Sobre os coletivos de arte carioca – cleusa maria

Posted on maio 31, 2008. Filed under: Uncategorized |

ÔNIBUS DA ARTE – Coletivos de artistas ocupam as ruas do Rio, invadem a internet e são tema de debates e livros
Cleusa Maria

Pela primeira vez, uma galeria do circuito comercial carioca está abrindo as portas para uma exposição de um coletivo de artistas. Hoje, às 16h, o veterano Imaginário Periférico (criado em 1992 na Baixada e, pela última contagem, com 385 artistas plásticos envolvidos) inaugura na Galeria 90, na Gávea, uma instalação especialmente preparada para o espaço. É um varal metálico, no qual ficarão pendurados, em sacos de plástico, pinturas, colagens, fotografias, impressões digitais e gravuras de cerca de 100 integrantes. Provavelmente os artistas chegarão ao vernissage ainda sob os efeitos do grito de carnaval de ontem à noite, no primeiro ensaio do Bloco Parangolé, que se concentrará, de agora em diante, todas as sextas-feiras até o carnaval, em frente ao Centro Cultural Hélio Oiticica, no Centro. Organizado por Cesinha Oiticica (sobrinho do artista morto em 1980), o bloco sai junto com o bloco da Praça Tiradentes, Prazeres da Vida, e com a Daspu, que reúne prostitutas criadoras de moda e desfiles. No carnaval, a turma sairá pelas ruas do Centro Histórico, animada pelos coletivos sonoros Hapax e O inusitado-Caixa 2. Como carro-alegórico, entram em cena o Fumacê do Descarrego, a caçamba sobre rodas do grupo Rradial, que a cada corso queima 100 Kg de defumador pela cidade e arrasta artistas de outros grupos de artistas.

– A gente quer aglutinar vários coletivos. E no bloco esse encontro pode ser muito forte – diz Cesinha, durante a barulhenta entrevista, coletiva-ao-contrário (uma repórter e dezenas de artistas), que reuniu um diversificado grupo de artistas no ateliê de Ronald Duarte (um dos fundadores do Imaginário Periférico), em Santa Teresa.

Confuso? Sim. Principalmente para o cidadão que ainda não esbarrou com um coletivo dividindo um ovo frigido no asfalto de uma estrada em Bangu (Ovo Frito, feito pelo Rradial, em 2003); ou foi acordado às três da manhã com os trilhos do Bondinho ardendo em chamas em 1.400 m de estopa embebida em gasolina (Fogo cruzado, obra do Imaginário Periférico, ganhadora do Prêmio Interferências Urbanas do Santa Teresa de Portas Abertas, em 2002). Mas coletivo de artistas é isso mesmo que diz o dicionário. Como adjetivo, é aquilo que abrange e compreende muitas pessoas e coisas; como substantivo, um veículo de transporte de passageiros com um só destino. No caso deles, o de botar a arte na vida, ocupando o espaço público urbano com ações artísticas, sejam elas performances, panfletagem, ou interferências urbanas.

Erickson Pires, 34 anos, do atuante Rradial (coletivo de cinco integrantes criado durante o colóquio Resistência, em 2002, pela doutora em Filosofia da Matemática da Sorbonne Tatiana Roque) esclarece em nome de todos:

– Fazemos um trabalho no campo da resistência, da vida e da diferença. Temos a mesma tática de ocupação dos espaços públicos: os trabalhos, em sua maioria, são efêmeros e as ações rápidas, como a vida, que está sempre em movimento.

Alexandre Vogler, 32 anos e também do Rradial, assinala que uma das características dos coletivos cariocas é a agregação pelas relações de afeto. De fato, pela ”coletiva” de quarta-feira, no ateliê de Ronald Duarte, passaram uns 30 artistas plásticos, integrantes de um ou mais dos cerca de 30 coletivos existentes hoje no Rio. E – incrível! – quase sempre eles chegaram ao consenso sobre o tema e, em raros, momentos se perderam no contemporanês (a língua falada nas artes).

Erickson Pires, que também fundou o Hapax (grupo que faz performances sonoras com sucatas e já gravou até CDs com o resultado) diz que coletivos ”são da ordem da necessidade”:
– Não tem outra forma de organização possível. O que é o trabalho de arte hoje? É a pulsão da vida em grupo.

O artista plástico Romano (ele não usa sobrenome), 36 anos, integrante do coletivo O inusitado-Caixa 2, junto com o também artista Massares, está de acordo. E faz sua intervenção:

– Estamos resgatando a idéia de comum, daquilo que é pertencente a todos e a muitos.

Nivaldo Carneiro, 49 anos, professor de Escultura da escola de Belas Artes, artista e integrante do Imaginário Periférico, pisa fundo no acelerador do ônibus da arte:

– O coletivo traz a possibilidade de novos rituais mais ajustados à complexa dinâmica contemporânea.

Também participante do Imaginário, o artista plástico e professor de Desenho Geométrico Claudio Cambra segue pela mesma via expressa:

– É a volta da convivência tribal.

O fenômeno que mobiliza essas tribos não é exatamente novo. Surgiu nos Estados Unidos nos anos 80 e chegou ao Brasil nos 90. Tecnicamente falando, o primeiro coletivo carioca foi o Imaginário Periférico, surgido em 1992. Em 1996, com a criação do Santa Tereza de Portas Abertas, apoiado pela Prefeitura, os coletivos ganharam lugar cativo no projeto Interferências Urbanas. Hoje, têm espaço garantido no Projéteis de Arte Contemporânea, promovido pela Funarte.

