entrevista de lucia nazer com fabi borges

Posted on março 6, 2008. Filed under: Uncategorized |

Hola! Com certeza você já conhece algo da minha pesquisa (e insistência para o contato com você). Estou enviando algumas perguntas – disparadoras já que acho sua colaboração imprescindível para o debate que quero dar sobre a temática de Coletivos Artísticos e circuitos artísticos alternativos

Minha pesquisa se baseia em coletivos artísticos que actuam na cena artística brasileira. Até agora tenho observado que além de participar de um dialogo intertextual de troca entre coletivos, os mesmos se propõem com suas praticas, realizar e reflectir em volta de questões políticas, sociais, estéticas… falo de  coletivos como  Poro, GIA, CouveFlorUpgrade do macaco, Zaratruta, EmpreZa, Esqueleto Coletivo, Transicao Listrada, Crueis Tentadores, Entretantos, Catadores de Historias, e (muitos) outros,  e a encontros tais como o VISOR, VERBO, INCORPORO , COROCOLETIVO, REVERVERACOES, Seminário RITMOS DA URGÊNCIA, MULTIPLICIDADE,  E I A – Experiência Imersiva Ambiental, etc.

Pensando nestas propostas tão diversas e heterogéneas levanto algumas perguntas sobre estas praticas político estéticas que apostam á coletividade e colaboração. Tal vez vocês me ajudem a construir respostas ou a enriquecer o debate. com as suas palavras, experiências e opiniões. Desde já agradeço enormemente sua colaboração!! E aclaro que as perguntas são uma guia que pode ou não estruturar suas respostas… valeu e estamos na fala! (em anexo vai achar o mesmo que a continuação…)

 

  • Qual a relação entre indivíduo e coletivo na prática artística contemporânea?

  • eu acho que os grupos que estão pegando mais pesado na idéia de colaboração tanto na ação quanto na distribuição de conteúdos são os grupos relacionados a ativismo de mídia, comunicação e software livre. Os coletivos de arte propriamente dito ainda recaem em uma falta de mobilidade para distribuir conteúdos e ficam somente firmando seu próprio trabalho nas ações que produzem. Tem entretanto os coletivos que fazem ações conjuntas com outros coletivos e isso é bacana, entra nome do coletivo, entra indivíduo, entra quem tá ligado na parada e acabam formando um grupão de ação com foco na própria ação. Nesses momentos as individualidades sucumbem à ação e vemos a beleza de um ato de multidão, aos moldes do projeto de multidão do toni negri. Há indivíduos que podem sustentar sosinhos o nome de vários coletivos por serem um ponto aglutinador de idéias e grupos. A individualidade ainda é um vício, coletivos de arte é ainda um processo identitário. Mas as ações colaborativas entre coletivos e sujeitos são práticas fundamentais para desestabilizar minimamente essa doutrina do eu, superestimada pelo mundo da arte de galeria museu: o autor, o artista, o indivíduo. É difícil fazer isso, estamos todos num processo.

 – Quais os fundamentos das práticas artísticas transversais e colaborativas? Ou porque trabalhar neste formato??

porque é a unica saída. porque estamos ilhados num indivdualismo cada vez mais premente, porque estamos sequestrados do nosso comum… e quando inventamos a vida, colaboramos, distribuimos, participamos com o outro, sem desrespeitar, evidentemente, a possibilidade de se estar só.. então salvamos vários coelhinhos, nos tornamos pessoas com mais acesso e que dá acesso, quero mesmo saber quem é que vai pagar isso tudo. o dinheiro que a galera anda inventando, nas artes, no mundo ativista, é uma possibilidade simbólica mas que nos toca a todos. não é possível nos tornar-mos duros e poucos. mas pode acontecer. O formato da colaboração é o mais importante porque sai da lógica de um consumo e de uma posse e vai para o formato da destribuição e coletivização do crescimento.

  • Como é a relação entre estética e política nas propostas dos coletivos artísticos ?

  • Depende de que cidade se está. Eu vejo uma diferença absurda entre as práticas coletivas de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. Enquanto em São Paulo os grupos se levam super a sério e são mais engajados nos espaços políticos, urbanos, fazem reuniões, discutem coisas, no Rio é muito mais engraçado, divertido, hedonista, descompromissado, com um descrédito às políticas públicas assustadora, as ações no espaço público são mais voltadas a acontecimentos da mídia, ou a temas como a violência, a guerra das favelas, também às festas públicas carnaval, funk, hip hop. Há no entanto uma evidente aproximação de linguagens estéticas, de algum modo diferenciados pelo fio inspirador de cada cidade ou cada metáfora. A estética de design, placas, adesivos, stikers, de algum modo se repetem em qualquer parte do mundo, o que muda mesmo é o ponto disparador da ação, o que faz o sujeito/coletivo se mobilizar para agir. A estética escolhida para a ação seria o sígno que evidenciaria a problemática política, seja no campo da economia, da política pública, do meio ambiente, das políticas ativistas e ideológicas.

  • Faz sentido falar de uma arte contemporânea contra – hegemónica, alternativa, clandestina ou simplesmente “política”? Quais seriam suas características e estratégias?

  • Ela passa a pensar mais diretamente os processos sociais, ela se torna uma arma de guerrilha semiótica, ela atua no simbólico tentando implantar diferenças no cotidiano alienante. a publicidade atua também nesse sentido, só que ela tá muito mais voltada a continuar um padrão de consumo do que mobilizar o desejo para mudar o mundo, ou inventá-lo mais livremente. Há uma relação direta entre as ações alternativas e as hegemônicas, uma é a fonte que renova a outra, é a reciclagem propriamente dita. Esse conflito é o conflito do movimento contra a conservação, o embate é um jogo. O que esperamos é que os embates consigam ruir minimamente as estruturas tão radicalizadas em padrões que já não nos dizem respeito. por exemplo os do grande autor, do grande cinema, do grande artista. Tudo está conectado e a revolução da comunicação é a plataforma onde temos a possibilidade de mudar um pouco tudo isso.

