processos imersios, intervenções

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

PROCESSOS IMERSIVOS . INTERVENÇÕES DE ARTE-MÍDIA EM REDES SOCIAIS

por fabiane borges, a catadora de histórias

“ Meu nome é Cassandra, fui incumbida de levar vocês aos Domínios do Demasiado. Coloca no papel seu nome e uma situação considerada de risco para você: _ Situação de risco em mim”.

Foi assim que iniciou a oficina realizada na ocasião da Implantação do projeto piloto: Prevenção das DST/Aids com jovens em situação de rua, em São Paulo – dezembro de 2005. A idéia era fazer interagir instituições que atuam com moradores de rua ligados à prevenção e assistência social e coletivos de arte que atuam com intervenção urbana, na perspectiva de integrar esses circuitos e ampliar perspectivas sobre o espaço/tempo público. Médicos, assistentes sociais, coordenadores de equipamentos públicos e educadores sociais participaram dessa ação de Arte/Saúde que se pretendia para além do espetáculo.

Falamos oficina? Não. Não se tratava de conserto, mas sim da criação de um ambiente de alteridades a partir de elementos de rua, de aparatos multimídicos e de conteúdos corpóreo-subjetivos trazidos pelos participantes, com o intuito de produzir uma espacialidade de reverberação e amplificação de sinais subjacentes à atuação desses trabalhadores a fim de possibilitar inovações em seus jogos habituais com a rua, entre eles mesmos e principalmente em seus/nossos modos de ministrar oficinas “sociais”.

Como guia desse trajeto experimental, Cassandra – a entidade delirante – construiu as etapas de iniciação baseadas em alguns ritos da rua. Enredou os sapatos dos convivas com um elástico grosso criando uma espécie de rede sócio-sola, que virou instalação de arte em uma das paredes do serviço de saúde, onde diariamente pessoas buscam orientações sobre prevenção e realizam testes Anti-HIV. Com os pés no chão os participantes foram convidados a trocarem objetos pessoais. Passaram para segunda sala para pequenos contatos corpóreos. Era preciso provocar a sensação de passagem-distância através de um minúsculo nomadismo. A mudança de espaço promoveria uma singela, porém insinuante desterritorialização, necessária para a imersão que se sucederia: ritus in passagem.

Depois a terceira sala, onde os outros proponentes[1] aguardavam. Estava escuro. As paredes sustentavam 40 metros de lona preta, e muitos outros elementos matéricos arremedados dos cotidianos dos habitantes públicos da urbe e também dos Sem-Tetos e Sem-Terras quando forçados a calçadificação e ao tetrapodismo pela execução de idiossincráticos mandatos judiciais: arames, sacos de lixo, recortes de tecidos, roupas encardidas, pedaços de ferro e plástico. Não era consumismo de ferramentas. Era uma tentativa de intensificar ao máximo os signos utilizados pelo público com o qual todos os presentes trabalhavam. Intensificação das representações da miséria por amplificação e translocamento.

Tanto os sons quanto as imagens provinham da mistura de arquivos previamente captados junto aos moradores de rua e sons captados na hora da intervenção através de câmeras e microfones, injetando no ambiente-instalação repetições, ressonâncias e desestruturações de frases e imagens, que paria uma imersão sonoro-climática-vulnerável. Sexo e gozo audiovisuais entremeavam toda a morte superficialmente suposta.

Parte dos participantes suspendeu nos corpos, através de alfinetes de segurança e arames, 15 metros de tecido branco, que refletiam histórias vividas-catadas nas ruas… Os corpos tornaram-se telas… Que projetavam-se e excediam-se em imagens… Enquanto o som insistia: “situação de risco em mim…” Ser tela, estar sendo rua; elementos rueiros plasmavam-se aos corpos dos técnicos, agora já não tão técnicos assim. Falar de si já não era mais possível, apesar de que tudo o que se falava, os menores suspiros, corroboravam para a criação daquela paisagem sonora densa, através dos amplificadores e softwares.

