resumo da minha dissertação

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized | Tags:, , , , , , , , , , |

 

Resumo da Dissertação de Mestrado: “Domínios do Demasiados” realizada no mestrado de Psicologia Clínica na PUC. SP, sob a orientação de Peter Pál Pelbárt e Suely Rolnik de 2004-2006. Apresentação para a banca examinadora do doutorado de Comunicação, Mídias e Estéticas da Escola de Comunicação da UFRJ, 2007.

 

Autora: Fabiane Moraes Borges

 

 

Resumo:

 

Digressões sobre as manifestações políticas da contemporaneidade a partir das suas manifestações estéticas, suas novas formas de organização e suas inovações no campo da comunicação e ação.

 

Apresentação:

 

A dissertação se compõe de duas linhas principais, cada qual com seu próprio mote conceitual, seu filão filosófico e artístico. Começa fazendo um recorte cuidadoso no universo dos moradores de rua, o que chamo de Domínios do Demasiado por causa de um conto do Guimarães Rosa, A Benfazeja, das primeiras Histórias, onde o autor fala de uma personagem que ele próprio descreve como mulambenta, pobre de si, misericordiada, feia feito tonta e ainda não arrependida de um crime que ela cometeu contra seu próprio marido. No final do conto ele coloca ela como habitante dos Domínios do Demasiado, ou simplesmente pergunta se ninguém suspeitou que toda sua miséria, imundície e não adaptação aos prescritos de convivência social fosse um jogo de expressões que esconderiam sua força de insistência e resistência que proveria desse lugar demasiado, que está aquém ou além dos estados ordinários de visibilidade e interpretação?

 

Sim, como se focasse a personagem em seus gestos minuciosos, repetitivos, insistentes, minimalistas e o amplificasse a ponto de notarmos que habita outra dimensão de existência, que não somente a do preconceito do olho que a assiste, mas uma outra dimensão, um tanto límbica, morosa, onde é possível notar sua monstruosidade estática e as vezes extática… Os espaços becketinianos… Como não associar Mula Marmela de Guimarães e os personagens de Becket? Como deixar de comparar seus domínios sombrios meio dentro e fora do tempo, com tão recatada velocidade?

 

Não se trata de pensar esses domínios do demasiado como espaço de velocidade comparável com a de qualquer outro lugar da cidade. Nem com a inexistência da velocidade, que seria a grosso modo, nossa interpretação comum da morte; mas redimensionar esse “espaço beetwin” entre uma produção de experiência e de subjetividade e uma aparente letargia ou amorfia diante da vida.

 

As construções teóricas sobre o Butô construídas por Hijikata, Kazu ono e Mishima são muito relevantes para pensar esse corpo quase-morto, esse corpo cansado do morador de rua calçadificado pelo excesso de cimento e calçada, desses paralelepípedos que lhe servem de mesa e travesseiro e dessas incessantes perdas territoriais, afetivas, orgânicas que sofre nas ruas. O corpo morto que subsidiou grande parte da dança butô, por ocasião dos efeitos da bomba lançada contra Hiroshima e Nagazaki residia numa afirmação da própria vida. A morte continua a vida na medida em que se replica e não paralisa o movimento.

 

Pensar o gesto dos moradores de rua como corpo morto é muito comum, porque é um corpo fora de espaço, fora de tempo e no lugar errado. Mas pensá-lo a partir do ponto de vista do próprio movimento, é focalizar diretamente sua aparente letargia a fim de amplificar seu minimalismo e atentar para o algo que se mexe nele, algo dele e muito além dele, algo meu e seu, algo do mundo, antes de nós… Isso é olhar o gesto com a carga do butô para além da arquitetura do palco italiano.

 

Depois proponho mais um aliado para pensar o morador de rua, que é o bodymodificator, que introduz pelos motivos que sejam, pedaços de cidade e ciência em seus corpos para transformá-los em outras sensibilidades, em outros modos de estar no mundo. Com os moradores de rua a modificação corporal é um fato, algo muito semelhante com as modificações produzidas pelos bodymodificators acontece, só que essas modificações dá rua se dão de forma menos refletida, mais dramática e até autoritária pois são os materiais de convívio que vez por outra vai perfurar o corpo, flagelá-lo, escarificá-lo, nem que seja de tanto coçar sarna com pedaço de arame enferrujado, os cacetetes da polícia também são grandes operadores de modificação corporal, rápidos e eficientes, se bem que há uns outros artifícios bem menos velozes que podem ser ainda mais cruéis, como o ladrilho duro que tetrapodiza o homem.

 

Colocando então o morador de rua em encontro com essas instâncias, a da literatura, a da dança e a da modificação corporal, me preparo para a forclusão ou simplesmente uma composição de estilo, ao imprimir mais uma “qualidade” a esse homem sem qualidades, que é o de um criador, de um performer. Porque seria ele um performer? Ele o morador de rua, sem nome? Esquisito, transformado na figura de escárnio na qual todos depositam seu terror, sua ameaça, a grande ameaça sacrificada no espaço público da cidade servindo como extrato do terror e alimentando o medo de qualquer talento andarilho e sem muitas negociações com o mercado?

 

Não que haja algum malfeitor diretamente interessado em colocá-los em exposição pública, muito pelo contrário, os projetos sociais e assistenciais tendem a retirá-los do espaço urbano e escondê-los nos assim chamados albergues, prisões, espaços de regeneração, que são matadouros, verdadeiras aberrações, segundo meu julgamento e caráter. A megamáquina atingiu o estatuto da autoprogressão e realiza automaticamente suas tarefas sacrificiais para que se destranquem os caminhos do desenvolvimento.

