psicologia in process

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Psicologia in Process

Utilizo algumas articulações que considero importantes para a noção de uma psicologia em processo: Corpo sem órgãos, Poder constituinte e Crueldade, os três conceitos fundamentados, respectivamente, por Artaud e Deleuze – Toni Negri – Artaud e Nietzsche.

O texto de Artaud: “Para acabar com o julgamento de Deus”, nos coloca diante de uma visão quase alucinógena sobre opções terríveis da humanidade; ele fala da escolha do homem pela civilidade e do preço que paga para se tornar homem: seu afastamento das forças naturais, do instinto, das infinitas possibilidades de construção que ele deixa para traz para optar pelo “Homem Civilizado”. Nesse texto escrito “com sangue”, Artaud fala de órgãos organizados, instinto organizado, culpa, dívida, inebriação moral, excesso de consciência, etc, e propõe com um grito desesperado a desorganização dos órgãos, a fluidez dos impulsos e instintos, usando para isso sua experiência com tribos indígenas[1], seu nomadismo e suas aventuras e desventuras na vida.

Deleuze vai “fazer filho” nesse conceito de Artaud “Corpo sem órgãos”, colocando-o como puro plano de imanência, plano de consistência, o plano dos órgãos destituídos de organicidade, de institucionalidade, de elaboração racional-civilizatória. O plano de imanência está ligado ao desejo em sua força natural e instintiva, ao caos propriamente dito, repleto de linhas e fluxos que pode levar-nos à produção criativa de modos de existência mais livres e intensos, nos colocando em contato com outros modos de perceber e viver o tempo, bem diferente do tempo contemporâneo ditado pela mídia e pelo consumo, mas também pode nos levar à loucura e a morte. O plano de imanência não é algo a ser atingido, ele é como a idéia de Hannah Arendt sobre a luta pela liberdade, ela fala no “ser já livre[2], se não fosse este plano, as sociedades não mudariam nunca, mas elas mudam, talvez com menos fluidez do que gostariam os espíritos mais livres, mas a questão é que os planos estratificados, endurecidos, os planos de organização, sejam mentais, governamentais ou naturais, apresentam sempre uma face voltada para este corpo sem órgãos que joga com a força da vontade absoluta da natureza contra as calcificações provocada pelos órgãos institucionalizados, entre eles: poder jurídico, leis governamentais, ditaduras nacionais e internacionais, identidades fixas, imagens estáticas, vontade de progresso, diagnósticos, psicopatologias, casamentos eternos, sexualidade definida, etc…

Isso tudo nos remete ao conceito desenvolvido por Toni Negri: “Poder constituinte”, que é a constatação que a multidão tem capacidade de fazer história, mesmo que isso tenha sido negligenciado por grande parte dos historiadores, que atribuem a noção de “evolução histórica” (olha Darwin aí) a um grupo de líderes, imperadores, estadistas que fazem do povo massa de manobra. Toni Negri vai trabalhar muito com a perspectiva de que o intolerável é sempre sentido por grande parte das populações e que elas conseguem reverter muitas linhas endurecidas com cheiro de eternidade, nos organismos. Para ele, o poder constituinte é a revolução propriamente dita, que não necessariamente se dá nos momentos de guerras do povo ou da burguesia contra os Estados e Czares, como foi o caso da revolução francesa e a revolução russa, mas ela é constante e ultrapassa as datas históricas, as determinações fixas, ou seja, a revolução comunista continua acontecendo, apesar da queda do muro de Berlim e a vitória do capitalismo, pois ela funciona por contágio; o que tornou ela possível não foram somente determinações históricas do início do século XX, mas o poder que a multidão tem de agir e transformar. Somos todos franceses e russos, pois as revoluções são inoculatórias, profícuas e demonstram a força de transformação que tem o “povo”, seja com armas, sem armas, com muros ou sem muros. O poder constituinte é o corpo sem órgãos. Eu explico: O que leva uma multidão a se juntar, (e que fique bem claro que cada um de nós já é uma multidão), é o desejo de comunidade, a vontade ontológica e ancestral de mudarmos coletivamente a vida que nos é imposta, e o ajuntamento se dá por essa premência, essa urgência que carregamos de sermos mais livres, ou simplesmente forjarmos uma saída. O poder de uma multidão que se junta, está muito além da idéia de contraposição, ou antítese, advinda da dialética hegeliana, ela é imanente e desejante, produz comunidade, é essencialmente proliferante e criativa. Essa força, logo é cooptada pelos sistemas burocráticos do poder instituído (governos, intelectuais, líderes, leis, poderes jurídicos), no entanto ela não se extingue, ela traz em si o germe da própria mudança. Isso acontece no cosmos, na terra, num corpo social, num corpo individual, é uma luta constante de forças ativas, reativas, sedimentárias, criativas, suicidas que estão sempre em tensão. Por isso é tão complicado pensar numa democracia real, pois a democracia pressupõe uma normatização das decisões coletivas, enquanto que a normatização é a morte das forças da multidão, pois esta é heterogênea, inconstante e fluida, só é possível pensar numa democracia real quando se pressupõe que ela esteja em contato direto com estas forças constituintes e transformadoras, ou seja, essa normalização tem que estar operando sua própria transformação ininterruptamente. Mas isso é uma utopia! _ Diz alguém, apavorado. _Não! Isso é uma possibilidade, diz Toni Negri. Possibilidade terrivelmente cruel.

E o que é crueldade?