Uma experiência que se propunha sensibilizar profissionais dos serviços de assistência social, de saúde e das organizações da sociedade civil para a necessidade de tratar de temas como inclusão digital, compartilhamento de conteúdos, softwares livres, produção coletiva de ambiente a partir de suas possibilidades mais abrangentes e potentes. Trazer uma dimensão profunda da experiência dos softwares eletrônicos como dispositivos de aproximação a certas condições existenciais das ruas: dimensão da drogadição, da alcoolização, da excitação, sedução e flerte. Incrível persuasão high-tech-lisérgica. Hipertextualidades, polifonias e, no entanto, o leitmotiv do trabalho sobrevivendo-se: vulnerabilidades e virulências de rua. A idéia não era imitar a ambiência de rua, nem transformar momentaneamente as pessoas em moradores de rua, mas agigantar os sentidos da vida de rua, agigantar seus gestos, suas performances, transpor suas imagens para o próprio corpo de quem com a rua trabalha, aumentar o foco-rua, ativar imaginários e fazer copular signos.

Esse espaço/tempo produzido artificialmente portou-se como uma bolha de exposição parecia um recorte urbano excessivo e límbico, abusivamente hermético onde liberdade e poder sustentavam-se em conflito. Não foram propostas comoventes harmonias, nem sequer um clima amigável de trocas sofridas de trabalhadores impotentes que lidam com realidades tristes. Estamos fartos de oficinas solidárias, onde todos se envolvem num clima de trocas sentimentais, e não mudam em nada suas práticas humanistas-higiênicas-sanitárias. Também estamos fartos dos teatrinhos das representações que só sabem operar com uma consciência egóica, lógica e ineficiente, que busca um consenso coletivo idealizado que não representa o desejo de ninguém.

Sim! Nosso pequeníssimo revide. Mórbida vingancinha às paralisias perceptivas. Um devir Medéia singelo que não mata ninguém senão, as obviedades das lógicas trabalhadoras. Discursos em risco social. Da frase articulada, sobrava a palavra solitária despregada do seu contexto repetindo-se à exaustão, até formar por si mesma um hermetismo imersivo. Repetição abusiva adentrando a obliqüidade auditiva e transignificando-se em seus sentidos.

O desarrazoado da rua incorporando aos poucos, os corpos dos participantes da intervenção-imersão. O que isso provoca? Desconforto, ruptura com os modelos tradicionais e acolhedores de se fazer oficinas para falar sobre si, para continuar compreendendo o mundo a partir da própria realidade, coloca cara-a-cara a alteridade, a estranheza intrínseca à rua, uma estranheza da qual não nos aproximamos nem de soslaio, nem por imaginação, por estarmos com a visão demasiadamente viciada em paradigmas evolucionistas e incapazes de perceber os movimentos existentes na aparente morte produzida pela miséria. Essa estranheza existe, pulsa, reclama outras formas de combinação, para além da clínica tradicional, para além da escuta e do olhar ordeiro e progressista.

Conforme a imersão foi se desdobrando mais se evidenciava o abismo existente entre o circuito da arte e dos serviços sociais… Um diálogo truncado e esquivo. A experiência se mostrava radical tanto para os artistas como para os técnicos participantes do rito high-low-tech. Ambos imergiram em uma vivência sensível e dolorosa que explicitava a incomunicabilidade das coisas que existem. Certamente nós, proponentes da oficina-instalação não detínhamos saber sobre os corpos participantes, nem sobre os nossos próprios. Tínhamos talvez um intento: o desejo de comunicar para além das falas viciadas e introduzir um estímulo à amplificação e valorização de algumas vozes e gestos produzidos ininterruptamente nos espaços públicos da rua ordinária pelos que há habitam, assiduamente ignoradas, como se a vida de rua fosse o ponto final da experiência e não tivesse potência alguma de promover gestos ontológicos e políticos, ainda que não compreendidos.

Para sair dessa sala instalada era preciso desamarrar uma imensa rede de sapatos atados. Cada saída, uma destruição. A confusão de Cassandra tóia e trolha intensificava o ambiente, contagiando tudo com sua ópera-vidêntica, provocando expansões, propagações, ocupações, compartilhamentos, antropofagias e povoamentos.

Texto:

Fabiane Borges é mestre em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade, PUC.SP Professora de comunicação social e jornalismo da Faculdade UNICESP. DF.

Ângela Donini é doutoranda em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade, PUC-SP.


[1] Artistas e psicólogos envolvidos na oficina: Alessandra Galasso (Tzzzááá´ – Pano Branco), Eduardo Loureiro (Bijari – VJ), Giuliano Obici (Oráculo Tecnológico – Programação de som), Rafael Adaime (Catadores de Histórias – Captação de imagens) Fabiane Borges (Catadores de histórias – Performance Cassandra).

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