rosa mitô

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

ROSA MITÔ – ATIVISMOS, MILITÂNCIAS E IMERSÕES DE UM CERTO INDIGENISMO.



Por Fabiane Borges e Verenilde Santos



É difícil dimensionar o momento onde o mito instala sua complexidade, sua força, seus mistérios sua renovação. Enfim, o que o constitui ou explica. Essa foi uma das inquietações que permearam a conversa com Rosa Maria Monteiro, indigenista gaúcha. Na década de 70 quando os massacres contra os povos indígenas feitos pelas frentes desenvolvimentistas apoiados pela ditadura militar permaneciam velados, apesar de abundantes, e quando pesquisadores buscavam interpretações para a fecunda mitologia dos povos indígenas, ela própria foi denominada pelos Kulinas como Mito (se pronuncia mitô).


Através dela é possível traçar o perfil de pessoas, e mais curioso ainda quando se pensa especificamente em mulheres, que permanecem anônimas mas que tiveram uma ação política determinante para a continuação da existência dos cerca dos 230 grupos indígenas do Brasil, além dos cerca de trinta grupos que vivem isolados.


Foi nesse contexto político que jovens como Rosa Mitô foram atuar, largando suas casas, cidades e famílias para se aventurarem, mochila nas costas, por entre rios, florestas, aldeias, algumas já em processo de dizimação. Para além dessas problemáticas macroestruturais haviam ainda os planos microestruturais, micropolíticos, com os quais esses jovens indigenistas tinham que lidar. Se os militantes de esquerda dos anos 60/70 que atuavam no espaço urbano ou no campo enfrentavam dificuldades específicas, os militantes do movimento indígena tinham como agravante o fato de terem como espaço de ação política, universos sociais radicalmente estranhos aos seus, e de alguma forma necessitavam imergir nesses universos de forma a compreendê-lo, experienciá-lo, apreendê-lo.


Para muitos esquerdistas dessas décadas coisas como espaço, tempo, origem da vida, especulações simbólicas sobre a morte eram assuntos secundários, mas para sujeitos como Rosa Mitô, imergir nessas grandes questões era condição imprescindível para sua militância cotidiana; isso vai mais longe ainda se pensarmos que cada etnia possui sua própria rede de relações, crenças, ritos e mitos e que esses indigenistas atuavam em diferentes grupos indígenas ao longo da vida. Este é o ponto onde se instala a peculiaridade de um certo movimento indigenista. Para adentrar e militar dentro desses universos de tão diferentes cosmogonias, era necessário um intenso despojamento subjetivo; mais do que isso, era necessário a entrega à cultura do outro, como forma de ativismo e sobrevivência, ao mesmo tempo. Esse mergulho cultural era chamado por alguns grupos de “incorporação ou encarnação”, por outros de “fusão de horizontes”.


Não são poucas as histórias de indigenistas que passaram por profundos conflitos pessoais a ponto de ultrapassarem os limites desse despojamento e adentrarem em territórios subjetivos extremos, onde nem sempre era possível sustentar a tensão provocada pela mistura de memórias, afetividades, sexualidades, historicidades indígenas e não indígenas. Sensações sobrepostas provocadas por semióticas distintas mas operantes e decisivas.


Aliás, como se justificaria nos parâmetros éticos da esquerda radical ou teologia da libertação dos idos 70, que um ativista homoafetivo tenha se apaixonado pelo pajé da aldeia que foi ajudar a preservar, e assim tenha enfrentado a mais árdua luta afetiva de sua vida misturada a luta por demarcação, completamente isolado e sofrendo preconceito de todos lados, colegas, igreja, indígenas? Ou que um padre jesuíta não apenas tenha casado e tido filhos com uma indígena mas que em plena cidade se despisse e andasse nu como na aldeia, sendo chamado por todos de demente? Ou que uma ativista bela e jovem do sul se casasse com um velho pajé do norte e o matasse numa tentativa de curá-lo de uma hérnia, acreditando em sua própria força de curandeira?


Na década de 70 após ficar três anos junto aos Pareci no norte do Mato Grosso, a jovem Rosa Maria Monteiro (Mitô) se dirigiu ao mundo dos índios Kulina que vivem no médio Juruá (Acre). Os Kulinas se autodenominam Madijá, o que significa povo, gente. De início, Mitô teria que significar (o que não quer dizer uma mera tradução) o que representava, para os Kulinas, a perda do território para as frentes de madeireiros, fazendeiros, seringueiros e latifundiários que adentravam indiscriminadamente os territórios indígenas; e ainda com o apoio das autoridades e instituições oficiais.


