arte normal – ricardo ramalho

Posted on maio 30, 2008. Filed under: Uncategorized |

O Manifesto da Arte Normal

Respirem naturalmente, a arte contemporânea entrou para a
história da arte, podemos guardar o livro na estante, e
lavar bem as mãos com água e sabão.

Arte contemporânea ja tem fungos e poeiras irritantes aos
olhos, e vias respiratórias, micose persistente, provocada
por estresse emocional. Esta arte provinciana, inquisidora,
acabou. A nebulosa “contemporânea” ja confundiu muita
gente, com sua pretensa eternidade, está mais do que
datada, pelo próprio discurso.

Hoje procura-se arte jovem desesperadamente, mas somente
pouca, duas artes jovens para cada vinte artes
consagradadas. Afinal há muitos consagrados para desova.
Usa-se a arte jovem para dar uma sobrevida à arte
contemporânea, e os artistas jovens pinçados, esfomeados,
equivocados e/ou gananciosos salvam o mês, com ar ingênuo e
sonolento.

Os artistas contemporâneos consagrados, viraram uma peste,
existem em demasiado número, alguns reacionários e
remediados, ricos, entregam obras em moldura barata, muitos
envolvidos em transações não documentadas, fazem pose de
iluminados. Vendas e manuseio ficam a cargo de uma rede
internacional de marchands, o artista não sabe quem são os
compradores, e nem querem saber, estão ocupados na produção
de “peças únicas”, de número 666. Muitos destes consagrados
serão esquecidos em vida, e outros serão esquecidos depois
de mortos, numa situação nada romântica. Os herdeiros
ficarão aflitos e as empresas de gestão de legados
artísticos vão se alastrar de forma endêmica.

A arte contemporânea, ja falhou muito, não surte o efeito
desejado. Lamento. O milênio mudou, e todos vão mudar
juntos.

Arte Normal, é nome da arte, no início do século XXI. Mais
abrangente do que a chamada arte contemporânea, a Arte
Normal prima pelo RIGOR e MORAL. A Arte Normal é
basicamente uma noção muito ampla de performance. Valoriza
a pessoa. Contemplará o design e o artesanado, a música e a
oratória, a culinária e a gravura, dentre outras
humanidades. Tudo o que é bem feito é arte, diz o senso
comum, e assim será.

Este Manifesto histórico mais uma vez será lançado da
Europa, porque é aqui onde se sente muito, mais uma vez, o
esgotamento desta arte contemporânea. De Portugal, que
representa sim todo o continente europeu, para o mundo: não
é Portugal que é Europa, mas é a Europa que fica atrás de
Portugal. Gloriosa Portugal, onde eu estou. Brasil,
gigante, exportador, que recebeu o modernismo numa bandeja
de prata, devolveu a arte contemporânea pelo fedex, recebe
agora, esta Arte Normal por email, em língua portuguesa.

Muitos artistas contemporâneos serão salvos pela Arte
Normal, enquanto outros serão advertidos com um sorriso,
como nas culturas orientais. Colecionadores de arte
contemporânea e moderna, todos iguais, vão ficar de orelha
em pé ao ouvirem falar no estouro da bolha dos valores de
mercado. Quem se diz contemporâneo cai no mesmo ridículo do
colega, que se diz impressionista. Eu mesmo sou artista
normal.

Vão engolir o remédio viscoso da Arte Normal com boa dose
de dificuldade, o que é natural. Não haverão milagres, a
Arte Normal também saberá selecionar e excluir, menos por
reserva de mercado, mais pelo caráter normalizador. A arte
não será o que Você diz, mas sim o que Eu digo. O fazer
artístico se define pelo ato ético. A poética é qualquer
gesto correto. Criatividade é gentileza. O interessante é
belo. A qualidade da ação cultural será medida em sua
totalidade, de forma holística. Os processos, práticas,
procedimentos e tratamentos serão rigorosamente verificados
e documentados.

Uma boa pintura REALISTA de natureza-morta será Arte
Normal, um bom retrato posado, a escultura polida de pedra
sabão, de sucata soldada, o bronze lindo, os originais de
história em quadrinhos, a aquarela.

O artista repetitivo, ao fazer sempre a mesma coisa, será
Normal, se fizer bem feito. O artista simpático é normal, o
pedante será contemporâneo. Quem tem tempo é normal, quem
não tem tempo é contemporâneo. Quem for incapaz não será
nada.

Arte Normal não é uma invenção, é um desdobramento sutil.
Muita coisa contemporânea será comutada para normal,
modernistas, barrocos e pré-históricos. Os museus normais
serão parecidos com os museus de história natural,
diversificados, inteligentes, científicos, pedagógicos,
populares, artísticos. As galerias de arte normal serão
lojas de departamentos.

O artista normal terá o mesmo prestígio de um advogado, um
engenheiro, um contador, um dentista, um político. E se
muitas profissões ja perderam o brilho, poderão se espelhar
nos métodos da Arte Normal para recuperarem sua imagem e
função social. Será exigido muito mais dos curadores. A
Arte Normal não vai apenas promover a paz, vai executa-la.
Arte Normal não é uma proposta, é um facto, ja se troca,
desde a idade da pedra lascada.

Ricardo Ramalho
Porto
30-10-2005

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