crítica de max ao primeiro vídeo catadores de histórias

Posted on maio 30, 2008. Filed under: Uncategorized |

crítica de Max sobre o primeiro filme catadores de histórias

“A fotografia, desde a sua origem, tem vivido um permanente conflito com sua natureza e com aqueles elementos que puderam defini-la. Este conflito está entre representar a verdade e ao final ainda ser uma máquina de metáforas. A fotografia é o ato mais doloroso para reiterar aquilo que somos e o que jamais quiséramos ser”.

Estas palavras do diretor do Museu de Artes Visuais de Caracas, Jorge Gutiérrez, ilustram com clareza a difícil tarefa da expressão visual. Difícil e como ele mesmo diz, dolorosa.

O vídeo “Catadores” é nitidamente um ensaio estético. Esforça-se na construção de um estado poético, tanto pelo tratamento das imagens e dos sons, como da narrativa e da edição. Mas como ensaio revela desde o início um conflito primordial: a que veio? Se propõe a ser um vídeo experimental? Estaria buscando uma metalinguagem da realidade da rua? Teria a ambição de dar voz aos seus protagonistas? As respostas não estão no vídeo.

O produto audiovisual tem suas armadilhas. O feitiço exercido pelas imagens é uma delas. A forma é sempre mais sedutora que o conteúdo, especialmente numa sociedade como a nossa. No “Catadores” vemos que o conteúdo foi submetido à forma: os depoimentos não se complementam ou se bastam como mensagem – revelam um certo caos conceitual. Isto não seria ruim, não fosse seu conflito original: a que veio?

Enquanto ensaio, temos uma edição que priorizou cenas “limpas”, um cotidiano comum, humano, que qualquer indivíduo morador de uma metrópole, mesmo de passagem pela rua, já viu. No vídeo não foi valorizado justamente o aspecto que mais diferencia o grupo que o produziu: a intimidade entre os pesquisadores e os pesquisados. Assim, ele não desperta o nosso olhar, não provoca incômodo, não nos tira da zona de conforto. Sua estética evita o confronto, suaviza o olhar.

Também chama a atenção o uso das trilhas sonoras. Elas não indicam claramente a que vieram, qual a sua função e coerência editorial. Certamente devem significar algo para os produtores do vídeo, mas isto não foi compartilhado com seus telespectadores.

E ainda, olhando o vídeo como ensaio, poria em debate a lógica da sua forma: sendo um “curta”, haveria a necessidade de abertura e encerramento? Este não seria um formato mais apropriado para um programa de TV?

E quanto ao conteúdo? Os produtores do vídeo, na minha opinião, de fato vivenciaram o dor entre “representar a verdade e ser a máquina de metáforas”. O fogo é a expressão maior deste conflito: ícone principal do vídeo, ele busca dar unidade à edição, mas também serve como a grande metáfora condutora da mensagem. Revelaria o fogo de Prometeu? O mito da miséria humana em contrapartida da posse do conhecimento? Ou por outro lado, apenas apontaria para o único calor comum aos mais pobres dos mortais? O ícone é bom, mas ficou sozinho. Ninguém lhe fez escada. Uma imagem é apenas uma imagem, o que lha dá significado é o contexto em que se insere.

A cena mais forte do vídeo (insisto, na minha opinião) é o que chamo de “diálogo das mãos”, onde dois moradores de rua se tocam por alguns segundos e terminam num “abraço” que está entre o sexo e a violência. Ali vejo o poder deste veículo. Me reconheço naquela cena e me estranho. É o momento verdadeiramente tocante. Mereceria ser melhor explorado.

Finalizando, lembro a máxima do jornalismo: “somos contadores de histórias”. Jornalistas ou não é o que nós produtores culturais somos. E uma história precisa ter emoção. Isto não significa fazer escorrer lágrimas nos olhos de entrevistados ou telespectadores. Mas falar por entre a razão, usando o raciocínio cartesiano como estrutura porosa que permeie emoção. Pois o que transforma é o que toca, não o que convence.

Contem a história de vocês. Não tenham medo da sua humanidade ou daqueles que protagonizam suas vidas. O distanciamento científico só cabe aos tratados acadêmicos. Arte vem mesmo é das tripas.

mas – 2002

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