 

Esse performer de rua ganha conotação de instalação estética e performática, visual e plástica, por cumprir com um papel, poderíamos chamar de destino, que é a demonstração pública dos efeitos ascendentes e os ideais de evolução; os efeitos colaterais da ordem e do progresso.

 

Subliminarmente existe no texto a contraposição do discurso inconcluso, irrefletido, inconsciente e insistente do morador de rua ao discurso da lógica ascendente e evolucionista promovida por toda uma rede de pensadores metafísicos e cívicos do ocidente, brilhantemente expostos nas teorias de Platão.

 

Traz a tona o morador de rua como o desafeto de uma certa tradição da filosofia (talvez haja algo de cínico nessa imagem do morador de rua, desafeto e perfomer do que é negado pela tradição ocidental), o que não aceitou ou simplesmente não deu conta de atender as demandas platônicas de operacionalizar o raciocínio de modo a retirar o pobre homem do mundo das sombras. Ele o habitante das sombras permanecendo na caverna por despeito ou resistência. A caverna já exposta como calçada pública, mas mesmo assim insistindo na aura abismal como é vista pelas lentes de platão, nossa óptica, nossa semiótica.

 

Daí a fala menor atribuída por Deleuze e Guattari aos personagens kafkinianos. A língua menor, o monstro tornado personagem, humanizado e elevado a uma potência de interação, expressão e ambivalência. Não um idealista revolucionário que sobrepõe aos modos de relação e funcionamento da máquina de sobrevivência, seu idealismo da nova civilização, mas simplesmente a amplificação daquele que preferiria não fazer isso ou aquilo.

 

Esse Baterbly mendigo e resistente instalado na metrópole servindo de signo de escárnio, de bode sacrificial mas também de resistência. Esse acéfalo do pensamento, amnésico na memória, afásico na linguagem, agnóstico na sensibilidade (Deleuze, Diferença e Repetição – 1998) promovendo resistência?

 

A resistência estaria justamente na inabilidade de tratar os assuntos de homens, do pensamento, deixando a história para a polícia e se refugiando na fuga, mesmo que sua fuga seja a exposição negativa (como no negativo do filme de uma foto) da imagem dos homens.

 

Depois dessa deriva é que começo a dialogar diretamente com a performance, me aproximando de um dos grandes encenadores da performance brasileira, Renato Cohen, que muito contribuiu na conexão entre estados de performance e os assim considerados estados de exceção.

 

Renato Cohen vai acolher o louco em suas experiências estéticas e implantar um imaginário novo na sua produção artística. Ele o louco ela a performance misturados por disritmias producentes de novas corporeidades, sensibilidades e manifestações sígnicas.

 

O morador de rua, o louco, a tela sobre a qual são impressas todos os medos dos homens, nos espetáculos de Renato Cohen, pelo menos em alguns deles, são amplificados a ponto de transformarem-se a si próprios, exatamente pela amplificação dos seus sinais fracos, sinais fracos porque desconsiderados pelo público votante ou pela sociedade nacional, inválidos de voz e razão. A abertura para essa outra forma de comunicabilidade possível, abre-nos o desejo de continuar seu trabalho, sua pesquisa ampliando os modos de comunicação e introduzindo a tecnologia como instrumento importante de replicação e subjetivação, sem abandonar nossa pesquisa estética.

 

Performances submidiáticas e públicas;

 

Nesse ponto é que proponho uma série de eventos que conecta moradores de rua e coletivos de intervenção artística e mídica. Os trabalhos foram desenvolvidos em parceria com outros coletivos e foram feitos, cada um em um local diferente, mas todos produzidos nessas zonas límbicas, onde moram moradores de rua, seja na rua mesmo, ou em albergues e casas assistenciais.

 

Esses projetos se mostraram parcialmente eficientes. Parcialmente porque nem de longe conseguiram determinar objetivos concretos, ou simplesmente produzir demanda política entre os moradores de rua, mas ainda assim eficiente por refletir que instrumentos assim disponibilizados e incentivados em lugares de exceção, ganha uma importante e radical dimensão de intervenção, e a rapidez com que são incorporados por esses grupos, demonstra que ainda não criamos óculos de aumento o suficiente para escutar isso que poderíamos chamar, a título de provocação mas também de conclusão, de um estranho movimento social.

 

Colocar essa linguagem menor, prostituída, louca, mendiga como um movimento social é sustentar um paradoxo não necessariamente sustentável. É contrapor o paradigma da razão ao da desrazão, e dizê-los comparsas, e ainda mais, é inscrever, ou pelo menos tentar, a fala desarrrazoada nos códigos dos planos de composição da sociedade, não para que seja somente admitido e esquadrinhado, mas que seja ele mesmo o rasgo do véu de maia, a descarga das toxinas implantadas pela língua de sócrates, a renovação de certos códigos nacionais.

 

Daí as inconclusões de um tema tão antigo: Quem é o mendigo? A alteridade, o outro que geneticamente insiste como modo de expressão no campo da ontologia. A criação de visibilidade e amplificação não seriam suficientes para pensá-lo. Ele não diz nada, talvez nem queira, não é de voz que se trata aqui, nem de mendigo identitário, é da longa mendicância há que todos estamos submetidos, principalmente nesses tempos de sujeito-projeto, que somos empurrados a produzir ininterruptamente feito moiras e escravas, os passinhos do destino. Essa mendicância que é sujeito sacrificado e ao mesmo tempo resistente à certos modos de vida aplicados. A grande evolução tropeçando na pedra do moribundo, ele próprio pedra, instalado na calçada pública da metrópole e da existência.

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