 anos e cada vez ganham maior visibilidade mundial em função da sua extrema importância. A luta indígena é mais uma das lutas agrárias do pais, a mais antiga, a mais usurpada e dizimada. Seu sucesso recai diretamente sobre a vida pública da civilização, pois é como se ainda tivessemos tempo de não deixar que toda diferença morra. Os processos de homologação e assentamentos estão longe do seu fim e é com muito esforço, tensão e mortes que se efetivam suas realizações.

 

Nosso desafio em gerar uma rede de colaboração capaz de mudar a percepção social sobre pontos enredados da sociedade são urgentes e de grande relevância. Mais do que mudança perceptiva é necessário a ampliação do próprio espectro relacional dos movimentos sociais, para que ganhem possibilidades de agenciamentos diversos. O papel que a mídia tática, greenpeace e CMI (centro de mídia independente) têm exercido nesses contextos são uma abertura para podermos pensar em como grupos autônomos, organizados ou não, podem atuar junto aos movimentos e as lutas sociais (nosso grande espaço público). Ainda são precárias suas atuações, mas sinalizam possibilidades. Para além da denúncia e do apoio é preciso criar programas e projetos que sejam mais incisivos na efetivação de certos projetos políticos dos movimentos da sociedade civil, como é o caso da campanha pró-Guarani que foi lançada em setembro de 2007 e que recém começa a aparecer para a sociedade geral: http://www.campanhaguarani.org.br

 

Essa campanha mídica, ativista, feita na sua maioria por lideranças indígenas Guaranis e apoiados pelo CIMI (Conselho Índígena Missionário) reclama o reconhecimento das 32 terras indígenas do povo Guarani, reclama o desaceleramento do mercado agropecuário na região do Mato Grosso do Sul do Brasil, o reflorestamento das áreas dizimadas, o respeito e reconhecimento de um tempo que não precisa ser igual para todo mundo, mas também reivindicam o acesso ao que tem de relevante dentro da sociedade levando em conta as conquistas da ciência e da tecnologia, etc.

 

Há muito o que pensar na intervenção desses suicídios no imaginário social branco, indígena, mestiço; mas uma coisa é certa: os suicídios aceleraram o processo de luta pela terra e a conquista desse projeto é uma saída para todos nós.

 

Sites de pesquisa:

 

http://www.campanhaguarani.org.br

http://www.midiatatica.info

http://www.rizoma.net

http://hemi.nyu.edu

http://www.midiaindependente.org

 

 

 

Fabiane Borges é psicóloga, meio esquizoanalista, pesquisadora da linguagem da performance e mídia tática, ativista de arte e comunicação.

 

Verenilde Santos é jornalista, indigenista desde os anos 70, foi uma das fundadoras do primeiro jornal a respeito do movimento indígena (PORANTINS) e professora de comunicação social.

 

1 Os índios Guarani estão divididos em três grupos: Guarani-Nhendeva, Guarani-Kaiowá e Guarani-Mbyá. À época da chegada dos europeus, esses indígenas somavam cerca de quatro milhões de pessoas. Atualmente existem cerca de quarenta mil espalhadas pelas regiões do sul e centro oeste do Brasil. No Mato Grosso calcula-se que existam cerca de 27.500, pessoas espalhadas em 22 pequena áreas. Sendo que a aldeia Bororó relatada nesse texto abriga 12 mil índios Guaranis Kaiowas em 3.600 hectares de terra improdutiva e sem mata. Onde existem mais de 90 igrejas entre católicas, evangélicas e espíritas que disputam os indígenas entre si conforme suas crenças e métodos de conversão.

2 O território dos índios Guarani estendia-se ao Norte, até os rios Apa e dourados e ao Sul até a Serra de Maracaju e os afluentes do rio Jejuí, chegando a uma extensão Este-Oeste de aproximadamente 100 km, em ambos os lados da serra de Amambai abarngendo uma extensão de terra de aproximadamente 40 mil km2, dividida pela fronteira Brasil-paraguai.

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