  • Que relações e influencias podem se assinalar entre os Coletivos Artísticos ativos na atualidade e os movimentos de vanguardas do S.XX?

  • É uma linha de ação contínua, são os “escolhidos” para manter viva a prática da revolução. Os que dedicam parte da vida ou a vida inteira em manter acesa a chama da mudança. Tem total relação, é completamente influenciado pelas práticas artisticas do século XX, e com o advento da internet, isso se tornou mais aproximável ainda. Talvez a grande pergunta seja no que influenciamos os movimentos de vanguarda do s XX, sim porque nunca houve uma distribuição tão grande de conteúdos dessa época, de forma totalmente livre, disponibilizada. Mais uma coisa que aproxima é que nós estamos inventando linguagens como eles inventaram. É um movimento que não termina. E não é tão especial assim ao mesmo tempo.


    Existe um posicionamento ético/político nas praticas e propostas artísticas?

  • Sim, influenciados pelos movimentos de Vanguarda do Sec. XX, pelas lutas revolucionárias, pelo catolicismo, pela política das pólis, pela literatura romântica, pela revolução comunista, anarquista, por uma esquerda qualquer. Existe um engajamento numa ética de generosidade, colaboração, que acredita ainda no espaço público das mudanças.


  Qual a posição dos coletivos em relação à editais e curadoria?

No meu ponto de vista são muito menos radicais do que deveriam. Ao invés de propor editais deveriam propor encontros como o submidialogia faz, ficar mandando projeto pra amigo, conhecido ver se aprova ou não é o cúmulo da estupidez, é não compreender o poder que se tem em mãos para mudar as coisas, é querer se enquadrar na parede da galeria, tem reivindicação na obra mas continua o mesmo idiota nas formas de conseguir os conteúdos. penso que tem alguns grupos que tentam fazer diferente, mas na maioria ainda são totalmente atrelados a sistemão de arte, o que eu acho uma pena. Quanto a curadoria, penso que é um mal meio inevitável, o cara ali que vai montar algo, mas é tudo meio sujo, fica vc ali esperando ser curada. o curador seria importante por estar conectado a tudo que está sendo feito e o que interessa… enfim… é uma figura ontológica, o que sai em busca do extra. mas faz parte de uma mesma raiz de exclusão. eu sonho com lugares como o ACMSTC que não teve curadoria, não teve edital, e todo mundo trabalhou pra caramba, deu tudo que tinha, agiu colaborativamente. claro, aí tem que se perguntar como então que se sobrevive, certo? temos que lutar por salário social. Meu problema não é com a curadoria em si, é com a restrição, com a exclusão, com a formação desse artista bom e rico e o que é ruim e fica pobre, o que não vai pra casinha do colecionador. isso me deixa triste. Ver pessoas que dedicam sua vida inteira fazendo arte e não são escolhidos como artistas nem pelos editais, nem pelos curadores, e fica ali restringido a essa realidade, que é a que mais fortemente inscreve ou não o sujeito artisto como algo com ou sem valor. É com isso que compactuamos quando fortalecemos a estrutura de editais e curadorias.

  • Como é a articulação e comunicação dos coletivos com outros atores, institucoes ou espaços da sociedade e da política? 

     

  • Penso que no mundo do ativismo isso é muito mais evidente. O greenpeace, blacks blocks, galera que vai reivindicar em frente da G8, tem uma articulação e comunicação entre si engajada a questões de muita relevância, importantíssimas, determinantes. Em sampa é uma coisa que tá começando a ficar mais forte, talvez venha a se tornar um movimentão mesmo… mas o problema é a hierarquia e formas de organização dos movimentos sociais, cujas coordenações muitas vezes são intolerântes, facistas, tratam povo como massa de manobra, não tem respeito a pequenos movimentos, essa articulação é complexa, acho que seria importante continuar nessa aproximação sígnica engajada e ir aprendendo a destribuir e colaborar, implantar nos lugares essa vontade de colaboração… e distribuição… isso é a coisa que eu acho mais interventiva, em nós todos , sociedade.

 

  • Quais as características e os fundamentos da intervenção nos espaços públicos por parte de circuitos artísticos que trabalham colaborativamente? Que questões sobre o “publico” e o “privado” emergem a partir desta utilização do espaço publico?

_ Estamos lidando com diversos tipos de espaços públicos. O das políticas públicas, os da comunicação e mídia, os da interet, os dos valores, do inconsciente coletivo, os das idéias. Não se restringe a praça, mas a tudo que permeia nossas relações e processos históricos. Estamos no limiar de uma mudança estrutural de comunicação onde as forças conservadoras lutam para manter o domínio. Como IGF (forum de governança de internet) que claramente demonstra sua vontade de conter os conteúdos e transformar a internet num espaço de controle e consumo. É um momento especial mas que precisa de engajamento para vingar, precisa de práticas e de comprometimento. O privado é um desejo diariamente produzido e consumido por nós todos. A vontade de TFP – trabalhao família e propriedade, é algo que incorremos todos os dias. o que nos salva é essas práticas bacanas de hortas coletivas, feiras de trocas, espaços comunitários autosustentáveis. Eu não sei nada.

Por favor complete com as informações, comentários, reflexões ou material que achar necessárias ou pertinentes. e porfavor se sinta livre de responder a algumas, todas ou nenhuma das perguntas acima…. outras abordagens e propostas para a discusao serao muito bemvindas!!

Abracos!!

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