ACMSTC – fabi borges e dolores galindo

Posted on maio 30, 2008. Filed under: Uncategorized |

OCUPAÇÃO

Aos Amig@s

Dolores Galindo e Fabiane Borges

25 de Novembro de 2003

Centenas de pessoas recebem em suas caixas postais uma espécie de convocatória

do MSTCCC – Movimento Sem Teto Centro Cultura Contemporânea

Provocamos esse grande encontro de criação e movimento, pois acreditamos que temos experimentado grande potência nessa aproximação – potência de multidão – com força de interferir no rumo normal das coisas.

31 de Novembro de 2003

Entre movimentos sociais, artistas e moradores, cerca de cem pessoas se encontram no prédio ocupado Prestes Maia. Artistas passeiam no prédio, moradores abrem suas casas e algo acontece. Nenhum projeto é apresentado. Os moradores junto com as outras pessoas decidem que construirão o trabalho coletivamente a partir daquele dia. Portaria aberta, basta deixar o nome com o segurança. Conexão e Amplificação!

O prédio viu de tudo.

Era uma antiga tecelagem onde mulheres, Penélopes, teciam no tempo moroso das máquinas mecânicas. Era um tempo de engrenagens: lento. Época das greves operárias em São Paulo. Chegamos vinte anos depois no mesmo prédio, sem máquinas, fiação exposta, escadarias íngremes pelo desgaste e é agora um tempo outro. Um tempo ocupado. Vinte e dois andares, várias portas. Em cada porta uma casa. A antiga fábrica mais parece cortiço. De lugar de trabalho a lugar de moradia. Ao invés de operários forçando portões, trabalhadores sem teto organizando assembléias. Estamos na ocupação Prestes Maia, nº 853. Centro de São Paulo, novembro de 2003.

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O prédio tem cheiro de tudo.

Cheiro de velho, de mijo, de merda, de café recém passado, de clorofila, mas o cheiro mais forte é o cheiro do fogo. Há apenas dois meses o prédio sofreu um incêndio, quatro andares de cinzas; muitos perderam tudo o que tinham e não param de repetir que uma menina morreu, mais dois cachorros e dois passarinhos. Prédio de incêndio – dor coletiva – cheiro queimado. Cheiro de ocupação. Fogo, incêndio, sirene – palavras na língua de dois mil moradores da ocupação Prestes Maia.

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O prédio dorme na Cracolândia

Noite – Sítio – dez horas ninguém sai.

O Prestes Maia se situa na Cracolândia. Um dos lugares mais obscuros do centro de São Paulo: zona de tráfico, de uso aberto de craque, de prostitutas esbravejando xingamentos e de ameaças de assassinatos. Crianças encolhidas nos cantos trêmulas com cachimbos nas mãos, homens de colares de prata adivinhando tamanhos de caixão. Cores de morte. Um passo e já saímos da ocupação para entrar no terreno dos traficantes. Fomos avisados à exaustão. Rafael que faz vídeo documentário do trabalho força o limite e vai às zonas proibidas. Ameaça. Volta pro lugar de onde você veio! Diz o malandro, eu sei qual é o tamanho do teu caixão. É uma ocupação na Cracolândia, depois das dez horas da noite qualquer morador do prédio só sai com justificativa. Nós entramos e saímos do prédio a qualquer hora.

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Uma performer negocia nos andares

A experimentação determinou todo o processo de ocupação. Nos sentíamos afetados pela força dessa palavra e por tudo que ela potencializa. Criar na ocupação! Ocupar a vida! Então nesse dia, antes de ir ao prédio ocupado, uma de nós se deixou levar por um devir ritual índio pós-moderno. Rosto em traços de tinta vermelha, corpo em pinceladas coloridas, grinalda de ramos secos na cabeça, quadril e pescoço ocupados de tecidos e colares. Era dia de negociações com os moradores do prédio. Primeiramente estranharam a figura que chegava, mas logo incorporaram a “loucura dos artistas” no seu cotidiano. Com a menina dos cabelos mais longos, Jéssica, deu-se um ritual de lamentação no local de fogo de incêndio.

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Nas galerias do prédio vivem os ratos

Ratos aparecem. Entram nas galerias quando batemos os pés no chão. Nosso amigo não gosta de galerias de arte. Nas escadas correm os ratos, as baratas, os moradores, os artistas, os visitantes. São cem artistas na primeira reunião de organização, para uns o nosso artista plástico tem o trabalho de dizer que as obras quando na parede são para ficar no prédio, para outros responder a perguntas difíceis tais como se a venda de CDS pirata também é uma espécie de arte. Longe das galerias de arte, perto demais de artistas, artesãos, camelôs e moradores. Uma mostra de arte dispersa ao longo dos andares sem se concentrar em qualquer um deles. Pelas escadas junto dos ratos, dos moradores, dos artistas, dos artesãos, dos camelôs, o visitante terá que procurar onde estão as obras de arte e talvez isso perca o sentido no meio do caminho.

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O Prédio vê pelas escadas

Há muitas escadas. Degraus em caracol. Para subir aos andares mais altos, são necessárias pausas. Barulhos. Sons de todo tipo. Perto das escadas, jovens se agrupam em pequenas rodas de conversas. Só se tem acesso ao prédio pelas escadas, os artistas que não são moradores sobem. Como os moradores, param para respirar. Um rato se esconde, uma moradora tranca a porta, não quer que ninguém entre; uma outra abre a casa e convida pra entrar. É uma espécie de invasão a um terreno ocupado: alguns artistas olham o espaço, outros não sabem o que fazer atordoados. As escadas vão até os entulhos onde não vive ninguém, mas nem tudo é mostrado; nem tudo é visto. Casas estão em reforma e um dos andares foi pintado. Tudo fora de controle. Ocupamos um prédio em movimento. As escadas não dizem tudo.

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O prédio não quer mapas

Encontro entre artistas de fora e moradores. O artista plástico do nosso grupo anuncia nosso desejo de fazer um mapa. A gráfica esperava os nomes e projetos dos artistas. Foi-se para o espaço nossa vontade de fazer mapas. Queríamos que os artistas escolhessem espaços, anotassem, falassem o que gostariam de fazer. Em vão. O prédio não quer mapas. Ninguém sabe ainda o que fazer. Temos que andar nos prédios, conversar com as pessoas, dizem os artistas. O evento já começou. Cada um que se solte pelo prédio: pelas casas, pelos cafés, bolos de aniversários dos andares e crie.

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A passeata diz do homogêneo, a assembléia e sua busca de consenso diz do homogêneo e mesmo fundamentais não permitem entrever a diversidade das potências de criação presentes nesses estranhos que não se encaixam no mapa moral, criativo ou estético da cidade[1]. São fios invisíveis nos atos públicos: uma casa feita com bambus e porta de acrílico; roupas de garrafas plásticas misturadas aos odores de sabonetes afrodisíacos; as praças montadas nos andares onde as crianças brincam em meio aos lençóis estendidos nos varais e se escondem ao grito dado por uma delas de que a polícia está chegando. Ninguém sabe que Vânia subia inúmeras vezes ao vigésimo segundo andar porque é bonito demais.

Singularidades e modos de comunidade invisíveis nas passeatas e vigílias onde predomina o homogêneo e são essas potências que queremos amplificar. Invisíveis também na história do movimento, nas rígidas rotinas, divisão de tarefas e normas de convivências previstas no regimento[2]. Outras temporalidades, outros espaços de produção ontológica em meio às escadarias de um prédio onde não há elevador. Estamos na ocupação Prestes Maia, Cracolândia, centro de São Paulo.

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