sobre o despejo da ocupação plínio ramos

Posted on janeiro 25, 2008. Filed under: Uncategorized |

Ocupações e Despejos como Performances públicas e ontológicas:

Por Fabiane Borges

No dia 08 de agosto de 2005 houve um ato da FLM (Frente de Luta por Moradia – que junta grande parte dos movimentos de moradia em São Paulo), em frente ao Fórum de Justiça João Mendes. A reivindicação era relativa ao mandato de reintegração de posse contra a Ocupação Plínio Ramos e à falta de propostas alternativas por parte do governo, para as pessoas que seriam despejadas. A demanda era uma conversa pública com o juiz da 25º Vara, que foi quem assinou o mandato, mas o encontro foi negado.

As ações decorrentes desse ato reivindicatório evidencia-nos de forma clara as novas expressões estéticas produzidas nas reivindicações políticas e públicas, que se intensificaram nesse início do século XXI no mundo inteiro. Em São Paulo, essas novas expressões ganharam um toque singular devido as parcerias construídas entre coletivos de arte e movimentos sociais, que até pouco tempo atrás eram sim dois seguimentos distintos e distantes de resistência. Não estou falando que seja alguma grande novidade o engajamento de artistas de vanguarda nas agendas das organizações políticas dos movimentos sociais, o que todos sabemos; mas penso ser necessário fazer um recorte específico dessa parceria para que não passe desapercebido as nuances delicadas, combativas, mas acima de tudo, criativas desse encontro. Dessa forma é possível compreender como conceitos e práticas de um dos seguimentos entra no outro, como despejo vira performance, como corpo jogado na calçada do despejo vira tatuagem concreta e como artes plásticas vira proteção anti-bomba. Confesso meu flerte com os estudos da Performance para pensar isso tudo, que para além das criações estéticas, caracteriza-se também como dispositivo de investigação e análise das expressões sígnicas, visuais e discursivas ocorridas numa manifestação social.

Uma semana depois desse ato coletivo em frente ao Fórum, a ocupação Plínio Ramos do MMRC ( Movimento Moradia Região Central) sofreu o despejo. Foi uma experiência radical para todos os grupos de apoiadores, colaboradores e coletivos de arte que acompanharam o processo, devido à violência policial, o estado de exceção e o descaso do governo com os moradores.

O Despejo:

Despejos forçados são confrontos de forças que acontecem num determinado tempo-espaço que foge absolutamente do tempo-espaço determinado. Essas minúsculas guerras são capazes de produzir atualizações imemoráveis: no embate das forças os hormônios copulam; uma estranha euforia invade os corpos; os gestos e gritos emitidos pelas hordas combatentes evocam inimagináveis devires. A boca arreganhada, a vontade inabalável, a disposição de viver e morrer a um só tempo. O clima absolutamente extra-ordinário que percorre as veias já dilatadas, o coração pulsante…

Era dia de despejo – dia da manifestação idiossincrática do poder – dia de atualizar o confronto já sabido e, no entanto, sempre novo… Ritornelo escandaloso… Atualização de memórias minguadas realizadas nos terrenos públicos da cidade qualquer… Os cães magros desprovidos de direito combatendo os cães de guarda dos impérios.

Os jornalistas, os estudantes, os advogados, as assistentes sociais, o judiciário… Todas essas presenças não foram suficientes para impedir a retirada do povo-do-prédio. O sem-teto soldava as portas da ocupação, para dificultar a entrada e a saída de quem quer que fosse, os jovens contavam bravatas na sala dos fundos, as mulheres faziam café, eu pintava as crianças de preto-índio. Fazia riscos nas caras das crianças como um diminuto gesto performático que sustentasse imaginários longínquos. Por volta das 5 horas da manhã, mães levavam filhos aos banheiros para retirar as listas de tintas das caras, porque a hora do confronto se aproximava, a resistência se daria e os gases lacrimogêneos expelidos pelos mandatos jurídicos seriam inevitáveis. O gás queimaria a pele e marcaria para sempre o traçado preto-índio. Tatuagem do momento vivido. Alteração corpórea provocada por diminutas pinturas nos rostos, eternizadas pelas bombas de gás. Eu continuei com os traços pretos na cara me escondendo dos lacrimogêneos. Praça-romana-de-São-Paulo-mundo: a polícia batendo, os pobres apanhando, as mulheres chorando, os estudantes reivindicando, a propriedade privada prevalecendo. E a vida de algum modo sub-insistindo…

A Calçada:

Depois do despejo inevitável, a tatuagem na calçada em frente ao prédio outrora ocupado. O grupo de sem tetos da Plínio Ramos se arrisca em marcar a frente-do-prédio-da-cidade com sua instalação-presença. O prédio despejado fechado de cimento torna-se parede de prego que sustenta as lonas-pretas, casas arranjadas, arranhadas nas calçadas. Já não há teto, já não há prédio, somente uma condição de existência exposta na calçada pública: Instalação-de-vida-lona.