“Uso a palavra crueldade no sentido de apetite de vida, de rigor cósmico e de necessidade implacável, no sentido gnóstico de turbilhão de vida que devora as trevas, no sentido da dor fora de cuja necessidade ilutável a vida não consegue se manter”.

Antonin Artaud,

Artaud usou a palavra crueldade para o teatro, “O teatro da crueldade”; mas sabemos que para ele, o teatro é a própria vida em toda sua potência, porque sua intenção é exatamente romper com a idéia de representação que a arte assumiu ao longo dos séculos. Se forçarmos um diálogo entre Artaud e Nietzsche, seríamos tentados dizer que os dois lamentam a morte da tragédia: “Não haverá um só gesto de teatro que não carregará atrás de si toda a fatalidade da vida e os misteriosos encontros dos sonhos”, diz Artaud, enquanto Nietzsche diz sobre a tragédia dionisíaca: “Seu efeito mais imediato, é que o estado e a sociedade, sobretudo o abismo entre um homem e outro, dão lugar a um superpotente sentimento de unidade que reconduz aí ao coração da natureza[3] . Crueldade é esta veemência diante da vida, que cria, ama, odeia, com toda sua fúria e vontade, repudiando a tradição platônica de assumir um papel de busca da perfeição, em detrimento de todos os instintos e impulsos do corpo. Crueldade é a expressão da vida pura, que não nega a si mesma, levando-nos e perceber que a busca dos ideais platônicos, dos votos cristãos e das formulações das leis e do Estado, tem como conseqüência a negação do homem natural, do homem trágico, da crueldade: “Quase tudo a que chamamos “cultura superior” é baseado na espiritualização da crueldade _ Eis minha tese: Esse animal selvagem não foi abatido absolutamente, ele vive e prospera, ele apenas se divinizou.” (NIETZSCHE,1992b, p.135). A espiritualização da crueldade é a invenção da consciência e da interioridade. Quando se criam leis a respeito de como se deve usar o corpo, a linguagem, o pensamento, quando se formam doutrinas sobre a sexualidade e o desejo, então se suprime a força da natureza no homem, troca-se a barbárie pela civilização, espiritualiza-se a vontade de potência no humano e nesse momento origina-se a má consciência, que se manifesta através da culpa, da dívida, da falta de liberdade e da perversidade.

O Corpo sem órgãos, o poder constituinte, a crueldade: Tudo se dá num mesmo nível de forças desejantes, pré-lógicas, pré-visuais, atrás do raciocino, não pressupõe progresso, nem ideais, é o “instante-já” como diz Clarice Lispector. É o processo.

Esses conceitos tomam forma vivificadora quando encarnados no mito de Medéia.

Medéia, bárbara, neta do sol, feiticeira da Cólquida, ao encontrar Jasão, apaixona-se por ele e por tudo que ele representa: a civilização grega. Tornar-se um cidadão grego significa tomar parte da sociedade mais evoluída que se tem conhecimento, a mais desenvolvida, a que criou a filosofia. Na Cólquida, provavelmente ouvia-se falar muito nas cidades gregas, na política grega, no teatro e nos mitos. Medeia desejou profundamente abandonar sua condição de bárbara para se tornar uma cidadã civilizada. Para isso, fugiu com Jazão, lutou contra o exército do seu próprio país, matou seu próprio irmão, usou seus conhecimentos mágicos para tornar Jazão um herói, e foi embora com ele para a Grécia, residindo por fim em Corinto. A estrangeira teve dois filhos com Jazão, com o qual não tinha casado, mas morava junto, no entanto, depois de certo tempo, Jazão ficou noivo da princesa Glauce, prevendo assumir o trono do tirano Creonte após sua morte, propondo que Medeia se tornasse uma subalterna, talvez uma concubina. Medeia, não suporta essa afronta, essa falta de reconhecimento de sua origem divina, de seu poder bárbaro, de sua habilidade com as forças ctônicas, e faz a resolução terrível, que a torna a encarnação da crueldade : mata a princesa – noiva de Jazão, mata o Rei – pai da noiva, mata seus dois filhos com Jazão e foge num carro de fogo, mandado por seu avô _ o Sol _ que aqui já não representa o deus grego Apolo, mas um deus bárbaro e foge, destruindo a honra de Jazão, que implora para morrer, mas ela não o mata, deixando-o vivo para que chafurdasse na própria desgraça. “Em face de Jazão, na busca da hegemonia real e da instauração de uma ordem. Medeia é a imagem do caos (…)” [4].

Nesse ato, demasiadamente cruel, Medéia destrói, não somente a honra de um homem que ela amava, mas enfrenta a estrutura social da Grécia inteira, seus mais caros valores. Ela destrói o casamento, a família, o governo, o herói. Ideais caríssimos à civilização grega, eu diria até, o fundamento absoluto de sua noção de civilização.

Essa força bárbara de Medeia é a crueldade propriamente dita. Ela a bárbara; Ela a cruel, Ela a força ctônica, Ela o corpo sem órgãos, Ela o poder constituinte, Ela a trágica, Ela o instante-já, Ela o levante, Ela a revolução.

O que sobra depois de Medeia? A constatação de que a não se pode negar, rejeitar, afrontar, coibir, segmentarizar, ignorar as forças… as forças…


[1] tarahumaras: índios mexicanos. cf. livro Os Tarahumaras, de Antonin Artaud

[2] H., Arendt, on revolution, p.37

[3] Nascimento da tragédia aforismo 7 pag. 55

[4] Cfe. Dicionários de mitos literários. Pierre Brunel. Ed. UnB /José Olimpo. Rio de Janeiro, 1998. Medeia. P. 614.

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