A indigenista não só aprendeu a língua dos Madijá, como passou por um processo de “esquecimento” quando já não falava o português. Conta que por longo período o estranhamento ocorria quando era chamada pelo nome de batismo, Rosa Maria e não como Mitô. Às vezes, quando longe da aldeia alguém a chamava pelo nome de “branca”, o impacto era inevitável. Era ouvir e praticamente desconhecer tal identificação. Foi com o nome Mitô que ela saía campo a fora com os Kulinas “traçando o rumo no próprio chão”, para demarcar seus territórios sem a utilização de aparatos tecnológicos, mas sim de forma rudimentar que consistia em colocação de placas identificatórias feitas de madeira nos limites dos territórios considerados seus, em função de memórias, posições do sol na montanha, pinturas rupestres, histórias míticas, elementos deixados em algum lugar por antepassados, ruídos e ecos… Quem de alguma forma acompanhou sua trajetória afirma que ela acompanhava os Kulina nesse processo, mas algumas vezes era ela própria quem tomava a frente das demarcações de terras que sequer constavam na cartografia oficial do país. Mesmo com a posterior utilização de instrumentos como a bússola, a atividade necessitava além do esforço físico em condições precárias da Amazônia (a fome, os mosquitos, a malária, a guerra armada com o garimpo) uma determinação incondicional e a crença de que era possível evitar mais um etnocídio e possivelmente genocídio que já estavam se concretizando.


Todo esse movimento das autodemarcações culminaram na demarcação definitiva do território Kulina, reconhecida pelo governo federal em 1991, que lhes deu o direito a uma área de 770 mil hectares de terra. Há que se dizer que esse movimento das autodemarcações que estavam acontecendo em muitas partes do Brasil foi importantíssimo para muitos grupos indígenas, que passaram a se impor mais diante da sociedade nacional e serem por isso mesmo mais respeitados politica e juridicamente; apesar da luta estar longe de acabar.


    Nos últimos anos tornou-se necessário ampliar as noções sobre Demarcação da terra para além da noção de territorialidade geográfica, devido a profusão de conteúdos novos que surgiram no panorama político social econômico, ou seja, as novas modalidades de espacialidades com as quais o capital faz frente na atribuição de valor; são os espaços virtuais, comunicacionais, de acessibilidades e trocas. Insistir somente num tipo de espacialidade é alijar o indígena, assim como os sem terras e outros movimentos agrários das possibilidades de espaço, inclusive o aéreo, exatamente encima de suas cabeças, que é tão pouco discutido nos encontros indígenas: o direito a comunicação, a produção de seus próprios meios de informação assim como de seus próprios conteúdos, suas redes de trocas, sua economia, criação da sua própria energia através de ondas do ar, luz, água, plantas, árvores, etc.

    Mas é muito tenso discutir tudo isso, exatamente pela problemática existente entre propriedade industrial e direitos de minorias tradicionais. Como garantir a sobrevivência e o território de um grupo étnico sem defender as leis da propriedade industrial nos moldes em que ela se manifesta hoje, principalmente depois dos acordos da OMC? Como pensar esses paradoxos entre as espacialidades e temporalidades indígenas e não indígenas de forma a concatenar essas diferenças abismais salvaguardando suas especificidades e universalizando seus conteúdos? Que semelhanças esse indigenismo imersivo teriam com as práticas ativistas e militantes dessa virada de século? Como pensar a ritualização dos processos cotidianos da cidade como forma de incorporar minimamente a influência indígena em nossa vida, para além de garantir-lhes terra? Que importância teria para o mundo a garantia de um modo de vida como as dos Kulina?

    Falando em Kulina, lembremos de novo de Rosa Mitô, que deu sua vida pela causa indígena, e outros como ela, pobres que são e sem terras, apesar de ricos em experiência de vida e orgulhosos de terem colaborado na conquista dos direitos indígenas. Saudemos eles, vez por outra, como quem para um segundo no dia pra sentir a infinitude desses atos anônimos, que “inscreveram o destino a facão”, abrindo passagem no mato, desprezando o ouro, a guerra pelo ouro, a sedução do ouro que assentava-se debaixo do chão que demarcavam. EIA!




Verenilde Santos Pereira jornalista, indigenista (ex membro da OPAN e do CIMI)

Fabiane Borges pesquisadora, esquizoanalista, ensaísta, ( do Catadores de Histórias)

 

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