Também os sem tetos inscrevem suas vis hierarquias nos terrenos incertos… As expulsões decididas em assembléias… As tarefas de grupo impostas por coordenações autoritárias… Em seu nomadismo forçado a instituição política social quase religiosa tenta ordenar o intempestivo sempre iminente. As calçadificações da vida cronificam desamparos, desmedidas, intempestividades. A lona, apesar de sua concretude, não é concreta o suficiente para proteger a vida das balas do bandido, da polícia, dos raios da tempestade, da autoridade, da demência. A miséria que toma conta da instalação-sem-teto se abre também para jorros de loucura; mas esse tipo de desmedida produzida nos corpos-sem-tetos ainda não está inscrita e reconhecida nos laudos jurídicos, sejam de acusações ou defesas.

O desvario surge aos poucos… Os golpes da desesperança densificam vagarosamente a realidade cor-de-lona-e-fome, tenuamente calcinam os corpos quase-todos-pretos. A vida se altera como se bebesse golaços de aguardente. O embriagamento paulatino exercido pelo excesso de uma realidade nua, transporta as vidas-tatuadas-nas-calçadas para campos de concentrações demasiados. O real densificado vai criando estados de torpor e de demência. Desmoronam identidades, por certo, desmoronam também potências… Vida-lona; vida-superfície. Sem romantismo e sem desprezo. As corporeidades horizontalizam-se; calçadificam-se… Os jatos de poder retornam intermitentes em pequenos espasmos delirantes…

A mulher faz voltas no quarteirão, está furiosa; fala diretamente com um ministro qualquer sobre a situação em que ela e os seus foram colocados: celular de plástico – brinquedo do filho –. Faz uma série de exigências, fala em indenizações, ofende a esposa do presidente e por vezes agacha-se, como se estivesse com dor no estômago, a fim de recuperar forças para o próximo xingamento. Volteia o acampamento estendido em frente ao prédio de portas acimentadas. Berra maledicências contra a polícia e acusa deputados de assassinatos. O resto da população instalada ouve conivente suas vociferações, lhe custa acreditar que não há ninguém do outro lado da linha, pois é tudo tão absolutamente provável… A vida comprova a factualidade das palavras da cozinheira! No entanto, a própria vida torna-se improvável… O delírio daquela-que-cuida-da-cozinha sinaliza, enquanto gesto corpóreo, a fome-louca-de-todos-os-tempos. Fomes e demências…

Performance inédita e imemorial produzida por uma pequena multidão sem teto. Meses antes do despejo fatídico da Plínio Ramos ou de qualquer outra ocupação eles, os cães magros, perambulam aos bandos à procura de prédios abandonados. Migrações internas da cidade; populações em deslocamento. Uma massa miserável adentrando inusitados territórios: disfunção-da-cidade-da-ordem. Procuram espaços ociosos cheios de dívidas – antigas dádivas. Pequenas matilhas de despejados do mundo atrevendo-se a habitar. Mapas trêmulos, insuspeitáveis variações nos territórios comuns da cidade territorial e burocrática.

Reminiscências… Performances como composições de expressibilidades; gestos que abrem passagens para imemorialidades; ocupações como movimentos performáticos públicos ontológicos e escandalosos. E o império… Ah, o império! “A multidão exigiu o nascimento do Império” 1.

O Cortejo Fúnebre:

Uma semana após o despejo (24/08/2005), despejados, coletivos de arte e estudantes colaboradores juntaram-se para preparar o Cortejo Fúnebre do 7º Dia de Morte da Ocupação Plínio Ramos e levaram um caixão preto com letras vermelhas em frente à CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), para tentar uma reunião com a diretoria da instituição e apresentar as propostas de negociação do MMRC; mas eles não foram acolhidos. A criatividade estética da reivindicação não comoveu a posição dos diretores, e isso nos serviu de grande questionamento: _ Poder Governamental X Arte Pública.

As Perguntas:

_ Teriam esses tipos de atos públicos e performáticos alguma razão de existirem por si mesmos ao invés de serem promovidos exclusivamente a um destinatário?


_Que mecanismos empregar-se-iam para legitimar eficazmente essas novas linguagens/passeatas?


_ Se finda a palavra de ordem e, no seu lugar, uma série de performances ritualísticas se iniciam, como se modificariam também as perspectivas de inteligibilidades do socius?


_ A ocupação subjetiva produzida pela ampliação do espectro sígnico das passeatas seria eficaz a ponto de integrar as demandas dos movimentos nos vários segmentos da sociedade?


_ Para além do evidente lamento coletivo pelo assassinato promovido pelas instâncias jurídicas à Ocupação Plínio Ramos, que outras signagens estariam sendo produzidas nesse cortejo?


_ O que mais diziam essas máscaras mortuárias que empurravam carrinhos de bebes e Djmbes, cujas bocas amordaçadas e mãos dadas destilavam incenso de enterro em plena via pública?


_ Esses novos regimes de signos certamente propunham uma nova economia de registros sócio/políticos. Quais aplicabilidades, no entanto, se produziam efetivamente?

