sobre o filme guapira – catadores de histórias – por Rodrigo Espinosa Cabral

Posted on maio 30, 2008. Filed under: Uncategorized | Tags:, , , |

NO VALE DAS VELAS E CASSETETES

Texto sobre o documentário “Ocupação Guapira”, de Rafael Adaime, São Paulo 2005.
Baixe o filme no website http://www.pirex.com.br

Adaime tem uma câmera que poderia ser você, se você não estivesse ocupado sendo você mesmo em volta de sua gravata, rezando para que um banco estabeleça ou amplie o seu limite. Se você fosse onde foi a câmera de Adaime, você veria pessoas de osso e carne e quase sem almas ou com a alma comprimida, espremida em olhos negros e assustados como um suco de esperança estragada.

Que coragem desse rapaz em entrar com uma simples câmera entre capacetes e cassetetes, entre mandados e petições, num prédio cercado por soldados de azul, oficiais de justiça e clandestinos na injustiça de ser expulsos do local abandonado e escuro em que foram forçados a morar.

Na língua dos primeiros habitantes de São Paulo, Guapira significa “lugar onde começa um vale”. Na lente de Adaime esse vale é verde musgo, como na cena da oração. O verde atribuído à esperança desta vez se apresenta musgoso. Guapira é o vale das sombras e sobras da sociedade e vale a pena assistir os 15 minutos desse documentário REAL e sincero, onde mesmo a performance artística de Fabiane Borges é interpelada por uma sem teto “Que, que é isso? Vocês vieram pra quê?”

Eu diria que os Catadores de História foram até lá para documentar a desocupação, talvez na esperança de que a câmera ajudasse ou protegesse a comunidade envolvida. O problema é que as pessoas sempre querem que o cinema vá onde elas não podem ir. Nos filmes, as pessoas torcem para que o bandido fuja da prisão, que o roubo dê certo e que o mundo seja salvo. Por isso a frustração da ex-moradora, por isso todo o impacto e frieza do filme, que se limita a exibir os fatos com crueza e arte, mas sem voice over, sem legendas, sem fundamentar posições de forma verbalizada.

Apenas no final, quando somos informados que os sem teto conseguiram um novo apoio, é que há uma gentileza de Adaime para com a audiência, liberando um mini-alívio com “Senhor Cidadão”, de Tom Zé. Uma música mais animada (embora questionadora) enquanto alguns moradores são mostrados sorrindo. O efeito funcionou muito bem, em conjunto com a música de Felipe Ribeiro que aumentou o suspense e a tensão dos fatos durante todo o filme. O Tom Zé no final dá algum alento para a platéia.
Uma vela no vale dos cassetetes.

Rodrigo Espinosa Cabral

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