Então qual a notícia? A novidade é que os coletivos de artistas tomaram conta das ruas das grandes cidades de todo o país (seja Recife, Belo Horizonte Natal e, claro, a moderna São Paulo), e especialmente no Rio, onde pipocam em proporção vertiginosa. Expandem pelo espaço virtual e já se formou uma complexa rede na internet – o site do Canal Contemporâneo é consulta obrigatório para os que acompanham essas manifestações. Os coletivos são tema de textos em revistas especializadas, como a Arte & Ensaios, do Programa de pós-graduação em Artes Visuais das Escola de Belas Artes (UFRJ). E além do boca-a-boca, têm seus próprios veículos de comunicação, digamos, de massa.

A revista O ralador, criada em 2002, pelos artistas plásticos Guga Ferraz e Roosivelt Pinheiro, este com 41 anos e doutorando em Linguagens Visuais, é uma referência impressa para os coletivos de arte no Rio. Custa R$ 3 nas livrarias Travessa do Centro Cultural Banco do Brasil e na Da Vinci e, por conta da ousadia, é proibido para menores de 18 anos.

A cidade ocupada

Roosivelt Pinheiro, que integra diferentes coletivos, conta que até o número 3, as edições de O ralador foram bancadas por eles próprios:

– Vendemos anúncios para botequins e padarias. O número 4 teve apoio da Prefeitura. A revista sai quando dá.

Os coletivos de artistas se espalham também pelas ondas sonoras. Pela Rádio Interferência, emissora experimental dos alunos da Escola de Comunicação da UFRJ, vai ao ar toda sexta-feira, às 18h, um programa que é, ele mesmo, uma performance. Os criadores são Romano e Massares de O inusitado-Caixa 2.

– O programa é realizado comunitariamente por vários artistas, com performances públicas de um coletivo, que se forma e se desfaz, afirmando a efemeridade do rádio e do áudio – explica Romano, que é o autor também de uma interferência no site da agência de notícias Reuters, através da qual se acessa a Roi d’Ars, a agência de notícias dos coletivos de arte do Rio.

Na internet já se discute também a criação da TV Zona, uma emissora com programação voltada para as ações dos coletivos. E, em março do ano que vem, a Editora Aeroplano lança o livro Cidade ocupada, de Ericskon Pires. Ele adianta:

– Acabou aquela postura bélica das vanguardas, como nos anos 60, que se agrupavam, historicamente, pela ruptura.

Os integrantes dos coletivos acreditam que hoje não há como ter vanguardas. Ninguém ali quer ser rebelde sem causa, diz um; as pessoas não têm mais a ilusão de ser um grande artista, diz outro; o espírito de competição é coisa do passado, acrescenta um terceiro.

– Hoje lidamos com a questão do afeto – observa Hélio Branco, do Imaginário Periférico.

E Alexandre Vogler toma a palavra:

– A gente não vai para a rua em confronto aberto contra galerias ou instituições. Este é um discurso caduco. A cidade é o grande espaço, onde está a vida, a arte. Acabou a fronteira, o que fazemos é a diluição da arte na vida.

No repertório desses artistas que integram os coletivos não se inclui mais a histórica pergunta sobre o que é arte?

– Hoje perguntamos o que é a vida – resume Erickson.

Em pinceladas gerais, os artistas que integram os coletivos, em sua maioria, têm formação em artes visuais ou passaram por um mestrado ou doutorado nesses campos. Geralmente estão entre 25 a 40 e alguns anos de idade, possuem carreiras individuais e quase todos já fizeram exposições no circuito comercial ou institucional.

– Trabalhamos com a idéia de inclusão, de interlocução de todas as linguagens. Para participar do Imaginário Periférico, por exemplo, basta ter uma produção e se denominar artista plástico – confirma Ronald Duarte.

Para o jovem Grupo Um, formado por artistas entre 20 e 30 anos, em 2003 a partir do Manifesto Um, ”tudo é um”. Nadam Guerra, 28 anos (um dos fundadores, junto com Domingos Guimaraens), dá os detalhes:

– Arte é um, incluindo artes visuais, teatro, música, dança, cinema, ou o que for. O conceito de ”arte viva” vem sendo usado pelo coletivo (que tem entre 12 e 15 artistas plásticos participantes) para designar os próprios trabalhos, a maioria performances e instalações.

Ana Prado, artista plástica com mestrado em Arquitetura e Urbanismo, do coletivo Chave Mestra, adianta que no ano que vem será realizada a segunda edição do Encontro de Coletivos de Arte (com a participação de grupos estrangeiros). O grupo, atualmente, é o responsável pela organização do Santa Teresa de Portas Abertas

– Promovemos eventos de coletivos como o Interferências Urbanas. Como o Portas Abertas é institucionalizado temos como levantar patrocínios para os artistas – diz ela.

Afinal, do que vivem esses coletivos, já que arte pode ser tudo, mas não enche barriga? Eles respondem que quase todos dão aulas, uns vão dando um jeito, alguns conseguem verbas ou vão ”saqueando”:

– Por exemplo, o grupo faz uma produção e saqueia verbas para outros projetos – revela Erickson, referindo-se ao redirecionamento dos recursos.

(16/12/2005)

Fonte: JB Online (http://jbonline.terra.com.br/).

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