Os Sígnos:

Essa performance coletiva de alto teor sígnico e expressivo recorre aos sinais poderosos da morte para explicitar a perda sofrida. Ao levarem um caixão com o nome da ocupação assassinada, em letras vermelho/sangue, eles modificam a obviedade das faixas reivindicatórias introduzindo a morte como elemento de comunicação. Esse elemento trazido em cotidianidade ordinária, por uma coletividade vestida de lona preta, com barriga de lona preta grávida de nossas cidades invadidas de lona preta, remete a transitoriedade e instabilidade a qual estão submetidos, lhes aproximando demasiadamente da situação dos inumeráveis outros que estão inseridos forçadamente nos contextos de miserabilidade (moradores de rua). Com suas bocas lacradas expressam uma radical mudez imposta, uma indiferença vivida por quem não tem suas demandas escutadas. As crianças de mãos dadas e os carrinhos dos bebês sendo empurrados pelas mães pactuam publicamente uma cadeia de resistência genética, tangenciando esse papel de procriadora/mulher que sofre, para além de si mesma, os abatimentos da fome e da doença que recai mais pesadamente em sujeitos desabrigados: – o “futuro do pais” imerso nas concretudes calçadificadas da cidade grande -, e ao mesmo tempo demonstram com esse ato, a força de revide desde o berço, que se inscreve nas instâncias subjetivas tanto dos que assistem a passeata quanto das próprias crianças carregadas. Enquanto isso, a perua mascarada e sorridente bate tampas de panela revelando com sarcasmo a implausibilidade da situação. O ritual coletivo mostra-nos a potência condensada dessa coletividade que se atreve a carnavalizar a própria condição demonstrando publicamente, seu vigor compartilhado, e de fato agregando não só os desavisados transeuntes como também colaboradores das mais variadas frentes, inclusive os próprios coletivos de arte e/ou intervenção, que implicados no processo tem função de amplificá-lo na pólis virtual, através das mídias, dos sites, dos jornais, dos blogs, das revistas, das discussões em seminários, das teses, e principalmente da instrumentalização dos sem tetos em produção de tecnologias de comunicação para que possam gerar suas próprias demandas/ações-virtuais2, constituindo o alargamento dos atos nos territórios imateriais e subjetivos, onde subjazem os valores humanos e as opiniões habituais.

Inconclusão:

Talvez uma das funções dessas mudanças estéticas promovidas nas formas de manifestação dos movimentos de moradia é multiplicar os sentidos da luta social, impingindo sobre seus contornos uma rede nova de constelações conectivas e conectáveis, onde se acoplam outras percepções – a luta pela moradia torna-se vontade de cidade, o tempo festivo, a retomada dos espaços públicos e dos tempos festivos de compartilhamento da coletividade, a exemplo do MST que utiliza como um dos seus slogans: “A Luta pela Terra é Uma Luta de Todos. É um mote discursivo que amplia as reivindicações do movimento social para outras instâncias antropológicas e ativa um lastro desejante muitas vezes sucumbido pela práxis urbana.

Mas, apesar disso tudo as estruturas governamentais ainda não estavam aptas a corresponderem a essas reivindicações dilatadas da vida pública e durante os três meses de acampamento na calçada da rua Plínio Ramos, em frente ao edifício acimentado, os sobreviventes do insultante despejo resistiram às investidas dos emissários da prefeitura que lhes ofereciam vagas em albergues ou uma quantia irrisória de dinheiro para voltarem às suas cidades. Depois de três meses de negociações ofereceram para as famílias, mas não aos solteiros ou casais sem filhos, uma quantia de 350 reais por mês, durante um ano (projeto bolsa aluguel), que deveria ser utilizada para o pagamento de aluguel. Assim conseguiram dispersar o movimento, que não tendo meios de alugar um prédio coletivamente, espalhou seus membros pelas zonas do subúrbio de São Paulo. No entanto, o MMRC continuou fazendo reuniões com alguns ex moradores da Plínio Ramos e fomentando novos grupos para entrarem no movimento e fazerem novas ocupações. A história se repete… se repete… Ritornelo escandaloso e no entanto sempre novo.

Fabiane Moraes Borges é pesquisadora da performance, psicóloga e ativista de arte e mídia.








1 “As massas revoltadas, seu desejo de libertação, suas experiências com a construção de alternativas e suas instâncias de poder constituinte apontaram, em seus melhores momentos, para a internacionalização e globalização das relações, para além das divisões de mando nacional, colonial e imperial. Em nossa época, esse desejo posto em movimento pela multidão foi atendido ( de forma estranha e perversa mas apesar disso real) pela construção do Império. Pode-se até dizer que a construção do Império e de suas redes globais é uma resposta às diversas lutas contra as modernas máquinas de poder, e especificamente à luta de classes ditadas pelo desejo de libertação da multidão. A multidão exigiu o nascimento do Império”. Cfe Michael Hardt e Antonio Negri. Império. Ed. Record. Rio de Janeiro RJ. 2001. P. 62.

2 Me refiro a alguns ativistas do software livre que nesse momento estavam se conectando com o movimento sem teto com propostas de meta-reciclagem, que é uma comunidade virtual aberta que reivindica a reapropriação da máquina pelo sujeito. www.metereciclagem.org

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